Editorial. Ed. 199

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Nada mais tragicômico do que ver os esforços do governo brasileiro para justificar algumas medidas econômicas, como se conseguissem disfarçar que vestem o cobertor curto entre conter a inflação e não deixar o crescimento cair a um ritmo vergonhoso. O resultado para o contribuinte, claro, é o mesmo de sempre: um custo de vida cada vez mais alto, com cada vez mais impostos para pagar. E outros efeitos colaterais perversos, como o desemprego e a queda da renda do trabalhador.

Ou melhor, há algo mais tragicômico, sim: é ler nos jornais que o senador Aécio Neves tinha uma mesada de R$ 50 mil por mês paga por Joesley Baptista, o chefe da quadrilha da JBS. Isso fora os quase R$ 150 milhões que levou por conta de doações para a campanha presidencial. Sinistro é ver Dilma Rousseff a dar tapinhas de apoio ao novo aliado e fazer discursos contra a corrupção. Ela que foi denunciada por tantas falcatruas em seu governo, embora a mídiapetista jure que ela promoveu uma “faxina” na corrupção federal. Trocar uma sujeira por outra é limpar?

Não é demais repetir. A verdade é que a vida pública no Brasil degenerou a tal ponto que ficou criada a seguinte situação: os sócios-proprietários do governo, divididos em bandos rivais que tentam se exterminar uns aos outros, perderam a capacidade de tomar qualquer decisão certa, seja ela qual for. Só conseguem errar. Há 14 milhões de brasileiros desempregados, levando uma vida de tormento silencioso e diário, enquanto os donos do aparelho de governo fazem tudo o que podem para manter o mundo da produção paralisado e sem oportunidades. O Brasil chegou aos 60 000 homicídios por ano — e responde por 10% de todos os assassinatos cometidos no mundo. Não há esgotos. Mas os barões, duques e arquiduques que controlam as decisões públicas se matam para ganhar seus joguinhos nos tribunais e em outros terreiros de disputa. Estão cegos.

Poucas vezes a degradação que criaram no país ficou tão clara. A política é comandada por essa aberração conhecida como “Tribunal Superior Eleitoral”. De um lado, é mais do que sabido, pela exposição dos fatos, que em 2014 a ex-presidente Dilma Rousseff fez a campanha mais corrompida, fraudada e criminosa na história das eleições brasileiras, levando-se em conta a estonteante quantidade de delitos cometidos para mantê-la no cargo. É impossível, também, fazer de conta que o atual presidente, na condição de seu vice, não foi um beneficiário direto da trapaça — simplesmente ganhou a Presidência da República quando Dilma foi despejada do posto por fraude contábil, depois de um governo corrupto, trapaceiro e inepto.

Resultado: temos um governo de baixa legitimidade, sem nenhum apoio social, que sobrevive das manobras que lhe dão maioria no Legislativo e que custam ao contribuinte uma fortuna. É nossa sina. Apesar da insanidade geral, a desordem continua.

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