Uma obra-prima: “A Peste”, de Camus

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Releio, com um frêmito interior de emoção e deslumbramento, um livro cuja primeira leitura, inexplicavelmente, não me impressionou demais. Talvez porque o momento psicológico não fosse adequado. Ou porque o adolescente não estava preparado para o impacto das páginas fortes que lia com pressa. Não importa agora descobrir os motivos determinantes do fato. Basta apenas admitir que o fenômeno aconteceu. O que vale, a rigor, é a fruição de agora. O livro é A peste. O autor, Albert Camus. Livro admirável. Uma obra-prima do romance europeu do século passado. Belo e denso. De uma densidade grávida de beleza. Mesmo sendo um romance-tese, com raízes no ensaísmo filosófico camusiano, disposto a condensar e a encarnar – em termos ficcionais – um universo conceitual, ideológico, é uma obra muito rica. Rica de seiva humana, de grandeza psicológica, de força estética. Livro noturno e, ao mesmo tempo, luminoso. Com algo de um sol negro nervaliano. Que, intermitentemente, ilumina e obscurece a alma de quem o lê. Sua leitura faz pensar. Suscita a reflexão. E o que é refletir? É voltar-se para dentro de si mesmo, numa espécie de ginástica do intelecto, de ruminação interior. É sondar-se, questionar-se, fazendo incidir a lanterna do autoconhecimento, da autorrevelação, nos interstícios obscuros da mente. Buscar seguir o fio de Ariadne no labirinto das ideias que se entrechocam, se digladiam e conflitam. Tentando iluminar a própria percepção – dentro de mim, para mim mesmo. Não é outra, afinal, a finalidade das notas que se seguem, nascidas à margem da leitura atenta e da reflexão tanto quanto possível conscienciosa.

 

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Há uma quase unanimidade da crítica internacional ao admitir que A peste, mais do que O estrangeiro, O mito de Sísifo, Calígula ou O homem revoltado, pesou de forma decisiva na concessão do Prêmio Nobel ao seu autor, pela Academia Sueca, em 1957. Se, de fato, o livro publicado dez anos antes pesou na balança decisória, mostraram-se então mais sensatos do que nunca os nem sempre conspícuos acadêmicos escandinavos. De certo modo, redimiam-se de alguns erros e equívocos anteriores. (Nos quais, diga-se de passagem, haveriam de reincidir, nos anos subsequentes. Mas isso é outra história.)

 

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A peste é uma daquelas obras de eleição, fundamentais, que, depois de lidas, meditadas – e “digeridas” –, nos deixam no íntimo uma impressão estranha. Qual? A de que o seu desconhecimento nos tomaria irremediavelmente mais pobres em termos espirituais. A sua leitura não apenas ilumina, como enriquece a sensibilidade do leitor eventual. Alarga a sua cosmovisão. Aprofunda a sua compreensão desse “bicho da terra tão pequeno” que leva no frontispício o nome sagrado Homem.

 

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A 16 de abril, o doutor Bernardo Rieux saiu do gabinete e viu no patamar um rato morto. Sem ligar importância ao caso, afastou o animal e desceu a escada. Mas, chegando à rua, veio-lhe a ideia de que o rato não estava no lugar próprio e voltou para avisar o porteiro. Ante a reação de velho Miguel, viu bem que o seu achado era realmente insólito. A presença do rato morto lhe tinha parecido estranha, e o porteiro a julgava um escândalo. Afirmou logo, categórico: não havia ratos na casa. O doutor assegurava que vira um no patamar, lá em cima, e a convicção de Miguel permanecia firme. Nenhum rato na casa. Certamente haviam trazido esse de fora. Tratava-se de uma pilhéria. No mesmo dia, à tarde, Rieux procurava as chaves antes de subir, quando viu, no fundo escuro do corredor, um rato enorme de andar incerto e pelo molhado. O bicho parou, tentou equilibrar-se, correu para o médico, parou de novo, deu uma cambalhota e, com um gritinho, aquietou-se, os beiços tintos de sangue. O doutor esteve um momento a examiná-lo e depois subiu. Não pensava no rato.

