Os hinos do Brasil

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Em 13 de abril de 1831, foi tocado em público, pela primeira vez, o Hino Nacional. Por conta do acontecimento, a data ficou carimbada em nosso calendário de efemérides como o Dia do Hino Nacional Brasileiro.

Antes do ocorrido, o que tínhamos como hino era aquele, com letra de Evaristo Veiga e música de D. Pedro I, que hoje tratamos como Hino da Independência: “Já podeis, da Pátria filhos / Ver contente a mãe gentil / Já raiou a liberdade / No horizonte do Brasil / Brava gente brasileira / Longe vá… temor servil / Ou ficar a pátria livre / Ou morrer pelo Brasil”.

Um pouquinho de história. Francisco Manuel da Silva era maestro da Imperial Academia de Música. Sua posição política: oposição ao reinado de D. Pedro I. Quando D. Pedro abdicou do trono, muita gente comemorou, incluindo o maestro.

Francisco e o amigo poeta Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva fabricaram um hino para comemorar o que achavam que seria uma grande conquista para o país.

A letra de Saraiva tinha um tom fortemente marcado por ideias antilusitanas e a favor do novo dono do império e foi esta versão a apresentada no longínquo 13 de abril, no Teatro São Pedro de Alcântara, na praça Tiradentes, no Rio de Janeiro.

Papo vai, história vem, e ficou comum naqueles tempos tocar durante as oficialidades nacionais só a parte instrumental do hino. A letra caiu no esquecimento.

Assim poderia ter permanecido nossa ode musical, mas depois do golpe contra D. Pedro II era preciso, diziam, um novo hino. Abriu-se concurso. A música eleita ganhou, mas não levou, Deodoro da Fonseca não gostou e determinou que a velha conhecida, composta por Francisco Manuel da Silva, permanecesse. Sem versos.

Mais uma corridinha no tempo e durante o governo de Afonso Pena, em 1906, o maestro Alberto Nepomuceno resolveu mexer no assunto. Propôs uma reforminha na parte instrumental, e o presidente autorizou. Isso e nova gincana atrás de letra. A letra vencedora veio do poeta e professor Osório Duque-Estrada, combinada com a restruturação de Nepomuceno. É a versão que conhecemos, e quase não entendemos, que temos hoje. Foi oficializada depois de muita discussão em 1922 e hoje é um dos quatro símbolos da República Federativa do Brasil.

Fiquei tentada neste mês de ‘comemoração’ a dedicar a coluna à tradução do Ouviram do Ipiranga… mas, confesso, me deu preguiça e achei desperdício usar espaço tão nobre para tratar do florão da América e suas sugestões de amor eterno pelo lábaro.

Melhor falar sobre os outros hinos que temos – os eleitos pelo povo, nas urnas das rádios, dos programas de auditório, dos inferninhos, das rodas e dos quintais.

Começamos com o igualmente complicado “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso.

Em 1939, uma noite de muita chuva que contrariou seus hábitos boêmios foi suficiente para tratar do Brasil brasileiro, do mulato inzoneiro, da morena sestrosa e de todas as fontes murmurantes de complexas palavras: “Deixa cantar de novo o trovador / A merencória luz da lua / Toda canção do meu amor”.

Quase vinte anos depois, o próprio Ary descreveu o que aconteceu durante a criação da música, em entrevista à jornalista Marisa Lira, do Diário de Notícias. Dentro de seus exageros frequentes, contou: “Senti iluminar-me uma ideia: a de libertar o samba das tragédias da vida, (…) do cenário sensual já tão explorado. Fui sentindo toda a grandeza, o valor e a opulência de nossa terra. (…) Revivi, com orgulho, a tradição dos painéis nacionais e lancei os primeiros acordes, vibrantes, aliás. Foi um clangor de emoções. O ritmo original (…) cantava na minha imaginação, destacando-se do ruído da chuva, em batidas sincopadas de tamborins fantásticos. O resto veio naturalmente, música e letra de uma só vez. Grafei logo (…) o samba que produzi, batizando de ‘Aquarela do Brasil’. Senti-me outro. De dentro de minh’alma extravasara um samba que eu há muito desejara. (…) Este samba divinizava, numa apoteose sonora, esse Brasil glorioso”. Ok, Ary, agradecemos e cantamos felizes “O Brasil, samba que dá / Bamboleio, que faz gingar / Ó Brasil, do meu amor / Terra de Nosso Senhor”.

