Cinema clandestino

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Após 1964, e enquanto durou o regime militar, para qualquer filme, documentário, trailer, era obrigatório o certificado de censura, que, além do documento em papel, tinha que ser projetado antes de cada apresentação, seja em cinemas, clubes ou qualquer exibição pública. Era emitido pelo “Serviço de Censura e Diversões Públicas”, departamento da Polícia Federal. Além da classificação por faixa etária, tinham um prazo de validade, normalmente cinco anos. Depois disso, o filme tinha que ser retirado de circulação e destruído, a não ser que a distribuidora renovasse o certificado, o que era raro, pois a cópia já estaria em péssimas condições e, normalmente, o filme já teria perdido seu valor comercial. Alguns cinemas promoviam exibições de filmes famosos, como “última oportunidade de ver a obra”. O fiscal da distribuidora do filme, para garantir a inutilização da cópia, dava uma machadada em cada rolo de película. Esse material era vendido a fábricas de vassouras e escovas onde, quimicamente decomposto,  virava as cerdas.

Foto de um certificado de censura. Note-se a data da emissão e da validade.

Foto de um certificado de censura. Note-se a data da emissão e da validade.

Mesmo depois da censura militar, quando se promoviam estreias simultâneas em diversos cinemas do Brasil (às vezes chegavam a quatrocentas cópias), o que fazer com tanto material sem valor comercial? Preservavam-se algumas e o restante ia para as fábricas de vassouras. O Fábio Campana ou o Dico Kremer já podem ter tido suas residências varridas com um Fellini, um Kurosawa, ou seus sofás e tapetes escovados com algum Arthur Penn ou Bergman. Hoje, com o cinema digital, os filmes vêm em HDs, que podem ser apagados e regravados.

Em meados de 1970, o crítico e amigo Estevão Harbach abriu uma empresa de aluguel e revenda de equipamentos cinematográficos, a Cinearte, tendo como clientes empresas, eventos, colégios, reuniões, aniversários. Chegou a distribuir alguns poucos filmes, principalmente direcionados a seus clientes, também alugando de grandes distribuidoras. Para suas atividades comerciais e moradia, alugava enormes casas, e a sala principal virava uma ótima sala de projeção, onde se projetavam filmes fora do circuito, documentários, tudo sem programação prévia, normalmente à noite, para amigos que apareciam ‒ tudo, claro, conforme seu gosto pessoal. Nunca vi projeções de filmes pornôs. Com o pai como cônsul da Áustria, ele tinha acesso a filmes de outros consulados que existiam em Curitiba e que nunca passariam nos cinemas comerciais, pois não tinham o tal certificado. Um dos famosos endereços da Cinearte foi no Alto da Glória, ficando conhecida como “A mansão”. Normalmente eu operava e, conforme o caso, mantinha os projetores 16 mm, que era a bitola principal com que a Cinearte trabalhava. Por lá apareciam o Lélio Soto Maior Júnior, o Fernando A. F. Bini e a Celine, a Vânia Mercer, o João Ney Macedo e outros, num ambiente maravilhoso de conversas com a casa sempre aberta, um cineclube informal.

jensen_2_machadoCom os contatos que o Estevão estabeleceu para sua empresa, acabou encontrando na então chamada “boca” em São Paulo, na rua do Triunfo, onde se concentravam as distribuidoras e as fornecedoras de materiais para cinemas, uma rede de pessoas que subornavam alguns fiscais destas distribuidoras (fiscal também é para isso), interceptando as cópias agora sem certificado e que não poderiam mais ser usadas. Numa das vezes que o acompanhei a São Paulo, fiquei pasmo ao conhecer um colecionador, que, num galpão nos fundos da residência, acomodava enorme quantidade de rolos de película, salvos dos machados e das fábricas de vassouras. Aí começavam as negociações de compra, pelo valor da obra ou pelo estado da cópia. Por sorte o Estevão chegou a comprar obras-primas que não interessavam ao colecionador, como, por exemplo, “No tempo das diligências” (Stagecoach, 1939) produção clássica dirigida por John Ford, com John Wayne e Claire Travor, que talvez ele tivesse em duplicata, pois era louco por faroestes. Depois do afrouxamento da censura, esta cópia foi exibida pelo Aramis Millarch no Teatro Paiol lotado.

jensen_3_collectorsPara trazer os filmes de São Paulo, colocávamos os rolos em meio a roupas no porta-malas do carro e, à noite, pegávamos a Regis Bittencourt para Curitiba, rezando a cada vez que passávamos por um posto fiscal para não sermos parados e provavelmente presos. Depois eu revisava estas cópias, emendava as arrebentadas, remontava-as algumas vezes para mais umas noitadas de cinema na “mansão”. Um filme que passamos diversas vezes foi “Sonhos dourados” (TheJolsonStory, 1946). A produção da Columbia em cores era a biografia musical idealizada de AlJolson, interpretada e dublada por LarryParks e dirigida por Alfred E. Green. O “salvamento” de filmes nos colocava como intrépidos burladores da ditadura vigente, dando um gosto especial às sessões clandestinas. O Estevão tornou-se um colecionador de filmes em película. Hoje mora nos Estados Unidos e tem uma coleção enorme em formato digital, formando a “FilmCollector’sSocietyofAmerica”.

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