Dá-lhe, Curitiba!

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– Quaaalquer quantia, pessoal! Quaaalquer quantia!

A voz ressoa pelo Santa Cândida-Capão Raso às 8 horas da matina. Quem dormia, cochilava ou mexia no celular leva um ligeiro susto. Mas nada que tire a concentração dos seus afazeres.

– Essa quantia será usada para a compra da minha perna mecânica.

Assim que termina, o dono da voz se equilibra em suas muletas e percorre boa parte do ônibus juntando os trocados. A habilidade do homem assusta. Nem as curvas mais acentuadas fazem o cidadão perder o equilíbrio. Nem precisa de apoio para andar entre os passageiros. Vai pulando tal qual um saci-pererê coletando as migalhas que poucos lhe dão.

Já faz, pelo menos, três anos que a mesma cena se repete. E a tal da perna mecânica nunca chega.

Experiente no ofício, percebe que não teria muito sucesso no coletivo que habito. O homem desce pela porta 3 em outra estação-tubo para seguir sua saga em outro busão. Da janela dá para avistar o cidadão contando as moedas para ver quanto aquela manhã já tinha rendido. E pode ter certeza: se você der sorte, quando estiver voltando do trabalho, trombará com o mesmo cidadão juntando os trocos para a tão sonhada perna mecânica.

Se pudessem, as pessoas venderiam seus rins dentro dos ônibus de Curitiba. São pessoas implorando por dinheiro para seus filhos doentes ou vendendo itens em prol de instituições de caridade ou de comunidades terapêuticas.

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O comércio pulsa dentro dos coletivos. E fora dele.

Na Praça Rui Barbosa ou na Tiradentes, não é preciso se esmerar muito. Celulares de origens para lá de duvidosas e cigarros do Paraguai saem por uma pechincha. Carregadores made in China, alfajores e jogos de azar também dão seu ar da graça. Uma rodinha de pessoas em volta de uma mesa chama atenção em uma esquina. É um homem vendendo descascador de legumes por dez pila. Ele descasca a abobrinha com uma destreza e agilidade invejáveis. Fosse eu, teria cortado uns três dedos ao meio.

“Quer limpar suas lentes?” “Quer ajustar os óculos?” Os vendedores das centenas de óticas separadas por menos de três quadras quase te empurram para dentro das lojas. É preciso muita habilidade para driblar esses marcadores implacáveis.

Mas, ah, Curitiba. O que seria de você não fossem essas peripécias que te colocam no mesmo patamar das tantas outras capitais Brasil afora? Uma baguncinha torna essa cidade mais viva, mais humana. Só não deixa mais quente e nem menos úmida.

A Terra pode dar 300 voltas ao redor do sol, que o astro-rei dará seu ar da graça – com sorte – algumas poucas dezenas de vezes. É uma beleza! Fungos, mofo e bolor adoram. Temos que agradecer que volta e meia o sol insista em furar o bloqueio das nuvens.

Mas a garoa intermitente típica da cidade deixa as calçadas de petit-pavé ainda mais lisas e propícias para que em qualquer deslize lá se vá o fêmur, a patela ou os ligamentos do tornozelo. Especialmente dos mais velhos. É um perigo. Ainda mais para aqueles que saem trôpegos dos bares dominados pelo comércio asiático.

Aí você resolve dar um tempo, descansar e relaxar em algum canto. Resolve parar em alguma lanchonete próxima do famoso bondinho da XV de Novembro. Nada melhor do que ver o movimento das pessoas, tomar um café para aquecer a alma e, principalmente, fugir da chuvinha.

Uma empada, um café. E nada mais. É o tempo necessário para respirar e curtir a boa e velha Curitiba. Até que se ouve um “plaft, plaft, plaft”. Os olhares dos clientes se cruzam. Até se darem conta de que era o bater de asas de uma pomba gorda e esbelta que saía do estabelecimento para dar um giro na XV. A garoa cessara. Certamente, o bicho queria dar uma volta em meio aos transeuntes.

Do outro lado da rua, um jovem, ingênuo e sem maldade, traga seu baseado rindo da cena.

O comércio de Curitiba pulsa.

 

cronica_diego_retratoDiego Antonelli é jornalista, autor dos livros-reportagem “Paraná – uma história” e “Em domínio russo”. Trabalhou nos jornais Diário da Manhã e Jornal da Manhã, ambos de Ponta Grossa, e na Gazeta do Povo, em Curitiba. Produziu ainda matérias freelancer para a Folha de S. Paulo.

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