Dio Santo!

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Quando os italianos chegaram por essas bandas

“Dio Santo, mamma mia” teriam bradado os quase 900 italianos ao ficarem sabendo que a viagem rumo ao Brasil poderia ser realizada por um navio a vela. A aventura, certamente, estaria fadada ao fracasso. Pouco depois de sair do porto de Gênova, eles pararam em Marselha, na França, onde tiveram de ficar em quarentena esperando que alguns passageiros se recuperassem de um surto de angina – um problema no músculo cardíaco. No decorrer desses 40 dias, o navio movido a vapor em que até então estavam sofreu uma pane. A italianada se alvoroçou. Queriam a devolução do dinheiro gasto nas passagens. Mas tiveram de se contentar em retornar a Gênova.

Na época, a Itália estava tomada pela fome, pela miséria e pelo desemprego, resultado das guerras de unificação do território. Para não continuar vivendo na miséria, o grupo aceitou retomar viagem no dia 11 de dezembro de 1877, agora sim, em um navio a vapor.

A tropa italiana chegou ao Rio de Janeiro no dia 2 de janeiro de 1878 e três dias depois já estava no Porto de Paranaguá. Na época, o governo imperial determinou que os imigrantes recém-chegados fossem alojados nas localidades de Porto de Cima e São João da Graciosa, em Morretes, no litoral paranaense.

Imigrantes italianos sendo transportados pelas carroças, meio mais comum de transporte do período.  Acervo pessoal/Antonio Palú Filho

Imigrantes italianos sendo transportados pelas carroças, meio mais comum de transporte do período.
Acervo pessoal/Antonio Palú Filho

Nessa região, o grupo se encontrou com Matteo Boscardin, que tinha migrado para o Brasil um ano antes junto com sua esposa Maria Dal Santo, os nove filhos e mais dois familiares. Todavia, o clima nessa localidade, tão diferente dos ares europeus, dificultava a adaptação dos Boscardin e companhia, que tinham sua origem na região do Vêneto, no norte da Itália. “O solo não era dos melhores para o plantio a que eles estavam acostumados e o calor era insuportável”, conta Paulo Boscardin Pereira, tataraneto de Matteo.

Mas uma manada de bois alterou a vida de parte dos italianos que viviam no litoral do estado. Souberam pelos tropeiros que conduziam gados da existência de Curitiba. Foi o que bastou para que 15 famílias não titubeassem e decidissem subir a serra.

Ao lado de outras 14 famílias, Matteo Boscardin e os seus foram um dos primeiros a adquirirem lotes na região do Butiatuvinha, dando origem à Colônia Santa Felicidade, hoje um dos bairros italianos mais conhecidos do Brasil. “Depois outras famílias foram chegando à região, proporcionando o crescimento da colônia”, relata Paulo.

Cinco anos após a chegada dos pioneiros, a colônia já contava com 70 famílias. Os Boscardin, inclusive, foram os responsáveis pelo primeiro moinho para fazer fubá na localidade. “Eles conseguiram uma área perto do rio. Provavelmente, antes de saíram da Itália já trabalhavam com moinhos”, comenta o tataraneto de uma das famílias pioneiras de Santa Felicidade.

O começo

Sete anos antes da chegada dos Boscardin, a imigração italiana já começava a dar os primeiros passos no Paraná. Conforme aponta a pesquisadora Maria Fernanda Campelo Maranhão, “a imigração dos italianos no estado iniciou-se oficialmente em 1871 através de um contrato estabelecido entre o Governo Provincial e o agente colonizador italiano Sabino Tripotti”, responsável, ao todo, pela introdução de mais de 2,5 mil imigrantes. “Os primeiros 70 colonos foram encaminhados para a colônia do Assungui”, conta a pesquisadora, que é autora do livro Santa Felicidade, o bairro italiano de Curitiba. Coube a Tripotti começar a fundar naquele mesmo ano a colônia Alessandra ou Alexandra, situada nas proximidades de Paranaguá.

“A colônia Alexandra foi, portanto, o primeiro empreendimento destinado exclusivamente aos italianos. Apesar de haver recebido algumas famílias avulsas anteriormente, 1875 é indicado como o ano em que a referida colônia passou a receber as primeiras levas de imigrantes”, explica o historiador Fábio Luiz Machioski. Mas a experiência durou pouco tempo. Em abril de 1877, ela sucumbiu.

