A casa no lago

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Estou de pé, às margens do lago drenado do Passeio Público. Ao meu lado, um último biguá contempla, perplexo, o leito de concreto do grande tanque. Para ele, este é um cenário de sonho. Um pesadelo tornado real. Nasceu para mergulhar, mas não há água nem profundeza. Apenas planície. Na falta do que fazer, me faz companhia. Grato, retribuo a gentileza.

Não estamos sozinhos, e nunca estaremos. Uma dupla de senhoras se aproxima. Elas vêm caminhando juntas, pela pista de asfalto que rodeia o lago. As duas são muito velhas e se movem devagar, de braços dados. Uma delas é espantosamente pequena. Baixa e magra, serve de apoio à companheira que, por sua vez, é grande demais, quase elefantina. Ambas têm cabelos brancos e ralos. Vestem agasalhos azuis, calçam tênis brancos, usam óculos escuros. Temos a impressão de que nunca chegarão até nós. Mas chegam e, de passagem, escutamos a menor dizer à maior:

– Minha mãe era uma mulher muito alegre, você a conheceu. Sempre que lembro dela, eu a vejo sorrindo. Mas sempre que sonho com ela, ela está triste, chorando, numa casinha distante. O que significa este sonho?

Me sinto tentado a interferir, mas nada digo. O biguá também se mantém calado. Em primeiro lugar, sabemos, seria preciso reconstruir em detalhes a casa com que sonha a senhora, assim como a dinâmica de seu sonho. Por exemplo, essa casinha distante, a sonhadora a vê de dentro ou de fora? É cercada por muros? Há um jardim diante dela? Um pomar no quintal? No sonho, chove ou faz sol? É dia ou é noite? E em que parte da casa sua mãe se encontra? Está na cozinha, junto ao forno a lenha, sapecando pinhões na chapa, ou debruçada sobre a mesa posta, para o almoço ou a janta? Há no fogão uma chaleira e fogo embaixo dela? Ou um bule quente marcando a toalha plástica e nele o café fresco, adoçado ou não? Também é importante saber se há, vedando o bico do bule, um chapeuzinho de papel laminado, que impeça o calor de fugir. Pois essa mãe pode estar chorando justamente por isso: pelo calor que já deixou escapar.

Ou quem sabe chore num quarto, seu ou de algum amigo, ou na suíte de um estranho, sobre uma colcha de fuxicos? Será que, enquanto chora, escova ou prende os cabelos diante de uma penteadeira? Ou usa peruca e a encaixa numa cabeça de gesso, pomposamente, como se coroasse um antigo ideal de elegância? Veste roupas caseiras, trajes de festa, uniformes de trabalho, calcinha e sutiã, pijama ou camisola? Ou, pelo contrário, está nua diante do espelho, em busca de um reflexo perdido? Não, nua não; se houvesse nudez, a filha teria ressaltado esse pormenor à amiga: Sempre que sonho com ela, ela está chorando, está triste e nua, e essa nudez daria ao sonho implicações ainda mais perturbadoras. Ou talvez, pensando melhor, ela nada dissesse, quem é que sonha com a mãe pelada? E quem o confessa?

– Mas o que o significa este sonho?

Difícil saber sem as minúcias. Esta senhora, por exemplo, sonha com a mãe ainda jovem, ou com a mãe já velha? Sentada no sofá da sala, talvez traga no colo uma blusa de lã pela metade, o tricô interrompido por uma ou mais tristezas, as agulhas depostas, uma dona de casa rendida. Ou quem sabe esteja chorando ao amaciar almofadas, esbaforida, ou cobrindo a mobília com lençóis engomados, sua coleção particular de fantasmas, a fim de poupar o estofamento novo para o deleite das visitas, essa gente superior que promete, mas nunca vem, assim como ela, coitada, que jura que vai sair, mas nunca sai (e por isso chora).

Talvez a mãe da sonhadora chore numa poltrona de leitura, talvez costumasse ler em vida e comprasse livros engraçados ou edificantes, pois consta que era alegre. Talvez, no sonho, deixe escorregar das mãos um livro aberto, uma obra de que gostava muito, mas que, de repente, naquela casa distante e tão pequenina, perdeu totalmente o sentido e a graça. Sim, talvez ela chore pelos sentidos que viu se perderem, e é importante que saibamos que livro seria esse, um prazer que se tornou decepção, é mesmo fundamental que a senhorinha o revele à amiga. Há particularidades indispensáveis à investigação. Se sua mãe, por exemplo, estiver chorando na biblioteca dessa casa, supondo que uma casa tão pequena possa ter uma biblioteca, é preciso que a narrativa o desvele, para que a visualizemos entre estantes abarrotadas de livros e de pó, relatos que nunca mais farão sentido a ninguém, pois só assim saberemos que sua mãe estará chorando pelo desperdício de todas as ideias e histórias que já teve ou ouviu – chorando sozinha, triste e nua, em meio a uma biblioteca.

