A classe média do Brasil

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O Brasil, terra boa e gostosa de Ary Barroso, não é bem assim. Está mais para a contradição de Celso Viáfora e Vicente Barreto: “O Brasil é o que tem talher de prata/Ou aquele que só come com a mão?”. Mas entre comer com a prataria ou com a mão, ou mesmo não comer, como indica a continuação da música, há toda uma gente nesse meio. Nem tão rica, nem tão pobre, cujo desenvolvimento alavancou-se a partir da década de 1950 e se concretizou da segunda metade do século XX em diante: a classe média.

Marilena Chauí, num encontro com Lula e outras personalidades onde o foco da discussão era o pós-neoliberalismo, afirmou odiar a classe média. O vídeo ganhou status de “meme” pela caricatura e atuação da filósofa. Vejamos o que ela disse: “Eu odeio a classe média. A classe média é o atraso de vida, é estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. É uma coisa fora do comum. […] A classe média é uma abominação política porque é fascista; é uma abominação ética porque ela é violenta; e é uma abominação cognitiva porque ela é ignorante”.

Para além da caricatura, e sem pensar que o público presente no auditório, possivelmente, pertencia à classe média e aplaudia os insultos dirigidos a ele próprio, o diagnóstico de Chauí talvez não esteja equivocado. Há um ponto em questão: a qual classe média ela se refere? Pois, comumente, vemos nos jornais, seja nas editorias de economia, política ou sociedade, a classe média como um balaio só. E não é bem assim, a classe média não é este monstro fascista-violento-ignorante como um todo. Parcela é, sim, pode ser, talvez até majoritariamente, mas a classe média não é uma mistura homogênea e muitas vezes o que torna quase universal esse conceito abstrato é o ponto de convergência entre todos os estratos da classe média de não pertencer nem à classe endinheirada tampouco à classe desprovida.

Essa heterogeneidade explica o porquê de o auditório aplaudir com fervor a fala de Chauí, pois eles sabem – ou pensam saber – que não é deles que a filósofa fala. É uma percepção espontânea, que não carece de muitos estudos para ver que existe uma diferenciação entre uma classe média que marcha pelos direitos LGBT e outra que marcha pela família com Deus. Ou entre uma classe média que vota no Bolsonaro e outra que não vota de jeito nenhum. Não há aqui qualquer juízo de valor. O tópico em questão, e parece ser consenso, é a divergência da classe média.

Para o sociólogo Jessé Souza, cujo destaque vem aumentando nos últimos tempos por conseguir romper os muros universitários, algo precisa se destacar na classe média: o seu capital cultural. Para ele, isso seria o acesso a bens que não são materiais, não é o carro, a geladeira, o micro-ondas, nem a casa própria, mas às coisas imateriais, seja o consumo de jornal ao de filme ou música, ou ainda o acesso à educação. Ele vai adiante e diz que o capital cultural foi preponderante para a diferenciação da classe média brasileira em relação aos “de baixo”. E, a partir de seu estudo, estabelece que a classe que não tem acesso a essas coisas – e ela existe, ainda mais num país que em 2016 vivia com 30 milhões de pessoas na pobreza ou extrema pobreza – torna-se condenada a nunca conseguir emergir para um padrão de vida melhor, e diz que, enquanto antes havia uma raça condenada (devido à escravidão), hoje há essa classe, que ele chamou de “ralé brasileira”.

Mas o que interessa nesta matéria é a heterogeneidade da classe média, que, de acordo com Jessé Souza, se dá pela diferenciação do capital cultural, construído nas socializações familiar e escolar, por exemplo. Por isso que não elenquei aqui o “sistema de pontos”, em que cada item corresponde a uma quantidade de pontos e há uma classificação final enquadrando nas classes.

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Só para ilustrar: se você tem uma geladeira em casa, marca dois pontos, mas se são duas, marca três. Um automóvel, um ponto; dois automóveis, cinco pontos. O que dá mais pontos é a quantidade de banheiros: um, três pontos, mas se você tem quatro ou mais, 14 pontos. Isso, no entanto, nem sempre se relaciona com o capital cultural.

