Ilana assume o MON

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Depois que aceitou o convite da governadora Cida Borghetti para se tornar diretora-presidente do Museu Oscar Niemeyer, Ilana Lerner acordou uma manhã e se perguntou se estava sonhando. Dias antes estivera no museu, que é parada frequente em suas caminhadas pela cidade. Era mais uma visita de tantas que a jornalista fez ao longo dos 16 anos do MON, inaugurado por seu pai no segundo mandato como governador do Paraná. Ilana acompanha as exposições, conhece o acervo e vibra com o sucesso do museu. Por isso a possibilidade de trabalhar naquele espaço nobre até o fim de 2018 lhe pareceu algo extraordinário e, ao mesmo tempo, natural. Como se fosse uma peça que se encaixava na sua vida porque sempre estivera lá, aguardando ser colocada no lugar a que estava destinada.

Ilana se descobriu admiradora de museus aos 14 anos, quando acompanhou o pai, Jaime (então no segundo mandato como prefeito de Curitiba), e a mãe, Fanny, em uma viagem ao exterior que incluiu visitas a vários museus.

A menina que na época se dedicava com empenho ao balé e via na dança o seu futuro passou a sonhar em trabalhar com museus e exposições. A ideia não vingou porque não havia curso de museologia no Paraná e, obrigada a dar um rumo aos estudos, ingressou no curso de jornalismo, que se tornou sua profissão.

Sua trajetória foi tangenciando as artes enquanto trabalhava com comunicação (participou da divulgação das três primeiras edições do Festival de Teatro de Curitiba) e colaborava com as atividades da comunidade israelita. Nos últimos dez anos, voltou para a casa projetada pelo pai e onde cresceu, na rua Bom Jesus, no Cabral, transformada em escritório de arquitetura e sede do Instituto Jaime Lerner.

Em seu antigo quarto de menina, agora um escritório, ocupou-se em catalogar a memória das atividades do pai como urbanista, arquiteto e administrador público, o que deu origem a arquivos, uma biblioteca e à catalogação dos quadros colecionados pelo casal Lerner ao longo dos anos. A tarefa foi encampada por Ilana por convicção. “Não é questão de cultuar a figura do meu pai e sim de documentar um período importante, que precisa ser preservado”, diz. O próprio Jaime Lerner não tem essa preocupação. “Ele diz que não gosta de olhar para trás”, conta Ilana. Ela gosta e se assume com “alma velha”, que viaja no passado e ama história.

Registrar a história, aliás, é um dos papéis que vê na arte. “Com emoção, com beleza, a arte faz um retrato não oficial do momento que o artista está vivendo. Não é o vencedor nem o vencido que está falando. É a visão do indivíduo mergulhado no contexto maior.” Em relação ao MON, ela própria é testemunha ocular de seu nascimento. Recorda-se do contentamento de Niemeyer em ver nascer o museu e em sua resistência em batizá-lo com seu próprio nome (Lerner o inaugurou como Novo Museu e Roberto Requião o rebatizou de Museu Oscar Niemeyer).

Pouco antes de assumir a direção do MON, ela falou com a Ideias sobre arte, acervos e o que está por vir no espaço cultural mais popular do Paraná.

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Conforme trabalhava com os materiais do acervo de seu pai, você reconheceu fatos que viu acontecer?

Meu pai foi prefeito até eu ter 24 anos entre idas e vindas. Então durante metade da minha vida eu o acompanhei como prefeito e depois como governador. Na época da prefeitura, tudo era muito próximo já que a gente vive na cidade, circulando por ela, sentindo as mudanças. Sempre digo que tenho uma relação de irmã com Curitiba. Ela estava conosco no café, no almoço, no jantar. Tenho muitos ciúmes de Curitiba. Cada casa que é derrubada me deixa doente.

 

Você acompanhou o surgimento do MON?

Quando meu pai era governador, eu não acompanhava tão de perto porque tinha filhos pequenos (ela é mãe de Ben, de 18 anos, e Liana, de 16). Mas meu pai sempre dividiu muito com a família e por isso a gente acompanhava os projetos. Quando começou a obra, o Ben tinha três aninhos. Eu tenho uma foto dele, de capacete e com uma pá na mão no canteiro de obras do MON.

 

Você diz que um dia sonhou em trabalhar com museus. Como foi isso?

Os museus que meus pais me levaram para conhecer quando eu tinha 14 anos eram muito diferentes do que eu estava acostumada a ver no Brasil. Fiquei encantada porque eram interativos, bonitos e não eram só museu de artes, mas expunham outros objetos, registravam a vida das cidades, das pessoas. Quando voltei, pensei: é isso que quero fazer na vida. Infelizmente na época não tinha condições.

 

O encantamento sobreviveu ao tempo?