Segundo a pesquisadora e autora do livro Colônia Alessandra, Jussara Cavanha, um decreto do governo imperial rescindiu o contrato com essa colônia. Somado a isso, muitos imigrantes já haviam subido em direção ao planalto curitibano. Ao todo, cerca de 300 colonos moraram na região.

Após romper contrato com Sabino Tripotti, o Governo Provincial fundou, no mesmo ano de 1877, a colônia Nova Itália, formada por 12 núcleos coloniais distribuídos nas regiões que correspondem às cidades de Morretes, Antonina e Porto de Cima. Entretanto, a grande maioria dos imigrantes italianos instalados no litoral não se adaptou à região e teve de se transferir para o planalto, incluindo aqueles que deram origem a Santa Felicidade. Entre os motivos apontados pela pesquisadora Maria Fernanda Campelo, estão a “ausência de mercados consumidores e a inexistência de orientação técnica em relação às doenças tropicais, ao tipo de cultivo apropriado ao solo do litoral e às pragas que assolavam as suas plantações”.

O ápice da chegada dos italianos ao estado se dá a partir dessa data. “A maioria chegou ao Paraná a partir do ano de 1877 até o final do século XIX. Poucos foram os que chegaram durante as primeiras décadas do século passado. Eram quase todos do norte da Itália, de terras atualmente pertencentes às regiões da Lombardia, do Vêneto e de Trento”, explica a historiadora Maria Angélica Marochi, autora do livro Imigrantes 1870-1950 – Os Europeus em São José dos Pinhais. Estima-se que, em 1900, viviam no estado do Paraná mais de 30 mil italianos, espalhados por 14 colônias exclusivamente italianas e outras 20 mistas.

Imagem da fábrica de vinhos do imigrante Francisco Puglia Acervo Pessoal/Maria Angélica Marochi

Imagem da fábrica de vinhos do imigrante Francisco Puglia
Acervo Pessoal/Maria Angélica Marochi

Preconceito e estrutura precária

A chegada desses desbravadores oriundos do Velho Mundo não foi nada fácil. Lugares improvisados, falta de estrutura e dificuldades de adaptação cultural foram alguns dos desafios enfrentados pelos italianos em solo paranaense. “Passavam dias em hospedarias, geralmente casas alugadas pelo governo. A maioria era de locais precários, sem as mínimas condições de higiene. Nas colônias, até que suas casas fossem construídas, eles eram hospedados em barracões. Além disso, não conheciam a língua e os costumes locais. A maioria chegava com poucos recursos financeiros”, conta a historiadora Maria Angélica.

Não bastasse terem que reconstruir suas vidas em solo estrangeiro, o preconceito se fazia presente contra os italianos. “Entre os antigos moradores, principalmente aqueles que faziam parte da elite local, pessoas mais abastadas, surgiram manifestações de certo desprezo com a pobreza ou simplicidade de boa parte dos imigrantes que, aos poucos, foram fazendo parte da classe operária das pequenas fábricas ou passaram a viver com muitas dificuldades em propriedades rurais”, explica a pesquisadora.

Imigração de caráter rural

A imigração italiana no Paraná teve um caráter predominantemente rural. Ao contrário dos imigrantes alemães, que preferiram fixar-se nos centros urbanos, a grande maioria dos imigrantes italianos, assim como os poloneses, fixou-se no campo. “Apenas uma minoria formada por operários, artesãos, profissionais especializados, comerciantes e industriais estabeleceu-se em Curitiba e outras áreas urbanas”, relata a pesquisadora Maria Fernanda Campelo.

Transporte de barricas para erva-mate produzidas pelo imigrante italiano Pedro Moro Redeschi Acervo Pessoal/Maria Angélica Marochi

Transporte de barricas para erva-mate produzidas pelo imigrante italiano Pedro Moro Redeschi
Acervo Pessoal/Maria Angélica Marochi

Para dar início a uma atividade não agrícola, muitos procuravam se estabelecer nos centros urbanos ou arredores. “A opção pelo urbano existia porque muitos já viviam em pequenas cidades italianas onde desenvolviam diferentes atividades ou, ainda, porque sendo do meio rural não desejavam aqui passar pelas necessidades que lá enfrentavam”, completa a historiadora Maria Angélica Marochi.

