Um novo olhar (crítico) sobre a “Opus Majus” de Albert Camus

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O que representa, em última análise, “A peste”? O romance é plurissignificante, polissêmico. Não será possível captar nele um significado, uma interpretação, uma “leitura” unívoca. Começa por participar do simbólico e do imagético. É fábula, alegoria, parábola. Mais do que isso: metáfora transparente. Suma antiteológica (fragmento da suma que é a “opera omnia” camusiana), reflexão pascaliana (só em parte, é claro) sobre a condição humana, grávida sempre de desespero, angústia e náusea em face dos espectros da miséria, do sofrimento e da morte. Em face de tudo aquilo que sitia a cidadela do humano e não permite que o homem consiga aquilo que mais deseja: ser feliz. “A peste” traduz também, sem ambiguidade semântica, sem alusões sibilinas ou subliminares, o nazifascismo hitleriano que invade a França. A luta contra a proliferação do mal configura a Resistência. Mas a peste pode ser também – e é – o símile de qualquer guerra. De qualquer ameaça à integridade do homem. À sua dignidade intrínseca. Aos seus direitos inalienáveis. Poderemos ver nela ainda a figuração da própria morte, para cujos vírus, bacilos e bactérias não existe – e não existirá nunca – a “vacina” salvadora. Simulacro do real, seja ele qual for, “A peste” é também a própria realidade viva, reconstruída, quintessenciada pelo milagre da criação estética. Esta, fundada na palavra essencial, sacralizadora. Essencialmente poética. Afinal, “poiesis”, em grego, significa criação.

 

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“Só há uma saída para a vida: é viver”. A frase é de Pessoa. Poderia ser subscrita por Camus. De fato, para o homem, perdido na desolada terra dos homens, só há uma saída: ser homem. Não fechado em si mesmo, isolado na sua ilha privativa, na insularidade do seu egoísmo, do seu egocentrismo, da sua autolatria, mas em comunhão fraterna com

os outros homens. Fazendo parte de um arquipélago – a humanidade. Parte do todo a que se referiu John Donne, só aí o homem se torna verdadeiramente imortal. Ainda que amputado de fragmentos do seu organismo, o todo não morre. Continua.

 

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No universo camusiano, o homem é o centro. Tudo tende e converge para ele. Órfão do Deus morto de Nietzsche, incapaz daquela fé robusta que Kierkegaard canta no seu “Temor e tremor”, exilado no mundo absurdo (que não é exatamente o de Kafka), caminhando em túneis de angústia rumo à morte a que está destinado e apesar de tudo buscando sempre o velocino de ouro ou o Santo Graal que é a felicidade, o ser humano tem, nesse percurso que vai do berço ao túmulo, a possibilidade de uma espécie de salvação pessoal. De redenção. Ela está no amor ao semelhante, ao companheiro de jornada, ao irmão. O que vale dizer: ao próximo. A fraternidade alicerçada na fé no homem, na crença na criatura humana – eis aí a única chave que pode abrir a fechadura da hipótese de ser feliz. Nessa concepção radical em que entronca Camus, temos a imagem de um teísta. Não ortodoxo, é óbvio. Na sua heterodoxia, o Deus, mortalmente imortal, não é o Deus consuetudinário dos crentes de todas as religiões. É outro: chama-se Homem. Sim, o romancista possui a sua religião privativa: o humanismo. A obra de Camus, toda ela (e não apenas “A peste”) é a Bíblia desse humanismo que, encharcado de vitalismo, exorciza a suprema injustiça infligida ao homem: a morte. É nela, com ela e através dela que o artista exercita a sua liberdade de lutar. A liturgia de viver. Ainda que ameaçado pelos bacilos de todas as pestes, é importante gritar: estou vivo! Esse grito o salva.

 

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Ver em Camus apenas um pessimista existencial “à outrance”, talvez seja um exagero conceitual. Se não retórico. Jamais poderá ser considerado vítima de um pessimismo mórbido quem escreve, em diversos trechos da sua obra, mormente na epistolografia: “O meu reino é deste mundo… Apenas falarei do meu amor pela vida… A minha felicidade não tem preço… Eu vivo com tal entusiasmo… E importante ser feliz acima de tudo… A felicidade é também uma longa paciência…” São colocações de um apolíneo. Que, como Janus, tem outra face: a dionisíaca. Esta, quiçá, de traços bem mais definidos. De qualquer modo, é impossível, no caso de Camus, aceitar ou admitir uma dicotomia maniqueísta, vendo nele apenas uma das faces. Temos que enxergar, num mesmo golpe de vista, uma e outra. Ambas se complementam. Se completam. Da mesma forma que, no homem, o angélico coexiste com o demoníaco.

