Eu quero ir pro mato

adriana

Há a zanzar pelo mundo urbano um batalhão de gente que ainda sonha com uma casa no campo, um lugar cheio de mato, um cafofo longe das trambicagens da cidade grande. Viver longe de “bancários, automóveis, ruas e avenidas com milhões de buzinas tocando sem cessar” é a vontade dourada de muitos.

Essa legião de hipongos fora de hora, na qual me incluo, vira e mexe deixa que a vontade desabe para a música. E com isso a MPB vai construindo novos endereços, cantando as coisas do interior ou da utopia de viver num lugar bucólico que só existe mesmo nos sonhos programados pela consciência.

A campeã deste quesito é a dupla Tavito/Zé Rodrix. Eles não foram os primeiros a tratar do assunto em forma de canção, mas com certeza são os grandes representantes da vontade de vida rural que existe em cada um de nós, ai de nós!, que ainda consegue ter este tipo de pensamento.

Como já contei nesta coluna, Zé Rodrix, o letrista, que foi inspirado pela paisagem goiana durante uma viagem de ônibus, se considerava um cara urbano, cem por cento urbano e, em entrevista à Folha de S. Paulo, confessou que “nunca acreditou muito nesse papo de campo”. Mas se para ele toda a imagem que construiu não fazia muito sentido como local de vida, para muita gente virou hino e linha do horizonte: “Eu quero uma casa no campo / Do tamanho ideal, pau a pique e sapé / Onde eu possa plantar meus amigos / Meus discos e livros / E nada mais”.

E a “Casinha Branca” de Gilson, Joran e Marcelo? Tão singela que até dói um pouquinho. Este personagem que sofre a solidão das cidades entulhadas de multidões só quer uma coisa: “Eu queria ter na vida simplesmente / Um lugar de mato verde / Pra plantar e pra colher / Ter uma casinha branca de varanda / Um quintal e uma janela / Para ver o sol nascer”.

Mais importante que o sítio de Atibaia é o sítio de Poço Fundo, o Beira Rio, que ficava na região serrana do Rio de Janeiro, a 40 minutos de Petrópolis. Era o refúgio de Tom Jobim, onde ele se reunia com passarinhos para compor maravilhas. Foi lá que criou “Rancho das Nuvens”, que mesmo sem letra faz caminhar até um lugar onde os silêncios não identificam problemas quando a natureza fala. Em 2011, temporais de verão acabaram com a paisagem e duas casas da família Jobim. Foi o fim do caminho, daquele caminho, para começar outro, de reconstrução, mas sem o charme de ter as paredes-testemunhas de outros tempos.

E por falar em rancho, é fácil lembrar de “Rancho Fundo”, música que conhecemos muito bem, mas que foi lançada de jeito diferente. Araci Cortes foi quem estreou voz e gravação em junho de 1930. Naquele momento, o samba chamava-se “Este mulato vai ser meu” e tinha como subtítulo “Na Grota Funda”, era uma parceria de Ary Barroso e J. Carlos; a letra: “Na Grota Funda / Na virada da montanha / Só se conta uma façanha / do mulato da Raimunda”. Lamartine Babo ouviu e acho que estranhou tanto quanto nós e propôs novos versos. Ary aceitou, Elisa Coelho gravou, o sucesso foi imediato e o antigo parceiro, J. Carlos, rompeu para todo o sempre com o autor da melodia. Sem querer glorificar a briga, foi melhor assim: “No rancho fundo bem pra lá do fim do mundo / Nunca mais houve alegria / Nem de noite, nem de dia / Os arvoredos já não contam mais segredos / Que a última palmeira já morreu na cordilheira / Os passarinhos internaram-se nos ninhos / De tão triste essa tristeza enche de treva a natureza / Tudo por quê? Só por causa do moreno / Que era grande, hoje é pequeno / Para uma casa de sapê”. Ah! o amor!, nada sobrevive às desilusões do amor, nem este lugar construído para ser paraíso.

E se de tão triste o moreno de Ary e Lamartine não podia viver na casa de sapê, quem é que pode? Qualquer um que tenha a sorte de encontrar a cara-metade. Aqui, neste caso, a paisagem interiorana não pontua, porque o que vale é o envolvimento entre os moradores, mas, mesmo assim, não dá para deixar passar “Na rua, na chuva, na fazenda”, de Hyldon: “Jogue suas mãos para o céu / Agradeça se acaso tiver / Alguém que você gostaria que / Estivesse sempre com você / Na rua, na chuva, na fazenda / Ou numa casinha de sapê”.

Acho que o troféu casinha de sapé mais fofa da MPB vai para “Casa de Caboclo”, coisa do começo do século passado, autoria de Luiz Peixoto e Heckel Tavares, que se inspiraram em alguns motivos compostos por Chiquinha Gonzaga. É desta música o dito “Numa casa de caboclo um é pouco, dois é bom e três é demais”, mas isso, embora tenha muita relevância porque comprova o tamanho do sucesso da composição na época, não é destaque aqui. O bom, neste momento, é olhar para essa beleza interiorana, comovente, tão simples e quase impossível de alcançar: “Você tá vendo essa casinha simplesinha / Toda branca de sapê / Diz que ela véve no abandono não tem dono / E se tem ninguém não vê / Uma roseira cobre a banda da varanda / E num pé de cambucá / Quando o dia se alevanta, Virge Santa / Fica assim de sabiá”.

Vou tratar de confissão particular. Sou fã, muito fã, de André Abujamra. A inteligência que ultrapassa aquele oceano que traz nos olhos e pula em cima de quem presta atenção é coisa para tirar o chapéu. Tenho a impressão, aqui na solidão da escuta, que ele não se contenta com uma meia dúzia de frases de efeito, trata de ultrapassar esta fórmula necessária na canção para ir um pouco além. E é por isso que termino esta coluna com sua “Juvenar”, parceria com Luiz Cláudio Sandalo: “Tá frio aqui / Tá muito poluído / Eu tô triste, eu tô borrecido / Tá feio aqui / Tá muita poluição / Tá fedido, fumaça de caminhão / Eu tô cansado da cidade / Eu quero ir pro mato / Tem de tudo lá / Porco, galinha, pato / Tem carroça, tem cachorro, tem carro de boi / Correguinho sempre tem / Juvenar, Juvenar / Vem tirar o leite / São 6 horas da manhã / Juvenar, Juvenar”.

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