Gleisi Lula Hoffmann, a cara do PT

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Gleisi Lula Hoffmann é a cara do PT nesta fase de sua deterioração. A preferida de Lula para ocupar a presidência do partido, conhecida no Senado e fora dele por sua estridência e compulsão por falar, comete gafes antológicas em seu esforço para defender Lula e toda a caterva do PT envolvida em escândalos de corrupção e indiciados ou presos pela Lava Jato.

Gleisi, que acrescentou Lula ao seu nome, tem se mostrado uma caricatura bem acabada da estirpe de “revolucionários” tão bem retratada pelo escritor Carlos Alberto Montaner no livro “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Em reunião do Foro de São Paulo, “Narizinho”, como ela é chamada nas redes sociais, por causa de uma cirurgia plástica que fez para afinar e arrebitar o nariz, defendeu Cuba, o ditador Nicolás Maduro e o que chama de legado do PT, numa só tacada. De quebra, ainda declarou que, com Lula candidato, o PT, responsável pela maior recessão de que se tem notícia na história do Brasil, tem “possibilidade enorme” de voltar ao poder.

Também conhecida como “Amante”, seu codinome na lista dos que recebiam propina da Odebrecht, Gleisi é ré por corrupção e lavagem de dinheiro na Lava Jato e casada com o ex-ministro Paulo Bernardo, acusado de ter cobrado comissão para fechar um contrato de crédito consignado para os aposentados do INSS. Gleisi defendeu com unhas e dentes as “narrativas” fantasiosas criadas pelo PT para negar o envolvimento do partido em escândalos bilionários de corrupção e contestar a condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro. Em um sinal de que, para ela e para o PT, o Brasil não passa de uma republiqueta de banana, Gleisi ameaçou se insurgir contra a Justiça e denunciar a condenação de Lula no exterior.

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Para quem acompanhou a trajetória política de Gleisi, nada disso surpreende. Com seu indefectível colar de pérolas, um ícone da burguesia que ela tanto critica, Gleisi nunca deixou dúvidas – deve-se admitir isso em seu benefício – sobre as suas inclinações ideológicas nem sobre o seu oportunismo político. Mas, ao assumir o comando do PT, Gleisi se superou. Em tempo recorde, ela deixou claro que traz no sangue o DNA bolivariano do PT e que deverá aprofundar o discurso radical e original do partido, amenizado com o objetivo de viabilizar a eleição de Lula em 2002, para mobilizar sua tropa de choque e tentar enfrentar os momentos difíceis que a sigla atravessa.

 

Rainha das gafes

Em sua pressa para defender Lula, Gleisi tem cometido gafes que já estão inscritas definitivamente no anedotário da política nacional. Assim se expõe ao vexame, à ridicularia, como personagem central de uma opereta bufa. Gleisi confundiu a letra de uma música do cantor baiano Léo Santana com apoio ao seu partido. Em postagem numa rede social, ela afirmou que o cantor estava reconhecendo a boa administração do governo da Bahia ao cantar um de seus sucessos, a música “Vai dar PT”, durante o desfile de seu trio elétrico no circuito do Campo Grande. A música, contudo, não faz referência ao Partido dos Trabalhadores: a sigla PT, na canção de Léo Santana, significa perda total.

A emenda foi pior do que o soneto. Gleisi justificou assim a gafe: “A música em si, assim como na poesia, pode ter diferentes interpretações! Brincamos, assim como nossa militância, de associar este trecho à sigla do nosso partido. Perda Total o povo já tem vivido com a série de desmontes promovidos pelo governo que vocês apoiam.”

Esta não foi a primeira e única gafe de Gleisi Lula Hoffmann nas redes sociais. A senadora provocou gargalhadas no planeta quando divulgou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia sido homenageado pela torcida do clube alemão Bayern de Munique. Mas na faixa onde Gleisi leu “Forza Lula” estava, na verdade, “Forza Luca”.

Luca é o nome de um torcedor italiano que se feriu e chegou a entrar em coma após uma confusão entre torcidas de dois times italianos, em novembro. Desde então, faixas desejando força a Luca Fanesi se espalharam por estádios mundo afora. A imagem em questão mostrava o “c” de Luca parcialmente escondido pelo braço de um torcedor, o que faz com que a letra se assemelhe a um “l”.

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Pérolas da senadora

Persistente, obstinada, Gleisi Lula Hoffmann é a campeã das frases de pouco nexo com a realidade que usa para defender seu Lula e seu PT. Confira abaixo 16 “pérolas” perpetradas por Gleisi depois que ela assumiu a presidência do PT.

Sobre a condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro:

“Não pensem que uma sentença de um juiz de primeiro grau vai inviabilizar o processo democrático, deixando Lula de fora das eleições. Nós temos que dizer em alto e bom som que uma eleição presidencial sem Lula não é eleição, é uma fraude à democracia brasileira.”

“Para defender nosso partido, mas, principalmente, para defender o presidente Lula, não vamos descansar nem um minuto.”