 

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“A peste” tem algumas fontes (ou matrizes) perfeitamente perceptíveis ou detectáveis: Dostoievski, Daniel Defoe, Kafka, Unamuno – o Unamuno de “El sentimiento trágico de la vida”. Há outra raramente mencionada e, no entanto, vital: Blaise Pascal. Ainda que este, crente, pareça situado nos antípodas de Camus, ateu convicto, militante. A visão que ambos têm do homem é idêntica. Tanto um quanto o outro o concebem como um ser fragílimo, insignificante, aprisionado no seu labirinto existencial. Muda apenas a saída que os dois vislumbram. Enquanto, para Pascal, a redenção está em Deus e a saída, portanto, reside na fé, o romancista vê à sua frente uma única porta: a revolta, a insurreição, a rebelião. A luta. Não uma luta individualista, mas coletiva. Ao lado dos outros homens. De quem quer que sofra a dor da mesma ferida que é estar vivo. É na perpétua luta de Sísifo com o seu rochedo, montanha acima, que o homem pode obter um pouco de felicidade. Ainda que provisória. Mesmo precária. Sem a transcendência, pois só o homem pode redimir o homem. Como? Através do amor, da solidariedade, da fraternidade. Curiosamente, as três palavras cristãs, que implicam uma quarta, não nomeada – caridade –, acabam por ser as palavras eleitas do ateu irredutível. Assim, Camus dá-nos a impressão de ser um cristão às avessas. Um cristão que não crê em Cristo. Que não aceita Deus no seu universo. Mas crente, apesar de tudo, por paradoxal que isso possa parecer. Pois ele, embora negando-O, como o Ivan Karamazov, de Dostoievski, na medida em que não aceita a Sua omissão no cenário do sofrimento humano, na medida em que desejaria ver a Sua intervenção para derrotar a morte, acaba afinal por cumprir o Seu mandamento de ouro: amar o próximo. Tomando-se mais cristão do que muitos hipócritas que o são apenas de fachada, da boca para fora. Sim, mesmo negando a existência de Deus, Camus de certa forma aceita-O. Ao combatê-lo, segue-O. Vira-lhe as costas, mas cumpre os Seus ditames. Não é por acaso que Tarrou sonha ser “um santo sem Deus”. Ou seja, um homem que busque a perfeição e persiga a bondade sem cogitar de recompensas divinas – paraísos ou bem-aventuranças eternas. Mas sem temor também a penas e castigos – purgatórios breves ou infernos definitivos. Uma bondade e uma perfeição intrinsecamente puras. Sem premeditação. Sem cálculo. Despojadas de considerações prévias. Sejam elas metafísicas ou apenas pragmáticas. Como evitar a admiração perante esse tipo de santidade sem nada de interesseiro ou fisiológico?

 

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Por toda a parte os homens morrem e não são felizes, escreve Camus. O jornalista Rampert, caído em Oran como uma mosca na teia, em nome dessa felicidade pessoal, faz tudo para fugir de Oran. Quando desespera de consegui-lo, tem à sua frente a possibilidade sonhada de fazê-lo, oferecida por Rieux. Pode, se assim o desejar, evadir-se do pesadelo. À última hora, porém, desiste. Envolvido, ele também, na luta contra o flagelo, vendo à sua volta o espetáculo de seres iguais a ele que combatem e morrem, acaba por compreender que não tem sentido a fuga para ser feliz sozinho. Pode haver vergonha nessa felicidade. Temos aí o eco das palavras de Sartre, em outro contexto: ou todos se salvam, ou ninguém se salva. Prenhes de amor ao homem. Por linhas tortas, pois, Camus parece compreender a lição paulina: como poderemos amar a Deus, a quem não vemos, se não amarmos primeiro o homem, o cidadão concreto, visível na tangibilidade da sua presença física, da sua aparição corpórea?

 

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Parece-me mais do que evidente: a consciência religiosa, em Camus, foi substituída por uma ética humanista. Pergunto: estarão, essa consciência e essa ética, tão afastadas como parecem? Penso que não. Na verdade, a vocação para a transcendência (divina) e o apetite da imanência (humana) são apenas a face e a coroa da mesma moeda existencial. O absurdo e o niilismo aparentes de Camus talvez não passem de recursos de uma estratégia despistadora de que o humanista se serve para ganhar as alturas.

