Como se constrói uma homenagem

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Dar mostras de admiração e respeito por uma pessoa, por seu trabalho, por seus feitos é coisa que vai além, muito além, de rasgar alguns elogios e respirar com a satisfação do dever que se cumpriu – que vira e mexe tem objetivo mais de ter reconhecimento próprio pela ‘generosidade’ dispensada do que falar do outro exatamente.

Os caminhos que o ser humano percorre nessa luta entre o que vai na estampa e o que acontece no avesso é confuso e sempre é preciso estar atento e forte para não se deixar engambelar por superficialidades.

A coluna deste mês abre espaço para a homenagem. Uma homenagem à homenagem.

Foto por Adriana Sydor

Foto por Adriana Sydor

Silvio de Tarso (1951-2013) tratou de futebol, de jornalismo, de música, de comunicação ‒ no rádio e na TV. Revelava, aos poucos e para poucos, suas inclinações para o fazer poético. Ao mundo contava sem economia sua admiração e deixava que escapasse, sem presunções, o vasto conhecimento.

Para nossa sorte ele viveu no signo da poesia. Primeiro como leitor, até que encheu a bagagem com versos e pensamentos para traduzir em suas próprias estrofes as coisas do amor e da vida.

Ouvinte atento, sensibilidade à flor da pele, um milhão de leituras, era natural que a lira encontrasse seus textos. Mas isso só foi acontecer na reta final de sua estrada e de forma livre, sem métodos de organização ou intenções de publicação. Foi embora desse mundo e sua produção tardia poderia ter se perdido no tempo, sem entrar na história, sem fazer parte deste imenso leque que define o que há de diferente na nossa qualidade de humanos: a arte.

Para sorte do Silvinho, e nossa, ele teve a Luciana Monteiro como amiga. Amiga de verdade, dessas que é contada num dos dedos da mão de todo mundo que caracteriza assim o número dos chapas genuínos na vida.

Foto por Elis Ribeirete

Foto por Elis Ribeirete

Há mais de duas décadas, Luciana desembarcou em Curitiba. Não sabia direito o que ia fazer, não conhecia a cidade e pouco sabia de suas gentes de natureza tão diferente das que trazia na memória de sua Minas Gerais.

Lojas de disco, livrarias, cafés, aulas de violão, banda pop, mapa astral, produção de eventos, programação de rádio, coordenação de rádio. Sempre com poucos recursos, aprendeu a tirar leite de pedra para dar vida, luz e agenda às causas que considera relevantes para a cidade.

Quando Silvio saiu de cena, a Lu tratou de colocar em marcha um plano que tinha dois pontos bem claros: não deixar que sua produção se acomodasse nas lembranças dos mais próximos e celebrar o convívio com o amigo de cafés, caronas, trabalhos, conversas e confissões. Lu quis fazer homenagem.

Poucos sabem da trabalheira que é uma produção dessas. Encontrar materiais, reuni-los, selecioná-los, autorizações, grana, arranjos, músicos, cantores, fotografias, encartes, cores. Mais de sessenta profissionais sob a batuta dessa maestrina que prefere sempre, sempre, sempre estar atrás das cortinas. Dor de cabeça pra chuchu.

Lu fez um estica e puxa como poucos produtores conseguiriam. Respirou fundo, arregaçou as mangas e mergulhou no trabalho. Cada desafio vencido era lapidação para encontrar nova encrenca. Mas também para descobrir novo encantamento que conversava direitinho com suas motivações.

Capa: Divulgação

Capa: Divulgação

Resultado? O CD “Intenso Limite – Canções e Parcerias de Silvio de Tarso”, onze faixas que abrem uma nova janela para dar uma espiadinha neste homem tão cheio de talentos. E como se não bastasse o disco, registro perene das surpresas que Silvinho deixou, Lu foi além e combinou com Davi Sartori, um dos melhores do piano e dos arranjos, chamou intérpretes, reuniu a turma e fez show de lançamento no mês passado. E que show, queridos leitores, que show! Noite cravejada de emoções, que contou com o empréstimo de grandes nomes da cidade para tirar o ar da plateia.

Foto por Raineldes Campiolo

Foto por Raineldes Campiolo

É por conta desse tipo de acontecimento que ainda dá para ter fé na humanidade. Conhecer gente que se ocupa em iluminar a estrada alheia, mesmo que para isso tenha que ficar na escuridão para segurar a lanterna, dá um sopro de otimismo ou, como disse o próprio Silvio, “um dia / quando menos se espera / adormece essa fera e o sol volta a brilhar”.

Um postscriptum necessário. Sei que todo mundo que suou a camisa para que cada pedaço dessa surpreendente página da história fosse aberta ao público merece reconhecimento e agradecimento. Mas foi o amor da Lu, pelo Silvio e pela arte, que proporcionou tudo isso.

E a ela, hoje e sempre, rendo minhas homenagens.

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