Também há outra aquarela-ode, a de Silas de Oliveira, para que a Império Serrano atravessasse a avenida em 1964 e marcasse para sempre nosso jeito de dizer do que se trata o país, pelo menos a parte boa: “Vejam essa maravilha de cenário / É um episódio relicário / Que o artista num sonho genial / Escolheu para este carnaval / E o asfalto como passarela / Será a tela do Brasil em forma de aquarela”.

A música foi revisitada em 2004 no sambódromo e nasceu inspirada na Aquarela de Ary e, como informação complementar, uma notinha Wikipédia: segundo os cronistas do carnaval carioca, a notícia da morte de Ary Barroso chegou à Avenida Presidente Vargas quando a escola se preparava para começar seu desfile, o que teria tirado o ânimo dos componentes, justificando o quarto lugar – em 2004, a Império ficou em nono lugar, mas levou o Estandarte de Ouro, de melhor escola e melhor samba-enredo.

E o “Brasil Pandeiro” de Assis Valente? Ah! Para mim, este deveria ser obrigatório nas escolas e estar impresso nos cadernos porque, cá para nós, já passou da hora de essa gente bronzeada mostrar seu valor: “Brasil, esquentai vossos pandeiros / Iluminai os terreiros que nós queremos sambar / Há quem sambe diferente noutras terras, noutra gente / Num batuque de matar / Batucada, reunir nossos valores, pastorinhas e cantores / Expressão que não tem par, ó meu Brasil”.

Assis escreveu sua batucada para Carmen Miranda em 1940, quando ela voltava de temporada na terra de Tio Sam. Mas a cantora não gostou, pior, disse sem papas na língua: “Assis, isso não presta. Você ficou borocoxô”. Pode? A música foi lançada pelo conjunto Anjos do Inferno e causou polêmica pela atitude de Carmen Miranda. Escreveu o jornalista Enéas Viany a respeito do fato: “(…) Apesar de minha pouca projeção pessoal, procurei sempre elevar o nome dessa portuguesinha que guardava no peito um coração brasileiro. (…). Os Anjos do Inferno gravaram, há pouco, o samba ‘Brasil Pandeiro’, de autoria de Assis Valente, compositor de várias músicas de sucesso e que tentou contra a existência em dias de maio findo, por estar em dificuldade de vida. Essa composição ele reservara para Carmen. Queria presenteá-la como uma homenagem introdutora de alguns de seus hits. Ela examinou a música e recusou. (…) Ingratidão sim! Ainda que o samba estivesse destinado ao fracasso, ela deveria olhar para o passado e aceitá-lo. (…) A pequena dos balangandãs com sua atitude perdeu um amigo brasileiro (…). Não valia grande coisa… Mas é sempre melhor contar com amigos incondicionais… E eu pertencia a essa classe. De agora em diante não mais acreditarei na sua inocência, quando um colega lhe fizer acusações”.

Para finalizar esta coluna, que já extrapola os limites de caracteres, Jorge Ben, em 1969, deixou que algumas particularidades, como Flamengo, a nega Teresa, o fusca e o violão, se transformassem em metáforas para cada cantor, que só não interpreta a sua “País Tropical” com a mão no coração, imóvel diante da bandeira, porque o ritmo não permite: “Moro num país tropical / Abençoado por Deus / E bonito por natureza / Mas que beleza / Em fevereiro / Em fevereiro, tem carnaval / Tem carnaval / Tenho um fusca e um violão / Sou Flamengo e tenho uma nega chamada Teresa”.

Post scriptum – Pode não parecer um bom momento para tratar das maravilhas do Brasil, mas não é certo deixar que as notícias que acompanhamos estampadas todos os dias, inclusive nesta revista, não permitam que a gente dê uma olhadinha vez ou outra neste esparrame de autoelogios meio sem sentido, mas que mexe com as cadeiras. E se fizermos isso por meio dos hinos não oficiais nem parece fato tão grave.

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