Cada um com sua relíquia

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Nos anos de chumbo, visitei uma ordem religiosa, toda ela com seus estudantes formados sob a influência do Concílio e das pregações do Papa João XXIII e, portanto, potenciais quadros das comunidades eclesiais de base. Como era atingido pelos atos institucionais e respondia a processo militar com outros jornalistas, era visto por eles com admiração e de tal sorte tão extremada que até constrangia.

Viviam intensamente os acontecimentos desde a fase que precedeu o golpe, defensores todos das reformas de base, que eram o avesso das propostas de Michel Temer e faziam do povo e de suas áreas mais sofridas o objetivo das mudanças urgentes. Seu enfrentamento maior dentro da Igreja estava na arregimentação dos integristas, à extrema direita, nas marchas com Deus e a Família pela Liberdade e que funcionaria com suas passeatas bem superiores à multidão do comício das reformas da Central do Brasil, com seus 350 mil participantes, em massas de 700 mil e até mais de um milhão em várias capitais, inclusive aqui em Curitiba, o que soou como o sinal civil para a intervenção castrense e, posteriormente, castrante.

Um dos jovens seminaristas, com aquela fala ítalo-eclesiástica, para mostrar o quanto levavam a sério as vítimas dos militares, me fez uma confidência para me mostrar uma relíquia. Quando fez a alusão a esse tipo de culto, lembrei-me de uma descrição que o arquiteto Lubomir Ficinski me relatou, de uma experiência adolescente, com a visão dos despojos mortais de uma santa em Curitiba. Preparei-me para um choque quando o jovem me exibiu uma caixa artística forrada com lã e lá no seu interior a orelha do reitor da Universidade Federal. Simplesmente um organismo transformado em efígie, era apenas uma parte do busto do professor derrubado em manifestação turbulenta, aquelas de 1968, diante do prédio da Reitoria.

Para a comunidade seminarista era um troféu, a que deram a dimensão de uma relíquia, objeto de lembrança e consciência do ano que nunca terminou, conforme Zuenir Ventura.

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