Anticlímax também é espetáculo

mazza

Um dos argumentos do ministro Gilmar Mendes para derrogar o Código de Processo Penal era o de que havia exagero nos rituais da condução coercitiva, atentado à dignidade da pessoa humana e, sobretudo, mais um elemento de espetacularização da justiça, questão que seguidamente invoca para criticar o fluxo da Lava Jato. Ninguém tem posição tão engajada nesse particular, à exceção, é claro, dos advogados criminalistas que até agora não se mostraram ajustados diante do furor das delações premiadas, nas quais alguns deles se engajaram hoje e com postura de especialistas como Antonio Augusto Figueiredo Basto.

A liminar concedida por Gilmar Mendes decorreu de ações movidas pela Ordem dos Advogados do Brasil e pelo Partido dos Trabalhadores, neste caso em função do alarido produzido por sua adoção no processo do ex-presidente Lula. De qualquer forma, a posição ministerial foi ao menos em parte reconhecida mesmo por aqueles ministros que votaram por sua manutenção, desde que sua decretação atenda requisitos que ainda terão de ser fixados, colocando novamente o Judiciário como legislador, o que vem se dando com frequência sem a reação devida do Legislativo e sem moral, tanto na Câmara como no Senado, no envolvimento de seus integrantes na prática endêmica da corrupção.

Impossível no Brasil de hoje tentar impedir a espetacularização diante de tanta revelação de tom escabroso. Como imaginar a corrida do Rocha Loures pelas ruas de São Paulo com a mala cheia de grana, cujo destinatário é um mistério, sem essa visão teatral? Junte-se aí o caso dos R$ 51 milhões do Geddel Vieira Lima num apartamento emprestado.A votação acirrada da matéria no colegiado do STF dá bem a medida da tensão experimentada pelo Brasil no íntimo das instituições, daí por que a resistência aos possíveis transbordamentos do ciclo punitivo e de capítulos como o da condução coercitiva impede o despojamento dos rituais já que atos obstrutivos se dão também como um anticlímax que não deixa de integrar o conjunto do espetáculo. Melhor isso do que a acomodação com a impunidade como regra.

Leia mais

Deixe uma resposta