A fina-flor da MPB

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O dicionário explica: esvoaçar é bater asas para alçar voo, é elevar-se em voo, é flutuar. Até hoje não conheci nome mais apropriado para um álbum:

“Esvoaça”, de Suzie Franco.

Ferreira Gullar uma vez disse que quando Nara Leão cantava parecia um pássaro, mas não um pássaro cantando. Nara, para Gullar, parecia um pássaro voando.

É isso que Suzie é: um pássaro voando. Um daqueles que conhece os ventos, as correntes, as mudanças, as nuances, e esvoaça por aí.

adriana_suzie_fotoEsta é a primeira vez que Suzie Franco aparece assim, vestida de estrela mais brilhante num céu em que pipocam várias grandezas. É seu primeiro trabalho solo. Pensei muito nisso durante bom tempo: por que cargas d’água essa cantora que deveria estar ao alcance de todos ainda não tinha disco próprio?

As tentativas de resposta caminhavam desde a dificuldade financeira em compor um trabalho tão delicado até o tempo para fazê-lo – é necessário se desligar de várias obrigações para a dedicação. Mas nada disso fazia sentido para mim. Os empecilhos prosaicos não pontuam nessa conta, embora façam parte da vida prática e acabem atrapalhando as almas mais delicadas.

Vi, amém!, Suzie cantar ao vivo muitas vezes. E minha resposta chegou justamente a pensar nisso. Uma voz poderosa e comovente, afinadíssima, que arranca arrepios e corta a respiração de quem está na sua frente; aqueles olhos expressivos que dizem sem falar; os gestos sutis e ao mesmo tempo com tanta vivacidade; o assombro de cada vez que seu corpo se move tranquilo a acompanhar a melodia; e o sorriso que suspira ao final de cada música… Como transformar tudo isso num CD? De que forma fazer que este poderoso arsenal fique trancado no disco e mesmo assim se liberte quando ele girar nervoso no prato?

Não seria justo se Suzie, Suzie inteira, não estivesse ali, exposta, à vista, fazendo com que cada um que a ouvisse pudesse mergulhar em todas as emoções, nas próprias e nas dela. Resolvi que foi por isso que este disco demorou tanto para chegar. Esforços de várias ordens foram necessários para que “Esvoaça” pudesse nascer.

Tenho dificuldades para escrever este texto, porque não quero enchê-lo de adjetivos e ficar linha a linha buscando sinônimos para todas as perfeições deste disco que é, ao mesmo tempo, estreia e consagração. Puxo fôlego e torço para dar certo. Vamos tratar por partes.

Se fosse o caso de comprar um disco pela estampa, o lance estaria garantido. Miguel Franco, o Mig, filho de Suzie, se encarregou do projeto gráfico, que é lindo como a cor lilás, como azulejos portugueses, como fotos de Kraw Penas, como tudo aquilo que harmoniza, integra e comunica de forma evidente, mas nem por isso sem intuição.

adriana_suzie_capaSe disco se compra pelo repertório, aqui também foi conseguida a pontuação máxima. Porque a coluna tem limites de caracteres, não falarei de Heitor Villa-Lobos, nem de Tom Jobim, nem de Chico, Caetano, IsoFischer ou Wisnik. Se eu tivesse que escolher única música para resumir o álbum, seria “Caravela”, composição de Egberto Gismonti com letra de Geraldo Carneiro. É biscoito fino, coisa séria, nenhum principiante em emoções ou música pode navegar por ali. E o que essa danada faz? Mergulha com tudo, sem olhar para trás e nem pensar quantas coisas provoca em quem ouve. Só “Caravela” vale o disco todo – que é lindo e não pode ser amputado por um comentário tão irresponsável como este.

Tudo bem, a estampa é bonita, o repertório é perfeito, mas isso tudo ainda foi carimbado com um time de músicos de primeira linha. A batuta de Vicente Ribeiro a conduzir arranjos e instrumentistas foi sensível, impecável e precisa. Ele sabe das coisas, olhou para a fina flor da cidade e chamou a ala que mais combina com toda a história. Lucas Franco, o outro filho, compôs uma música e desenhou um arranjo para o disco. Seria preciso mais tempo para falar desse rapaz que, óbvio, tem lugar garantido nas melhores páginas da MPB.

Música popular? Não! Música de concerto? Não! “Esvoaça” promove um delicioso encontro, sem rótulos e com muita leveza. Mas, sobretudo, reafirma este exercício de exposição constante que é ser cantora, que é primeiro comover-se e depois comover os outros, que é primeiro entender para depois explicar, que é respeitar o compositor para poder traduzi-lo.

Se o dicionário tem sinônimo para esvoaçar, o de cantora deveria ser Suzie Franco, pelo menos quando se fala da fina-flor de nossa música.

Foto: Kraw Penas

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