simoes_2_capaAssim começa A peste. Tem algo de reportagem de um jornalista que se limita a narrar fatos, no tom neutro da impassibilidade. Nos dias seguintes, o número de ratos mortos, em toda parte, e nas casas da cidade argelina de Oran, vai crescendo. De dezenas passam a centenas, depois a milhares. Não há dúvida: é uma epidemia. Depois começam a morrer homens, mulheres e crianças. Numa escalada progressiva, geométrica. É a peste. Toma-se necessário fechar, isolar a cidade. Ninguém entra e ninguém sai. A quarentena é total. Intramuros, começa a desenrolar-se a batalha contra o mal. Uma espécie de guerra. Com os heroísmos e as covardias, as abdicações e as renúncias, as grandezas e as misérias comuns a todos os confrontos bélicos. Até mesmo com o oportunismo dos que procuram faturar em cima deles, vencidos pela cupidez do lucro fácil. Há algo de dramático na luta, que lembra as clássicas tragédias gregas de Ésquilo e Sófocles, documentando a luta dos homens com o destino imposto pelos deuses. Uma grandeza espetacular anima o embate em que tantos sucumbem, física e espiritualmente. Em que tantos desertam, tergiversam ou se omitem. Mas em que alguns, raros, se alteiam e agigantam, com algo de prometeico na estatura biopsicológica. E o caso do médico Rieux, comandante do exército que procura derrotar o flagelo, que nem por ser um estereótipo deixa de ser um personagem soberbo, na sua exemplaridade comportamental.

 

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Camus é um narrador sóbrio, enxuto. Seu estilo tem a secura e a objetividade do repórter que se limita a descrever fatos. Avesso a filigranas mais ou menos retóricas. Refratário a malabarismos ou mágicas de prestidigitador verbal, florilégios e lantejoulas estilísticas ou rompantes demagógicos. Não há na sua prosa despojada fogos de artifício de pirotécnico que vê a página branca transformar-se numa espécie de céu em noite escura. Não ouviremos grandes gritos, imprecações, apóstrofes veementes. O patético não é perseguido deliberadamente. Quando se verifica é porque se instalou – e instaurou – quase imperceptivelmente nas entranhas do texto. Toma-se presente – e visível – na exasperação surda, na crispação subterrânea, nos espasmos clandestinos que fazem estremecer e vibrar a epiderme textual camusiana, ao longo de uma summa portentosa do homem revoltado com a sua finitud.

 

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Existe um posicionamento existencialista em Camus? Sem dúvida. Contudo, ele não deixa de ser, para lá de sua identificação filosófica (parcial) com Jean-Paul Sartre, André Malraux e Simone de Beauvoir, essencialista como Zola, Flaubert ou Balzac. Antes de mais nada, porém, ele é um esteta com perfeito autocontrole. Com autodisciplina. Não dá vazão a transbordamentos emocionais ou enxurradas histéricas. Se grita, os seus gritos (contidos) são quase silenciosos. Talvez por isso mesmo mais terríveis. Pois não se limitam a ferir os tímpanos: esfaqueiam a alma.

 

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A consciência de responsabilidade. A fé no homem. A urgência do compromisso, do engajamento. A transparência da ação. A convicção da necessidade da missão a cumprir. A plena certeza da dignidade humana. Tudo isso está presente em Camus. Tudo isso irriga os latifúndios do seu universo ficcional – romanesco ou teatral – e ensaístico. Integra, forma a infraestrutura do seu pensamento. Para ele, nada de aceitação tácita, de resignação implícita, de conformismo, imobilização, inércia. Nada disso. O homem, proclama Camus, tem que lutar. A revolta é a única saída que tem à sua disposição, excluídos o desespero paralisante e o suicídio, atentatório à consciência. A tragédia existencial tem apenas duas opções – colabora-se ou combate-se (escreve o romancista na sua Carta a um desesperado). A alternativa a seguir, portanto, é clara. Sim, apesar das engrenagens que o trituram, apesar dos blindados que o esmagam, dos grilhões que o prendem, das mordaças que o silenciam e sufocam, das vendas que o cegam, dos cilícios que o dilaceram, o homem não pode deixar-se afundar no pântano de areias movediças do desespero. Ele tem uma saída à altura da sua dimensão demiúrgica. Qual é ela? Dizer não. Não aceitar passivamente. Não se resignar. Não se conformar. Pelo contrário, resistir com estoicismo, reagir com violência, lutar com denodo e bravura. Só através da luta o ser humano, pobre pigmeu, assume a estatura dos colossos, tomando-se Anteu ou Hércules. Tomando-se, sobretudo, digno de si mesmo. Poderá haver dignidade maior?

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