Espaços assim são algo a que eu sempre recorro, sempre volto, procuro quando viajo. Às vezes o museu é algo que existe para as pessoas quando elas viajam. Mas não para mim. Eu uso a cidade intensamente e isso inclui muitas idas ao MON ao longo do ano.

 

O MON tem essa particularidade de ter conseguido que uma parcela dos curitibanos não fique na primeira visita, mas volte lá com frequência, não é?

Acho que o MON criou uma cultura que não existia aqui. Ele é muito vivo. Tem uma dimensão grandiosa que trouxe uma autoestima cultural para a cidade, que pensa “Opa! Nós temos isto aqui, vamos usar.” A renovação permanente que ele traz, com megaexposições que nós não estávamos acostumados a ver, gera essa movimentação.

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Será que o MON consegue levar esse público que ele familiariza com o espaço museológico a visitar outros museus da cidade?

É uma reação em cadeia. É como tomar vinho: a pessoa que começa a tomar estranha o sabor, mas vai testando outras uvas, vai começando a gostar. Acredito que um museu forte fortalece os outros museus.

 

Curitiba poderia ter um museu de fotografia, que sempre foi uma forma de expressão forte na cidade, com uma tradição de bons profissionais, não acha?

Eu acho que a fotografia é algo que pode ser bem explorada por museus. Aliás, toda vez que fui ao MON havia uma exposição de fotografias. Quando ele nasceu, tinha três pilares: artes visuais, design e arquitetura. Curitiba tem profissionais com acervos espetaculares de arquitetura e design, que também são campos com afinidade com a cidade e que podem ser explorados.

 

Você vai para o MON com um período curto para trabalhar. Como está encarando isso?

Tenho que ser rápida, tenho que pensar em coisas simples. O plano de trabalho até o fim do ano está pronto.

 

Você tem um compromisso de continuidade com a administração que está substituindo?

Não vou entrar chutando a porta, não é da minha personalidade. Tenho respeito pelo trabalho que vinha sendo feito. É claro que tenho a minha bagagem, mas chego lá tendo mais para aprender do que para dar.

 

Mas você quer deixar uma marca…

Sou uma pessoa muito prática, então acredito que posso enxergar melhorias que ajudem quem visita o museu, quem expõe lá. Projetos pequenos que possam ser colocados em prática este ano ainda.

 

Qual seria a área dentro do museu mais próxima dessa sua bagagem?

Tenho muito interesse na área de educação. Se tiver condições de dar uma visão minha, eu colocaria a educação como a minha meta. Eu me refiro não só à educação de crianças, que já é feita, mas de qualquer visitante que não tem familiaridade com a arte. Quem não tem essa familiaridade vê uma exposição de uma forma que não é diferente de como uma criança vê um texto no papel, superficialmente. A arte tem capacidade de atingir as pessoas mais rapidamente que outras formas de expressão porque trabalha a emoção. A arte te faz uma pessoa melhor.

 

É um apelo mais direto, via emoção?

Às vezes a arte faz uma provocação, desperta um interesse que a própria pessoa não consegue explicar de imediato. Quando você vê um quadro, por exemplo, só capta imediatamente uma parte da informação que está ali. Há vários níveis de leitura possíveis, que vão se abrindo quando temos a provocação ou alguma orientação para desvendá-lo.

 

O MON faz uma boa exploração do acervo.

Sim, fazer uma exposição relevante, de peso, é muito caro. Então são esporádicos os momentos em que se consegue o patrocínio para uma grande exposição. Daí a importância de se explorar esse acervo. São possíveis vários olhares sobre ele.

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O museu alcançou uma projeção nacional a princípio pelo próprio edifício. Depois veio a Lava Jato, que revelou ao resto do Brasil a capacidade técnica da equipe.

Exatamente, o museu tem um corpo técnico de primeira linha, reconhecido fora daqui. E o investimento que o estado faz mantendo esta equipe é recompensado porque os paranaenses visitam as exposições. Veja, a arte e a cultura são tão subestimadas no Brasil e ao mesmo tempo elas podem ter um papel importante para levar esse país para frente. Só a educação formal, que é importantíssima, não vai transformar o país. A arte toca as emoções e é isso que muda as pessoas. Eu acho que você é um médico melhor, um engenheiro melhor, um professor melhor se você tiver contato com uma expressão artística.

 

Você considera que teve uma formação visual, uma sensibilização dentro de casa?

Nossa família toda consumiu arte de uma forma ou de outra desde sempre. Eu me dediquei muito ao balé, todos nós somos ligados em cinema. Mas nunca foi uma coisa forçada nem enciclopédica. Foi natural.

 

Passado o susto, você está animada?

Estou animada. Tenho que sentir o ritmo das pessoas que estão lá. Não quero ser mais uma. Quero ter o prazer de saber que as pessoas dizem “que bom que ela veio”.

 

Fotos: Marcelo Elias

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