As razões que levaram os italianos a desistir da Itália

Miséria, falta de esperança, crise econômica e instabilidade política foram alguns dos motivos que levaram os italianos a perderem a fé em construir suas vidas no país de origem. As guerras de unificação do território italiano no século XIX tiveram papel preponderante para essa realidade. Além disso, como explica a professora e historiadora Maria Angélica Marochi, a concentração de terras nas mãos de poucos proprietários, o endividamento dos pequenos proprietários rurais e o desemprego urbano e rural provocado principalmente pela mecanização da indústria e pelos avanços da tecnologia motivaram o processo de emigração italiana.

Ela ressalta que, no final da década de 1870 e nas duas décadas seguintes, milhares de italianos deixaram o país rumo ao continente americano. “Os maiores grupos que se estabeleceram em Curitiba e região chegaram nesse período. Primeiramente a Itália teve sérios conflitos para definir sua unificação e, em um segundo momento, ela sofreu as consequências do envolvimento direto nos conflitos internacionais, em especial da Segunda Guerra Mundial”, resume Maria Angélica.

Imagem da Colônia Nova Itália, que foi fundada em 1877 Acervo pessoal/Antonio Palú Filho

Imagem da Colônia Nova Itália, que foi fundada em 1877
Acervo pessoal/Antonio Palú Filho

Perseguição durante a Segunda Guerra

Durante a deflagração da Segunda Guerra Mundial, o Brasil lutou no conflito contra os países do Eixo, que era formado por Alemanha, Itália e Japão. Por determinação do governo de Getúlio Vargas, todo comércio de imigrantes dessas etnias passou a ser duramente fiscalizado. Os rádios chegaram a ser lacrados para não sintonizar emissoras estrangeiras. Os idiomas estrangeiros, incluindo o italiano, foram banidos das ruas paranaenses. Aqueles que os utilizassem eram denunciados e poderiam parar na prisão.

Em Curitiba, alguns clubes italianos pertencentes aos estrangeiros foram fechados e ocupados pelo governo. Antes dessa intervenção, muitos clubes foram alvo de ataques populares. Até o ensino sofreu, com o fechamento de escolas de origem estrangeira.

Essa perseguição traz reflexos até o dia de hoje. O idioma italiano e seus dialetos acabaram não sendo passados de geração para geração. “Naquele tempo, não se podia falar o italiano e as famílias não conseguiam ensinar seus filhos”, conta o descendente italiano de segunda geração, Lineu Dall’Armi, que mantém uma vinícola no bairro de Santa Felicidade.

Os italianos anarquistas

A única experiência anarquista no Brasil foi constituída pelos imigrantes italianos que chegaram à cidade de Palmeira, nos Campos Gerais. A Colônia Cecília foi idealizada por Giovani Rossi, médico, agrônomo e militante socialista italiano, que obteve junto ao governo brasileiro a concessão de 300 alqueires de terra.

No dia 2 de abril de 1890, Rossi declarou oficialmente a formação da Colônia Socialista Cecília, que existiu até 1894. A experiência, que começou com apenas seis pessoas, chegou a ter 200 imigrantes em seu ápice. Na Colônia Cecília, a religião não tinha vez: os membros eram ateus, e as datas religiosas eram ignoradas por completo. Os casamentos não existiam oficialmente e as propriedades privadas eram totalmente negadas.

Para entender a política imigratória do Paraná

A Independência do Brasil, em 1822, intensificou as ações do Império para ocupar todo o vasto território brasileiro. O objetivo: garantir soberania nacional e também buscar valorização econômica. Mas a entrada dos imigrantes sem uma política imigratória consolidada misturou-se a contínuos fracassos e a gastos públicos incalculáveis. Uma lei de 15 de dezembro de 1830 chegou a proibir a realização de qualquer despesa pública com estabelecimento de núcleos coloniais.

Quatro anos mais tarde, uma nova lei permitiria o estímulo à imigração desde que fosse de competência dos governos provinciais. Para o Paraná, os efeitos dessa lei valeram a partir de 1853, quando o território estadual emancipou-se de São Paulo.