 

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Talvez a primeira intenção de Camus, ao escrever “A peste”, tenha sido a de traçar, em pinceladas fortes de jornalista espectador do quotidiano, uma despretensiosa crônica da Resistência. Contudo, entre a intenção programática e a realidade factual do seu trabalho, medeia um abismo. O romancista colocou tanta força, animou de tal fogo visceral, impregnou de tamanho vigor estético a sua narrativa, que ela acabou por ganhar uma dimensão que por certo surpreendeu e espantou o próprio artífice. Não são raros os milagres dessa ordem, no terreno da literatura. Lembro um arquétipo: Cervantes. Também ele, ao escrever o seu imortal “Dom Quixote”, pretendeu dar-nos apenas uma sátira, uma paródia burlesca, herói-cômica, dos romances de cavalaria medievais. Mas tanto o espanhol como o francês transcenderam largamente intenções prévias. Doando à posteridade duas imorredouras obras-primas em cujas entranhas pulsa o coração do gênio, “ex libris” emblemático da condição humana.

 

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Evitando, renunciando “a priori” a qualquer concepção de Deus, seja ela antropomórfica, espiritual ou moral, Camus parece tender em muitos momentos para a sua antítese: um homem divinizado. Helenicamente divinizado, como os heróis de Homero. Capaz de criar deuses à sua imagem e semelhança.

 

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O romance permite – e exige – várias leituras. Opera aperta por excelência, na linha do pensamento teórico de Umberto Eco, possibilita várias interpretações ao nível simbólico ou fabular. Creio, porém, que ela é acima de tudo – intencionalmente ou não, isso pouco importa – uma extraordinária metáfora. Oran seria o mundo; os habitantes condenados, a humanidade; a peste, a morte; a luta contra o flagelo, a própria vida. O ato litúrgico de existir entre os muros altos do quotidiano, na cidade planetária que é o mundo, nada mais é, no fundo, do que uma perpétua batalha individual (e uma guerra coletiva) contra o vírus da morte, a peste, que desde a placenta trazemos no sangue.

 

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Infeliz, o ateu. Sem a perpétua fome de transcendência, sem o apetite de absoluto que só a fé pode saciar, o que resta ao ateu, homem precário, contingente? O que lhe resta ante a perspectiva da dissolução da mente e da aniquilação dos sentidos a que o condena a foice de Tanatos? Capitular sem condições. Ou resistir sem esperança. Entre as duas opções, já o dissemos, Camus não hesita, não titubeia. Para ele, a capitulação seria um ato covarde de pusilânimes, não condizente com a grandeza (apesar de tudo) da condição humana. Ainda que simples, abjeto, condenado desde o princípio a ser vítima, em holocausto, no altar das Parcas, desde o útero primordial destinado à morte, existe ainda algo de grandioso no ser humano: a capacidade de autoafirmação. Mesmo à vista do caos e dos escombros para onde caminha a passos largos. Se é necessário morrer, parece gritar Camus, que morramos de pé. Brandindo a espada. Para o comodismo da horizontalidade e do sono sem sonhos, teremos a eternidade, espaço eleito para o infinito tédio dos mortos. A vida, afinal, só pode afirmar-se perante a morte. Contra ela. Essa a razão por que lutar é preciso.

 

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Vida, paixão e morte do homem. Sem ressurreição. Esse o vasto mural que Camus acaba por pintar. Como pode cessar esse milagre admirável que é a vida? O romancista faz uma reflexão profunda sobre a vida e a morte. Sobre a vida do homem que sabe que vai morrer. Sobre o destino desse animal estranho, misto de pássaro e toupeira, cristal frágil cuja vontade pode apresentar a dureza do granito ou do diamante. Um mural sombrio com a grandeza do “Guernica” picassiano. Talvez um “de profundis”. Mas nunca um réquiem.

 

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Haverá pessimismo na conclusão de “A peste”? Apenas realismo. A batalha contra o flagelo, por fim, foi vencida. Mas não há como cantar vitória. A alegria das vitórias humanas é efêmera. Está sempre ameaçada, pensa Rieux. Pois o bacilo da peste não dorme nem desaparece, fica dezenas de anos a dormir nos móveis e nas roupas, espera com paciência nos quartos, nos porões, nas malas, nos papéis, nos lenços – e chega o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acorda os ratos e os manda morrer numa cidade feliz. A advertência final é contundente. É preciso que os homens estejam preparados para enfrentar o flagelo. Agora e sempre. De qualquer modo, é uma advertência desnecessária, supérflua, para o homem de fé. Dessa fé que, sem querer e talvez sem saber, Camus tangenciou. E cujo objeto certamente veio a conhecer, no dia 4 de janeiro de 1960.

