Russos na terra dos pinheirais

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O fim da União Soviética decretou o fim da vida na Rússia para o casal Igor Pisnitchenko e Tatiana Tarassova. A instabilidade socioeconômica e a incerteza do que estava por vir somaram-se às dificuldades de receberem seus próprios salários. Mesmo tendo no currículo atuações no Instituto de Física Atmosférica da Academia Russa de Ciências, os pesquisadores da área climática enfrentavam dificuldades em Moscou.

Começaram a disparar currículos buscando empregos nas mais diversas regiões do mundo. Recebiam propostas para trabalhos temporários de seis meses. Até que, em 1994, o Brasil surgiu na vida de Igor e Tatiana. Era a possibilidade de trabalhar por quatro anos no Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTec) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Aí a gente sentiu que a segurança era maior”, conta Tatiana. Lá realizaram pesquisas e contribuíram com o desenvolvimento de novas técnicas e métodos para o Instituto, nas cidades do Rio de Janeiro e em São Paulo.

Antes, porém, enfrentaram um total de 24 horas de voo – somando as escalas realizadas – e se depararam com uma língua totalmente diferente. “A gente se comunicava no trabalho em inglês. Na rua, a gente se virava com gestos e o pouco do português que fomos aprendendo”, conta Igor.

Em 1997, por falta de financiamento no CPTec, Igor mudou-se para Curitiba. Tatiana permaneceu no instituto. Uma proposta para atuar como pesquisador visitante na Universidade Federal do Paraná atraiu Igor para a capital do Paraná. Dois anos depois, ele já desenvolvia trabalhos para o Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar).

No entanto, a experiência na capital dos pinherais não durou muito. Igor voltou a atuar no Inpe ao lado da esposa de 2003 a 2008, regressando de mala e cuia para Curitiba em 2009. Atualmente Igor e Tatiana coordenam o Grupo de Pesquisa em Física de Atmosfera e Clima.

Tatiana e Igor representam a última onda imigratória russa registrada no Brasil e no Paraná, que teve início justamente com o fim da União Soviética, decretado em dezembro de 1991. Esta leva migratória, segundo o pesquisador Igor Chnee, é marcada justamente pela vinda de especialistas em diversas áreas de conhecimento que conseguiram visto permanente do governo brasileiro. Estima-se que nesse período cerca de dois mil imigrantes russos desembarcaram no país.

Tatiana Tarassova, Igor Pisnitchenko e Dmitri Lobkov

Tatiana Tarassova, Igor Pisnitchenko e Dmitri Lobkov

Igor e Tatiana são exemplos mais contemporâneos de um processo imigratório que já tem mais de um século. De acordo com Anastassia Bytsenko, autora de uma tese de doutorado que aborda o tema, os primeiros imigrantes provenientes da Rússia começaram a chegar ao Brasil no início da década de 1870. “Eram, em sua maioria, camponeses muito pobres, que decidiam emigrar por motivos econômicos e políticos”, afirma.

Porém, “os propriamente russos eram uma parcela pequena em comparação com os outros imigrantes, preponderantemente poloneses, ucranianos, integrantes dos povos bálticos, alemães, judeus e pessoas oriundas de outros grupos étnicos do Império”, ressalta Anastassia, que aponta que havia 180 diferentes povos em território russo na época.

Dentro do século XIX, a pesquisadora ressalta que o período em que houve maior registro de imigração russa para o Brasil foi entre os anos 1887 e 1898.

Primeira grande onda

Após essa chegada tímida dos russos em solo brasileiro, um primeiro grande pico imigratório russo começou a ser registrado em 1905, seguindo até meados de 1914. “A necessidade de reformas socioeconômicas e políticas era tão grande e a vontade de realizá-las, por parte do governo, tão pequena que, em 1905, essa tensão culminou na primeira revolução”, explica Anastassia.

Era a primeira revolução que tentava derrubar o czarismo russo. Em janeiro daquele ano, teve início a greve dos trabalhadores da fábrica metalúrgica de Putílov, em São Petersburgo, com cerca de 150 mil participantes. Os trabalhadores, segundo a pesquisadora, exigiam o estabelecimento do salário mínimo e da jornada de trabalho de oito horas.

No domingo de 9 de janeiro de 1905, liderados pelo padre Gregório Gapon, 140 mil trabalhadores e suas famílias foram em direção ao Palácio de Inverno, residência do Imperador. “Todas essas pessoas, que carregavam imagens de santos e do Imperador, foram atacadas pelo exército. Como resultado, 96 pessoas foram mortas e 333 feridas”, afirma a pesquisadora. O fatídico dia entrou para os livros de História como “Domingo Sangrento”.