Não, nua, não. A não ser que chore no banheiro, durante uma ducha rápida, urgente, o banho tomado às pressas, a fim de livrá-la de uma sujeira inaceitável, alguma odiosa contaminação. Aí sim pode ser que esteja nua. Mas pode ser que esteja mais calma, que chore quase com parcimônia, submersa numa banheira vitoriana. Seria, então, um choro de alto potencial pictórico e, a depender da luz que entrasse pela janela no momento do sonho, teríamos uma pintura sensual, ou tétrica, ou perversa. Digamos que essa mãe chore à noite e que haja lua cheia. Ela poderia se erguer da banheira e caminhar, nua, até a janela, de onde examinaria a lua no céu limpo e talvez admirasse o luar sobre a mata que circunda a casa, o luar na copa dos pinheiros e das pitangueiras, e nos mantos de maracujá floridos, no telhado pontiagudo de uma propriedade vizinha, ou na superfície do lago artificial por onde desliza uma família perfeita de cisnes. Sim, digamos que a casa fique às margens de um lago. É bom que saibamos.

E se essa mãe que chora estiver no porão da casa, admitindo-se que nessa casa, mesmo pequena, exista um porão e um motivo para se chorar dentro dele? Aí teríamos um prato cheio para os psicanalistas, que hipnotizariam a sonhadora, a fim de esquadrinhar o cômodo escuro. O que há nesse porão, perguntariam àquela paciente, o que a senhora vê ou deixa de ver ao seu redor, o que sua mãe teria escondido ou trancafiado nesse depósito de memórias, entre ratos e aranhas, e onde agora resolveu chorar? O enxoval de um casamento que era, ele próprio, a promessa de outro sonho, à prova de lágrimas? A louça importada que ela jamais teve coragem de macular com a comida do dia a dia, os brinquedos de um filho morto, o berço que reservou aos netos que o recusaram, uma caixa de fotos comprometedoras, de bombons mofados, de joias falsas?

E se na casa houver um sótão? É preciso saber. Passaríamos, então, do subsolo ao teto, do plano do subconsciente ao das divagações mais elevadas, ao campo da imaginação mais pura ou, o que seria lamentável, ao da demência. Não sabemos. Talvez a mãe dessa senhora esteja chorando enquanto observa, pela janelinha basculante do sótão, o sol que nasce sobre a serra do mar, e talvez esse sol ilumine um sótão vazio, tão vazio quanto a casa sonhada pela pequena senhora, ou quanto o lago drenado do Passeio Público, e que o biguá ainda acredita ser a projeção de um de seus pesadelos. Talvez a mãe da sonhadora esteja lá, nessa casa vazia, perplexa como o pássaro, chorando a ausência da água à sua volta. Pois as coisas que a despertavam pela manhã agora estão quietas; as pessoas que a saudavam pela manhã agora estão quietas; as roupas que seu corpo esquentava, simplesmente por vesti-las ao acordar, já se esfarinharam. Sim, talvez ela esteja chorando o corpo perdido, o reflexo perdido, o calor perdido, o sentido perdido.

Ou talvez, numa interpretação mais orientalista, essa casa possa ser lida como um símbolo ainda menos complexo. Quem sabe a casa simbolize o próprio organismo da senhorinha que sonha: a casa pequena e distante, a filha pequena e distante. Há um claro paralelo. Sua mãe, se assim fosse, estaria lá, dentro dela, numa inversão da gestação que primeiro as uniu, como uma hóspede importuna e incomodada, chorando e querendo sair, libertar-se do papel de mãe, de mulher alegre e prestativa que a filha ainda lhe imputa, mesmo décadas depois de morta. Não, ela não é alegre, nunca foi, será que essa menina não vai entender nunca?

– Mas o que significa este sonho?

A senhora maior ouve a pergunta da senhora menor e, de pronto, já sabe a resposta. Não reluta um segundo antes de dizer, convicta: Sua mãe está te chamando, ela precisa de você. E a senhora pequena concorda, um tanto amedrontada, sim, só pode ser isso, ela está me chamando, precisa de mim.

Afastam-se e perco a continuação da conversa. Me abstenho de inventar suas falas, só narro o que sei, aquilo de que tenho certeza, o que pode ser comprovado. O biguá olha para mim, ironicamente, como se soubesse que estou mentindo. Depois olha para o tanque seco à nossa frente e toma uma decisão. Bate as asas e vai embora. Não há mais nada para ele por aqui. Nem água nem profundeza. Apenas planície. Por isso voa em direção a outro lago, um lago onde mergulhar seu corpo negro, às margens de uma casinha distante, dentro da qual uma mãe chora de saudades, ou de raiva, da filha que ainda a procura.

 

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Luís Henrique Pellanda (45) é cronista, contista e músico paranaense, de Curitiba. Como jornalista foi editor em jornais locais. Participou do Rascunho, jornal literário, e do site de crônicas Vida Breve. Seu primeiro livro O macaco ornamental classificou-se em segundo lugar no Prêmio Clarice Lispector de 2010, categoria contos, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional. O livro Nós passaremos em branco foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura em 2012.

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