Exercício teatral de tolerância nas artes da bolinha de gude

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Talvez, já nos tempos de nossa infância, vislumbrávamos um futuro de convivência com a corrupção em nossos jogos e dramatizações. Havia, por exemplo, nas disputas de bolinha de gude, nas suas variadas formas – o turco, a cobrinha e o búrico –, a concepção do inesperado, normalmente exercida por alguém mais truculento, que chegava na rodinha e declarava uma intervenção chamada de “recolutação” das colocadas em jogo. Havia até uma explicação de linguística para a palavra mágica que dava ao seu autor o direito de surrupiar as bolinhas, inclusive as “jogadeiras” de estimação e que teria origem na expressão “recrutar” meio à valentona nas ações radicais de convocação de voluntários na guerra do Paraguai.

A recolutação era o que um filósofo poderia chamar de “corte epistemológico” dado o seu traço imperial, que conferia aura especial ao que a anunciava e espanto e perplexidade às vítimas e eventuais assistentes. Incrível era a aceitação passiva da arbitrariedade, como se ela fosse uma regra do jogo, a que todos se sentiam sujeitos. Claro que de repente um dos protagonistas resolvia romper com a obediência e encarar o recolutador e aí tínhamos a cena da briga de calçada.

Uma das relações fortes como a do futebol entre o atleta e a bola era entre o jogador e a bola de gude, notadamente se fosse uma jogadeira, uma espécie de Neymar. Aí, além da regra de confiança extrema na esfera de vidro, um relacionamento afetivo, desses que não se pode e nem se deve afrontar.

Tirando essa força do mal, as demais regras criavam sua jurisprudência com as expressões “altos”, “jeitos” e que permitiam mudança de posição para a jogada. E com o tempo íamos criando outras, como “altos morrinho moderno”, código enfim sujeito a uma hermenêutica que muito tem a ver com os atos interpretativos do nosso Supremo Tribunal Federal com suas contagens apertadas de 6 a 5 como se os julgadores viessem de países diferentes mais do que de códigos diversos.

A recolutação não era uma intervenção como essa do Rio de Janeiro, mas seus efeitos aceitos como se fosse algo de fundo religioso, anímico, os raios de Zeus da Medida Provisória. Não poucas vezes nos entretínhamos, como se versejássemos, em exercícios gramaticais, declamando em vários tempos e modos esse mágico verbo “recolutar”, que todavia não praticávamos, já que só seres especiais o manipulavam e só se estrepavam quanto pintava um valentão no pedaço para encarar o arbítrio tolerado.

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