A situação calamitosa que tomava conta da Rússia fez com que muitos emigrassem de sua terra natal. Alguns desses refugiados escolheram o sul do Brasil e fundaram, no estado do Rio Grande do Sul, uma povoação chamada Campina das Missões. “Uma parcela, não se sabe a quantidade, subiu para a região do sul do Paraná”, conta Dmitri Lobkov, coordenador da Casa Russa do Paraná. Essa onda migratória marca o início da chegada dos russos ao estado. Em Curitiba, segundo ele, as primeiras famílias começaram a chegar no ano de 1912.

“A emigração da Rússia para o Brasil foi direcionada principalmente aos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e à Região Sudeste”, revela a pesquisadora Anastassia. No final do século XIX e começo do XX, esses imigrantes ajudaram a suprir a falta de mão de obra nos centros industriais, em regiões de construção de ferrovias e principalmente na lavoura. “Esses pontos altos da imigração no Brasil correspondem também ao grande desenvolvimento da cultura cafeeira”, completa.

Pós-Revolução e outras ondas

Após a Revolução de 1917, que instituiu o regime comunista na Rússia, ocorreu a segunda onda da imigração para o Brasil – especialmente entre os anos de 1920 e 1939. Isso porque a Guerra Civil assolou o país. Após as revoluções de fevereiro e outubro de 1917 e a tomada de poder pelos bolcheviques, houve um acirramento de batalhas entre os exércitos branco (a favor do Império) e vermelho (bolcheviques). Entre 4,5 e 10 milhões de russos, segundo as estimativas, morreram.

Não foram poucos os que desistiram de tentar sobreviver em meio ao sangue derramado em terras russas. De acordo com os dados da Liga das Nações, o total dos refugiados, na sua maioria da elite política, econômica e cultural do país, em cinco anos após a Revolução, foi de 1,2 milhão de pessoas. Todavia, pesquisadores estimam que esse número pode chegar a 2,5 milhões de pessoas. Muitos possuíam cursos superiores e contribuíram para o desenvolvimento, por exemplo, da arquitetura e da engenharia. “Muitos chegaram ao Paraná e desempenharam papel importante nessas áreas”, ressalta Dmitri.

Tatiana Tarassova e Igor Pisnitchenko

Tatiana Tarassova e Igor Pisnitchenko

Já com o fim da Segunda Guerra Mundial, muitos russos também desistiram de reconstruir suas vidas no país natal e tentaram a vida em terras brasileiras. A devastação da Europa tornava o cenário desanimador e desesperador. De acordo com dados do Memorial do Imigrante de São Paulo, de 1870 a 1953, vieram para o Brasil 118.600 imigrantes provenientes do Império Russo e, posteriormente, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

O fim do regime socialista deu origem à quarta e última leva de imigração russa. “A imigração russa trouxe muitos profissionais do ramo da construção civil, da química, da literatura e da ciência, que contribuíram para o desenvolvimento do estado e do Brasil”, assinala Dmitri.

 

Avô anarquista, bisavô militar

Bisavo de Dmitri, general do exército do governo

Bisavô de Dmitri, general do exército do governo

Tataraneto da princesa imperial Ana Volkonsky, Dmitri Lobkov saiu da Rússia em 1989. O colapso da União Soviética diante dos Estados Unidos na Guerra Fria era questão de tempo. Dmitri rumou para a Argentina, onde se casou. Sua esposa foi para Campinas fazer doutorado em 2003 e, posteriormente, veio lecionar em Curitiba em 2007. Dmitri seguiu a companheira e, desde então, se considera um paranaense de coração.

Coração esse que quase parou durante a Guerra do Afeganistão (1979-1989), que teve o envolvimento

Dmitri Lobkov

Dmitri Lobkov

militar do exército soviético. Ex-oficial militar russo, Dmitri sofreu um disparo de um franco atirador. O tiro atingiu a região das costelas. A dor foi intensa. O sangue jorrava. “Na hora peguei uma injeção com remédio para dor e eu mesmo me apliquei”, conta. Caiu ao chão. Só foi salvo porque, ao chegar à pista de pouso e decolagem, um avião estava de partida para a Rússia. “Fui levado às pressas para o hospital”, narra.

 

A família de Dmitri tem um pé na guerra. Todos os membros masculinos da família serviram ao exército russo. Seu bisavô, durante a Guerra Civil Russa, estava do lado das forças oficiais. Era general do Exército. Já seu avô era anarquista e combatia as tropas do próprio pai durante as batalhas. Posteriormente, o avô serviu ao Exército e acabou morto durante a Segunda Guerra Mundial.