Porém, o programa imigratório no estado ganhou realmente força a partir da década de 1870, com a administração de Adolpho Lamenha Lins. Ele dinamizou a política colonizadora principalmente nos arredores do planalto curitibano. Os resultados fizeram com que o programa fosse estendido ao litoral, como é o caso da colônia italiana Alexandra.

Diversas colônias de imigrantes europeus foram estabelecidas em círculo ao redor de Curitiba, em terrenos contíguos às estradas carroçáveis já existentes que ligavam a cidade ao litoral, aos Campos Gerais e ao Norte da Província, respectivamente. Essa iniciativa ficou conhecida como Cinturão Verde.

Primeira igreja de Santa Felicidade Reprodução

Primeira igreja de Santa Felicidade
Reprodução


“Em 1878, grande parte das famílias italianas estabelecidas no litoral, por iniciativa própria ou através de auxílio oficial, decidiu transferir-se para o planalto. Muitas delas fixaram-se em colônias já existentes no planalto, formadas por imigrantes de outras nacionalidades, tais como Argelina, Pilarzinho, Orleans, Antônio Rebouças, Muricy e Inspetor Carvalho. Outras famílias foram instaladas pelo governo em novas colônias destinadas especialmente aos italianos, a exemplo de Alfredo Chaves e Santa Maria do Novo Tirol”, explica a pesquisadora Maria Fernanda Campelo.

Outras ainda, que possuíam algumas economias, formaram colônias espontâneas, como a colônia Senador Dantas, hoje bairro Água Verde, ou comprando-as de particulares, a exemplo das colônias de Santa Felicidade.

Tradição italiana resiste

Frango com polenta, massas, danças e músicas. Algumas das tradições trazidas pelos imigrantes italianos ainda resistem neste mundo contemporâneo. A gastronomia, inclusive, virou um chamariz cultural e turístico no Paraná.

As demais heranças culturais são resgatadas pelos descendentes e grupos folclóricos. Um deles é o Grupo Folclórico Ítalo Brasileiro, fundado em 1986, em Santa Felicidade. Segundo um dos membros e coreógrafo do grupo, Eduardo de Oliveira – tataraneto de imigrante italiano –, o objetivo é manter vivas as heranças culturais, como dança e música italianas.

Apresentação de dança e música italianas do Grupo Folclórico Ítalo Brasileiro Divulgação

Apresentação de dança e música italianas do Grupo Folclórico Ítalo Brasileiro
Divulgação


“Queremos preservar e resgatar a cultura de nossos antepassados. Disseminamos, assim, um pouco do folclore italiano e mantemos essa chama acesa para as demais gerações”, conta.

Durante as apresentações, os cerca de 150 membros do grupo usam trajes típicos utilizados durante o processo de imigração dos primeiros italianos para o Brasil.

Legado econômico

Além dos restaurantes destinados à cozinha italiana, há uma forte influência italiana nos ramos comerciais e industriais. Segundo Maria Angélica, muitos imigrantes “trouxeram de seus locais de origem o conhecimento para a instalação de fábricas de diferentes bebidas, oficinas e fábricas de carroças, fábricas de objetos em folhas de flandres, barricarias, moinhos de cereais, construção de pontes ou estradas de rodagem e de ferro”.

A saga dos Palú

A trajetória da família Palú mistura-se com a história da imigração italiana no Paraná. Felice Palú atravessou o Atlântico com esposa e filhos a bordo da terceira classe do navio Belgrano. Durante toda a travessia, a oferta de comida e água era limitada e duramente regulada. A família embarcou no dia 17 de dezembro de 1877 e quase um mês depois chegou ao “Novo Mundo”.

“Eles foram inicialmente implantados na Colônia Nova Itália. Mais tarde subiram a Serra do Mar em carroças ou a pé e foram instalados na recém-criada Colônia Inspetor Carvalho, em São José dos Pinhais”, cotnta o tetraneto de Felice, Antônio Palú Filho.

Imagens das edificações do bairro de Santa Felicidade Diego Antonelli

Imagens das edificações do bairro de Santa Felicidade
Diego Antonelli


No início, a família Palú se dedicou a trabalhar na agricultura, fabricar barricas e produzir vinho. “Atualmente ainda existem ramos da família dedicados à agricultura e ao vinho, mas já não se percebe mais a estreita ligação do homem à terra, que marcou tão fortemente a relação dos nossos imigrantes durante o período da imigração”, relata Antônio.

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