“Vamos fazer denúncia internacional, mobilização, não vamos reconhecer (a condenação de Lula). Não há nenhuma prova que incrimine o ex-presidente Lula. A decisão do juiz Sérgio Moro é uma decisão política.”

“Estamos frente à judicialização da política em todo o continente. No Brasil a intenção é destruir o PT e impedir que o maior líder popular brasileiro, Lula, seja nosso candidato nas eleições presidenciais de 2018, pois sabem que a possibilidade de sua vitória é enorme.”

“(A condenação de Lula) é uma decisão sem provas, para o juiz Sérgio Moro prestar contas à opinião pública. As únicas provas que tem são as provas de inocência do presidente Lula.”

 

Sobre a eventual substituição do presidente Temer pelo deputado Rodrigo Maia:

“Se Temer cair, desde já é ‘Fora, Maia’. Trocar um golpista por outro não tem diferença alguma.”

“[Maia] é tão ruim quanto Michel Temer. É trocar seis por meia dúzia para o Brasil. É irrelevante para nós.”

 

Sobre as eleições de 2018:

“Mais do que nunca, necessitamos de um governo de esquerda de volta ao nosso País, para retomar o desenvolvimento nacional, a política externa altiva e ativa e reverter as consequências do ajuste neoliberal imposto pela quadrilha golpista que se instalou no nosso governo.”

 

Sobre a reforma trabalhista aprovada pelo Senado:

“Os senhores rasgaram a Constituição, tiraram a Dilma (…), apoiaram esse governo de quinta categoria e agora estão acabando com os direitos dos trabalhadores.”

“Os senhores estão rasgando a CLT, uma legislação de mais de 40 anos, achando que isso é bonito e é moderno.”

 

Sobre a “mídia golpista” e a revista Carta Capital:

“O braço para a aplicação do golpe foi a grande mídia, a concentração, o monopólio econômico da imprensa. A estrutura de telecomunicações do Brasil vem do tempo da ditadura.”

“Nós precisamos nos unir para defender aqueles veículos de comunicação que são importantes para a nossa sociedade, que fazem o contraponto, que garantem a nossa democracia. Façam a assinatura da Carta Capital para ajudar a democracia do País e a diversidade de opinião.”

 

Sobre Cuba, Venezuela e bolivarianos:

“O PT manifesta seu apoio e solidariedade ao governo do PSUV, a seus aliados e ao presidente Nicolás Maduro frente à violenta ofensiva da direita contra o governo da Venezuela e condenamos o recente ataque terrorista contra a Corte Suprema. Temos a expectativa de que a Assembleia Constituinte possa contribuir para uma consolidação cada vez maior da revolução bolivariana e que as divergências políticas se resolvam de forma pacífica.”

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“Comemoramos o cinquentenário da queda em combate e o assassinato posterior do guerrilheiro heroico, o comandante Ernesto Che Guevara, para que tenhamos sempre presente a necessidade da transformação social de nossos países.”

“Aproveitamos para manifestar nosso irrestrito apoio e solidariedade aos companheiros do Partido Comunista Cubano e ao povo de Cuba diante do retrocesso imposto pela nova administração do governo estadunidense em relação aos acordos alcançados com a administração Obama e à manutenção do criminoso bloqueio econômico”, discursou.

“Apesar do revés eleitoral que sofremos na Argentina e do golpe parlamentar no Brasil, os principais partidos membros do Foro de São Paulo estão retomando a ofensiva política diante dos atuais governantes da direita nos dois países com a perspectiva de voltar a governá-los no curto prazo.”

 

Nem sempre ela se arrisca. A certa altura de um longo discurso no Senado em defesa de Lula, recolhido ao xilindró da Polícia Federal em Curitiba, ela afirmou:

– O juiz Sérgio Moro levou nove meses para prender Lula, e só o ódio justifica uma safadeza dessas.

Foi então interrompida pelo senador José Medeiros (Podemos-MT) que candidamente perguntou:

– A senhora está chamando o Moro de safado?

Aí se deu o apagão de Gleisi. Ela percebeu que poderia ser questionada no Conselho de Ética do Senado ou agravar sua relação já difícil com o Judiciário. Enfiou a viola no saco e foi cantar em outra freguesia, mais precisamente para o que restou do séquito do PT, um público em que os discursos ofensivos e cheios de palavras de ordem do tipo “Lula guerreiro do povo brasileiro” fazem enorme sucesso.

 

Gleisi, a panfletária

A senadora adotou definitivamente um estilo que a faz retornar à época em que participava da política estudantil e adorava fazer discursos panfletários nas assembleias. Isso pouco condiz com sua posição atual. Ela repete à exaustão os motes preferidos e os inclui em seus discursos no Senado. Em recente falação, ela desbordou-se a afirmar que a Justiça era seletiva e tinha preferências políticas.