MaksimLobkov,anarquista com revolver no chão, avô de Dmitri

Maksim Lobkov,anar-quista com revolver no chão, avô de Dmitri

Talvez seja essa história ambígua que tenha motivado Dmitri a criticar algumas ações do governo comunista. Acabou saindo do Exército e foi transferido, em 1986, para o Ministério dos Transportes. Nesse mesmo ano, o acidente da usina nuclear de Chernobyl assombrou o mundo. E foi Dmitri um dos responsáveis por coordenar a evacuação da região contaminada para salvar o maior número de pessoas.

Saiu da Rússia com a sensação de dever cumprindo e magoado pelo rumo que a União Soviética tomou.
“As elites traíram a sociedade”, afirma.

 

A cultura russa preservada
Os descendentes de imigrantes russos procuram manter vivos alguns traços da sua cultura. Dança, música, idioma e alfabeto cirílico costumam ser ensinados de geração em geração. “Se bem que nem todos os jovens acabam se interessando por tudo. Mas procuramos fazer nossa parte”, pondera o imigrante Igor Pisnitchenko.
russos_box2Outra marca da cultura russa é a religião ortodoxa – originada no Cisma do ano de 1054. Diferentemente da religião católica, adota o calendário juliano, que acumula uma diferença de 13 dias com o calendário gregoriano. Os ritos religiosos também são diferentes dos católicos e ainda não reconhecem a autoridade do Papa.
“Procuramos manter o que podemos da nossa cultura, mas também procuramos nos incorporar à sociedade brasileira”, conta Igor.

Colônia isolada nos campos gerais
Os russos que vivem na colônia Santa Cruz, em Ponta Grossa, na Região dos Campos Gerais, preservam costumes e culturas que remontam ao século XVII. Procuram se manter isolados boa parte do tempo e não são muito adeptos a visitas de “estrangeiros”.
Os pioneiros dos imigrantes que deram origem à colônia nasceram na Rússia e fugiram durante a Revolução Russa (1917) para o território chinês, onde permaneceram por aproximadamente 25 anos. Procuravam conservar seus costumes milenares, desde os tempos de Bizâncio e da Antiga Rússia Czarista.
russos_box3_1Entretanto, durante a Revolução da China, em 1949, eles se sentiram amedrontados e inseguros com a possibilidade de MaoTséTung assumir o poder. Os imigrantes russos passaram a fugir para Hong Kong, onde alguns conseguiram asilo político. Outros conseguiram fugir para as Filipinas e, daí, para os Estados Unidos e o Canadá.
Alegando perseguições do exército chinês, os remanescentes russos em terras asiáticas pediram para que a Organização das Nações Unidas desse uma força. Por meio de uma intercessão da ONU, cerca de 100 russos conseguiriam entrar em acordo com o governo brasileiro e passaram a morar nos Campos Gerais a partir do mês de julho de 1958.
Hoje os descendentes desses imigrantes habitam a colônia denominada Fazenda Santa Cruz, localizada no distrito de Guaragi, no sul do município de Ponta Grossa, na PR 151.
russos_box3_2Os moradores da localidade mantêm hábitos fortemente influenciados pela religião ortodoxa antiga. Trata-se de uma comunidade, como salienta Altiva PilattiBalhana, que se recusou a aceitar as reformas da Igreja Ortodoxa Russa no século XVII. São conhecidos na Rússia como “staroveri”, que, literalmente, significa “velhos crentes”.
No dia a dia da colônia Santa Cruz, o morador geralmente traja as vestimentas típicas da comunidade. Para o homem, calça social, camisa colorida e um cinto de pano na cintura para separar seus “dois corpos”. E a mulher também estará com seu avivado vestido e os loiros cabelos cobertos com o lenço. Na teoria, todo meio de comunicação de massa é proibido pela religião. Embora muitos moradores mantenham alguma televisão “escondida” em algum quarto da casa.

Curiosidades 

Russos no Brasil
Um grupo de 1,8 milhão de descendentes de imigrantes e refugiados russos, segundo estimativas levantadas pela BBC Brasil, vive hoje no Brasil. Os estados que concentram o maior número de filhos, netos e bisnetos de russos são Rio Grande do Sul, São Paulo, Goiás e Paraná, seguidos de Rio de Janeiro, Santa Catarina e Pernambuco.

Os alemães da Rússia
Dentro dessa primeira leva de imigrantes russos que chegaram ao Brasil, datado de 1870, há poucos russos, especificamente falando, como salienta a pesquisadora Anastassia Bytsenko. Grande parte correspondia a povos de diferentes etnias que habitavam o território da Rússia. Entre 1877 e 1878, por exemplo, chegaram apenas a Ponta Grossa cerca de 2,4 mil “russos-alemães” – isto é, alemães que viviam na Rússia. Os imigrantes passaram a residir em colônias nas cidades de Ponta Grossa e também de Palmeira e Lapa.

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