 

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Não tenhamos ilusões. A trágica grandeza da condição humana só é possível porque existe a morte, não espectro translúcido, mas concretude monolítica. Há algo de bom, de positivo, na peste insidiosa que traz consigo o convite irrecusável. A antevisão, o pressentimento, a consciência da inevitabilidade do edifício humano reduzir-se a ruínas – as cinzas e os ossos das necrópoles – têm a sua função por assim dizer revitalizadora da própria existência. Como seria possível meditar, refletir, cantar a condição humana, exercitá-la nos labirintos e nas encruzilhadas do quotidiano, saboreá-la, fruí-la, se não existisse ao fim do filme a clássica legenda: “the end”? Sem esse epílogo irremediável, talvez doloroso, se não indesejável, a meditação, o canto, a reflexão, não teriam razão de ser. Seriam superfluidades. Impossibilidades. Um ser gozando da interminável mordomia da imortalidade seria, ele sim, o mais trágico e desesperado de todos os seres, vítima do tédio eterno. É o beijo de Tanatos que dá sentido à vida. É o seu perfil cinzento, recortado no horizonte com traços indistintos, que permite afinal que o homem lute para ser feliz. E o seja. Ainda que provisoriamente, intermitentemente. Pois a felicidade, bem essencial (ainda não tributado pelos governos…), só pode existir em face da parafernália de todas as coisas que a impedem ou dificultam. Sobretudo, em face da mais terrível de todas elas: a própria morte. Só esta, afinal, permite a afirmação, em toda a plenitude, dos Rieux e dos Rampert. Só ela autoriza que eles sejam felizes. Assim, repetindo o salmista, “ubi mors victoria tua”? Camus podia ter feito dessa pergunta a epígrafe da sua “opera omnia”. Mormente se ele admitisse, no fundo do coração, nas entranhas da alma, a doce verdade contida na afirmação franciscana: é morrendo que se ressuscita para a vida eterna. Carente dessa fé que tornaria mais fácil a felicidade que ele buscou com a desesperada inquietude que os seus livros testemunham, nem por isso ele é menos digno de admiração e respeito. “Santo sem Deus”, que como ninguém cumpriu o mandamento de ouro do próprio Cristo, ele faz jus aos versos de outro desesperado, Antero, que acabou por reencontrar a fé perdida:

Nas mãos de Deus, na sua mão direita,
repousou afinal meu coração.

 

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O grito de Nietzsche – Deus está morto! – repercute ao longo da obra de Camus. O seu eco perpassa em inúmeras das suas páginas antológicas. O escritor revolta-se com essa morte. Ele gostaria de um Deus vivo, participante, intervindo nos negócios humanos, eliminando a miséria e o sofrimento, fazendo felizes as crianças, acabando com todas as injustiças, sobretudo com a maior de todas – a morte. Parece haver nessa revolta a nostalgia desse Deus que – na sua concepção de ateu ortodoxo – não existe. Ou até mesmo a revolta contra Ele, tentando atrair a Sua atenção sobre este vale de lágrimas. Já dizia Claudel que o ateu está muitas vezes mais perto de Deus do que aquele que simplesmente afirma crer nEle. A revolta, no fundo, não implicaria a vontade de crer?

 

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A coreografia do futebol, a doçura das praias ensolaradas, o encanto dos bailes populares, a beleza das mulheres, a suavidade do canto fortuito dos pássaros, o palpitar fulgurante das constelações, o gládio dourado de um raio de sol no zênite. Numa palavra: “a joie de vivre”. Camus a sentiu. Enquanto homem de ação, soube fruí-la em toda a plenitude – apolineamente. Já como homem de reflexão, que põe no papel o fruto das suas andanças interiores, faz literatura, escreve romances, ele retratou o lado mais tenebroso da vida – o enfrentamento da “peste”. Dionisicamente. Em largos segmentos da obra camusiana, parece brilhar um sol negro. Contaminada pelo vírus letal, ensombrecida pelo perfil de Tanatos, o “inimigo das gentes”, a existência dói. E o que podia ser uma viagem gloriosa acaba por tornar-se “uma aventura horrível e suja”.

 

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Num universo órfão de Deus, o homem tem apenas duas formas de salvação: o amor e a criação. O amor aos outros homens; a criação estética, forma de perpetuação, simulacro da imortalidade. Camus escreve, afinal, para não morrer.

 

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Camus fez da vida uma religião privativa, transformou o homem no centro da sua fé pessoal e adotou a revolta como a sua liturgia quotidiana. Oficiante perpétuo do culto do humanismo radical, Camus, encarnação acabada de Sísifo, consciente de que é impossível erradicar a morte ou abolir a finitude existencial unamuniana (em nome da transcendência de um Deus imortal que deveria ter criado o homem inteiramente à Sua imagem e semelhança), acaba afinal por ser feliz. Ou por fruir pelo menos um simulacro de felicidade. Consubstanciado no simples fato de saber carregar estoicamente o seu fardo até ao alto da montanha – ainda que nunca consiga atingi-lo. Exercitando sempre o humaníssimo “jus esperneandi”. Que, se não redime, não salva o homem do espectro final que ronda a sua caminhada, é pelo menos lenitivo, bálsamo. Consolação. É pouco? É tudo.

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