“Teve um caso que mostra a seletividade da Justiça: Alckmin foi acusado de receber R$ 10 milhões de propina da Odebrecht. O STJ falou que era caixa dois e devolveu para a Justiça Eleitoral. O tratamento é feito com dois pesos e duas medidas. A Justiça protege o PSDB”, disse a petista. O tucano é suspeito de ter recebido doações, via caixa dois, da empreiteira Odebrecht que, somadas, chegariam a R$ 10,7 milhões durante as campanhas eleitorais de 2010 e 2014. Na prática, a decisão do STJ tira o ex-governador da mira da Lava Jato. No discurso, Gleisi falou também do senador tucano Aécio Neves (MG). “Aécio foi citado gravado (em conversa com o empresário Joesley Batista, da JBS) dizendo que ia matar gente e ainda pediu dinheiro, e a Justiça liberou ele [sic] da prisão.” Hoje, o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, recusou pedido da defesa e manteve a análise da denúncia contra o senador mineiro, na Corte Suprema, para a próxima terça-feira, 17. Além do crime de corrupção passiva, Aécio é denunciado por obstrução de justiça, no inquérito instaurado em maio de 2017, com base na delação da JBS.

Mas é no programa do PT no horário gratuito destinado aos partidos que Gleisi se esbalda. Com riqueza de “fatos alternativos”, o último que o PT levou ao ar, acrescentou uma pitada a mais na receita usual nas peças políticas televisivas. Aos feitos gloriosos com imagens luminosas, depoimentos emotivos e cenário deprimente ao se falar do sucessor, somam-se falas assertivas de que Lula está sendo perseguido, que nada há contra ele. Que querem condená-lo porque “pobre não pode ter vez neste país”.

O discurso não é novo, mas ganhou efeitos especiais para criar constrangimento, algo que o PT sempre soube fazer com extrema competência. Partes do programa fazem lembrar a polêmica peça eleitoral criada por João Santana, marqueteiro da então candidata à reeleição Dilma Rousseff, acusando a oponente Marina Silva de ser aliada a banqueiros. Nela, ricos riam em volta de uma mesa, enquanto em outra a comida sumia dos pratos da família.

Sem a competência criminosa de Santana, condenado a mais de oito anos de cadeia — há 10 dias beneficiado com prisão domiciliar –, a nova marquetagem petista escolheu perfis tristonhos para lamentar os mais de 13 milhões de desempregados, o Ciência sem Fronteiras que acabou, o Pronatec e o Fies que sumiram.

Por óbvio não contaram que o Ciência sem Fronteiras foi congelado em 2014, último ano do primeiro mandato de Dilma, quando, em ritmo de campanha, selecionaram-se os derradeiros bolsistas. Também não disseram que o gasto para enviar jovens ao exterior bateu em R$ 3,7 bilhões, suficientes para custear 39 milhões de merendas a crianças do ensino básico.

Ainda sob a batuta de Dilma, o Fies abriu 2016 com um déficit em torno de R$ 7 bilhões, e inadimplência em 50% dos contratos. O Pronatec já agonizava antes: em 2015 deixou mais de um milhão de alunos sem aulas e dívidas de R$ 8,5 milhões. O desemprego, como se sabe, galopou a passos largos a partir de 2014 e só refreou nos dois últimos meses.

Mas o PT atribui todo o desastre ao “golpista” sucessor de Dilma, derrubada pelos derrotados nas eleições de 2014, apresentados no programa em uma colagem de imagens junto a defensores de uma intervenção militar. Uma salada e tanto, maldosa e malcheirosa, com um só intuito: misturar e desinformar.

Na elegia às mulheres, que emoldurou quase três minutos do programa, veiculou-se depoimento de uma proprietária contando que a casa nova estava em seu nome, como se essa prática, instituída pelo então governador de São Paulo, Mario Covas, fosse mérito do programa petista Minha Casa Minha Vida.

Políticos? Só a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, e o candidato Lula aparecem no programa. Ela para encher a bola dele e ele para conclamar o país a “reconstruir a democracia”.

Uma convocação para lá de perigosa. Não por movimentar multidões, mas por embutir a ideia falaciosa de que não há mais democracia. Que ela foi destruída e será completamente inviabilizada se Lula for impedido pela Justiça de disputar as eleições, tese cada vez mais improvável, visto que o Supremo tende a jogar a Lei da Ficha Limpa no lixo, revendo a prisão de condenados em segunda instância.

O discurso também serve como luva para o outro lado. Se a democracia já foi para o brejo, qualquer aventureiro pode se aboletar no poder, dar ordens, dirigir o país. É o que pode advir de pregações como as que Lula tem feito, nos palanques e no programa do partido.

Falas que navegam entre o populismo e o fascismo. Entre o fundamentalismo e o livre pensar. São arremates a mentiras grosseiras e carregam tudo de que as pessoas não precisam. No Brasil ou em qualquer lugar do planeta.

 

Créditos fotos

Foto 1: Reprodução

Foto 2: Geraldo Magela/Agência Senado

Foto 3: Ricardo Stuckert

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