Diz o sociólogo haver quatro tipos de classe média: 1) protofascista; 2) liberal; 3) expressivista; 4) crítica. O estudo do autor ainda está em desenvolvimento. Ele levantou dados do IPEA, cuja presidência exerceu nos anos do governo Dilma, para chegar a essa definição. O primeiro e o segundo tipo são os de menor capital cultural, ou seja, leem menos livros, assistem a menos filmes, leem pouco jornal. Tendem a ver muita televisão e refletir pouco sobre as informações presentes no mundo. Porém, são as duas maiores frações: a protofascista com 30% e a liberal com 35%, ou seja, juntas elas representam 65% da classe média.

A protofascista é aquela classe autoritária, que defende a perda de garantias individuais como a liberdade de expressão (ou qualquer liberdade) por um bem maior: a ordem e o progresso do país. É a classe média que vota em Bolsonaro, por exemplo, um caricato líder fascista.

Aqui vale a pena fazer uma intervenção. Pois houve, em decorrência de uma parte da classe média guiada por setores da esquerda, uma descaracterização sobre o fascismo, o que é perigoso e abre brechas para o fascismo avançar, como vem acontecendo no Brasil. Os contrários tornaram-se fascistas, e o fascismo é muito maior, não é tão simples ser fascista. Mas o Bolsonaro, por exemplo, é.

O fascismo é por si só de difícil definição, mas elencarei aqui algumas características: há um líder cultuado – Mussolini, Hitler, Salazar, Franco, Bolsonaro –, as decisões desse líder são aceitas pela população sem consulta ou acordo prévio, ou seja, não há uma normalidade democrática. Há também uma exaltação da cultura nacional, com bandeiras, cores e lemas nacionais. Sem contar a impossibilidade de crítica ao governo e o uso de violência e terror. Bolsonaro venera e presta homenagens a torturadores da Ditadura, por exemplo. Sem contar o desprezo que tem por grupos fragilizados historicamente. E vai além: seu discurso despolitiza o debate e traz para a seara da violência. É tudo de antidemocrático.

Então, vestir uma camisa amarela e protestar contra um governo específico não faz das pessoas fascistas, mas elas possibilitam a emergência do fascismo. Esta é a parte liberal, que, ao se dar conta de assassinatos políticos como o de Marielle Franco, fica com a consciência pesada por uns dias, mas no outro já solta foguete porque o Lula foi preso. É a parte do “vida que segue, ‘bora’ assar a carne”.

Os 35% restantes compõem a classe média com alto capital cultural, ou seja, conhecem outras línguas, viajam com frequência, consomem produtos culturais mais plurais. Do total, 20% são os expressivistas, ou, como o autor ironicamente denominou, “classe média de Oslo”. Essa fração representa as pessoas que lutam pelo meio ambiente ou pelas causas identitárias (feministas, movimento negro, LGBT etc.). A grande crítica do autor a essa classe é que por vezes não há uma preocupação com o real problema do Brasil: a desigualdade material. Diz o autor: “As lutas pelas minorias e pela natureza preservada são levadas a cabo, na realidade, em substituição a uma pauta mais abrangente que permitiria ligar essas lutas à luta geral contra todo tipo de opressão material ou simbólica.”

Os 15% restantes são a classe média crítica, pouco explicada neste estudo preliminar do autor. Parece fazer referência àquela classe que percebe os reais problemas do Brasil e os debate de forma coerente. Pouco tem a ver com posição política, pois um lado pode defender que os problemas brasileiros chegariam ao fim por meio do mercado e o outro, por intermédio do Estado.

Há aqui um estudo que mostra a heterogeneidade da classe média que ultrapassa a questão financeira. Devemos concordar com ele, é definitivo, só há de fato estas categorias? Possivelmente não. Mas o autor se destaca ao propor a heterogeneidade cultural de uma classe que se passa por homogênea, todavia não o é.

 

 

 

Foto Jessé Souza: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

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