A era de ouro dos musicais

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O cinema sonoro nasceu cantando na voz de Al Jolson, o maior “showman” da época, com “O cantor de jazz” (The jazz singer, 1927). Sem nenhum número de dança e performando alguns de seus sucessos, o restante do filme conservou a linguagem dos mudos. Estes primeiros filmes eram primários, limitados pela câmera fixa, cenários em pequenos palcos, pois era um problema esconder a orquestra e o microfone. Apesar disso, faziam enorme sucesso, mais pela novidade, com os estúdios importando talentos e compositores da Broadway. Passados uns poucos anos, o progresso foi enorme, iniciando a era de ouro dos musicais, os anos 30, 40 e 50. Esse salto de qualidade se deve às experiências de Fred Astaire, na pequena RKO Radio Pictures, com o diretor Mark Sandrich. O som da orquestra, o canto e o sapateado eram pré-gravados, reproduzidos no estúdio para a filmagem e cabia aos atores sincronizar. Nesse processo se conseguia melhor qualidade de som, já que era gravado em condições ideais, a câmera teria toda a liberdade de movimentos e possibilitava a filmagem em qualquer lugar, inclusive em externas.

O primeiro filme a usar essa trabalhosa técnica foi “A alegre divorciada” (The gay divorcee, 1934), com Fred Astaire e Ginger Rogers. Foi uma enorme evolução no gênero musical cinematográfico. Além de coreografar seus números, Astaire não era somente um ator dançarino que cantava: introduziu mais “standards” do que qualquer outro artista de palco ou tela, com composições de Irving Berlin, Ira e George Gershwin, Dorothy Fields e Jerome Kern. A lista de canções é muito grande para caber aqui, mas que tal “Night and day”, “Begin the beguine”, “Cheek to cheek”, “Fascinating rhythm”, “They can’t take that away from me”, compostas para seus filmes. Na fase da RKO, foram 10 filmes, de 1933 a 1939, todos de grande sucesso, com uma mesma fórmula: grandes músicas, comédia, cenários suntuosos “art déco”, identidades trocadas, criando o mundo irreal mágico de Fred Astaire e Ginger Rogers. Fico imaginando a multidão saindo do cine Luz, onde a maioria desses filmes passaram em Curitiba, atravessando a praça Zacarias até a Cinelândia, felizes, cantarolando e ensaiando alguns passos de dança, aparentemente tão fáceis no filme. Fred ensaiava exaustivamente, às vezes por oito semanas antes das filmagens com o coreógrafo Hermes Pan, criando os passos para compor o número. Isso porque não queria cortes para close-ups, nem para pés em movimento, ombros se movendo ou partes isoladas do corpo inseridas no fluxo da ação. A dança, para ele, era o corpo inteiro, sem cortes, ou não era nada.

Cine Ópera em 1946, no coração da Cinelândia curitibana.

Cine Ópera em 1946, no coração da Cinelândia curitibana.

Em 1940, ele já estrelava “Melodias da Broadway de 1940” (Broadway melody of 1940) na Metro-Goldwyn-Mayer, com Eleanor Powel, direção de Norman Taurog, e as mesmas exigências para as filmagens dos números de dança. Foi considerado o último dos grandes musicais em preto e branco, com um número antológico: “Begin the beguine”. Se você não quiser assistir ao filme inteiro, tem que ver esta dança e sapateado extraordinários.

A partir daí, vieram superproduções em technicolor, como “Sinfonia de Paris” (An american in Paris), com Gene Kelly, outro grande dançarino e coreógrafo, porém de estilo mais atlético, Leslie Caron e Oscar Levant. Com uso maravilhoso da cor e música de George Gershwin, ganhou oito Oscars em 1951. O balé final de mais de vinte minutos é, sem dúvida, um dos mais caleidoscópicos e mágicos da história do cinema. Dirigido por Vincent Minelli, foi um grande triunfo artístico da unidade de produção de Arthur Freed. Em seguida, viria “Cantando na Chuva” (Singin in the rain, 1952), da mesma unidade de Freed, dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly, que estrela com Donald O’Connor, Debbie Reynolds e Cid Charisse. A Metro tinha outras duas unidades de produção só para os musicais. Eram produções caríssimas, mas que davam retorno garantido pelo grande sucesso de público. Esses filmes lotavam o cine Ópera, que tinha exclusividade da Metro, por semanas. Quando exibiu “Escola de sereias” (Bathing beauty, 1944), com a rainha das evoluções aquáticas Esther Williams, Red Skelton e as orquestras de Harry James e Xavier Cugat, direção de George Sidney, ficou tanto tempo em cartaz que alguns estudantes perguntavam na porta do cinema se já tinham trocado a água da piscina.

Com o fim da era dos estúdios, essas produções desapareceram, pois eram muito caras e exigiam um staff regular de criação, grandes orquestras, orquestradores, coreógrafos, enormes cenários. Fechando esse ciclo na Metro, “Gigi”, estrelado por Maurice Chevalier, Leslie Caron e Louis Jourdan, dirigido por Vincent Minelli, com músicas de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe, magnificamente orquestradas por André Previn, estreou em 1958. Os cenários e figurinos de Cecil Beaton criaram uma Paris encantadora e fascinante, em cinemascope, magnífico metrocolor e som estereofônico. Venceu nove Oscars, incluindo melhor filme. Infelizmente, saiu uma irritante versão em DVD, em que as laterais foram cortadas para o formato 4×3, mutilando o filme.

A partir da década seguinte, os poucos musicais já vinham prontos da Broadway, como, por exemplo, “Amor sublime amor” (West side story, 1961), com música de Leonard Bernstein e letras de Stephen Sondheim. Dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins, foi estrelado por Natalie Wood, Rita Moreno e Russ Tamblyn e ganhou dez Oscars e. Ou “Minha bela dama” (My fair lady, 1964), com Rex Harrison, em seu papel original nos palcos, e Audrey Hepburn. Essa luxuosa produção da Warner dirigida por George Cukor teve a trilha sonora assinada pelos mesmos autores de “Gigi”.

Hoje esse gênero de filme quase desapareceu, seja pela falta de compositores, de atores e, consequentemente, de público, outrora cativo, lotando as grandes salas. Como produzir um musical com as pancadarias ou os entulhos de hoje?

 

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