Mignone – Neschling

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Francisco Mignone (1897-1986) nasceu em São Paulo e sua formação musical teve início com seu pai, flautista profissional. Estudou piano no conservatório, com mestres de origem italiana, já que, como escreveu Vasco Mariz, São Paulo (nesta época) era uma verdadeira extensão da Itália. Iniciou sua carreira na música popular sob o pseudônimo de Chico Bororó, conhecido por tocar nas rodas de choro. Em 1920 foi a Milão aperfeiçoar-se e lá escreveu sua primeira ópera: “O Contratador de Diamantes”, de onde saiu uma peça orquestral de sucesso, “Congada”, que estreou no Rio de Janeiro, sob a batuta de Richard Strauss. Ao regressar à terra natal em 1929, Mignone se depara com um forte movimento nacionalista. O principal marco de sua transição ao movimento é o balé “Maracatu de Chico Rei” (1933), em parceria com Mário de Andrade, explorando o filão da música negra, e que desenvolve em poemas sinfônicos, com seu ponto alto na suíte orquestral “Festa das Igrejas”. É um dos poucos compositores brasileiros do século XX a incorporar à sua música imagens da África, já que as referências indígenas formam um dos centros essenciais da obra de Villa-Lobos, por exemplo. Tem extensa obra vocal, pianística, orquestral, algumas gravadas por ele mesmo.

art_jensen_mignone_maracatuNas notas de programa do concerto em que a Osesp executou “O Maracatu de Chico Rei”, Rodolfo Coelho escreveu: “Apesar de as cenas se passarem nas Minas Gerais do período colonial, os materiais amalgamados no bailado são colhidos em diversas fontes. O próprio maracatu, que dá título ao balé, não é uma dança mineira, mas sim do nordeste brasileiro, assim como aparecem marujadas de Santa Catarina e outras danças paulistas”. Tudo em um evidente e admirável colorido à Respighi, com instrumentação e coro inspirados.

De 1940, “Festa das Igrejas” é considerada por alguns a mais bela obra de Mignone, uma sequência de impressões sinfônicas em quatro partes: São Francisco da Bahia, Rosário de Ouro Preto – Minas, O Outerinho da Glória – Rio de Janeiro, Nossa Senhora do Brasil – Aparecida. Esta peça foi gravada em 1946 por ninguém menos que ArturoToscanini, regendo a filarmônica de Nova York.

“A Sinfonia Tropical” tem um único movimento. Composta em 1958, possui eloquência sugestiva e paisagística amazônica e nordestina.

Nos anos 60, Mignone emprega a técnica dodecafônica, retornando ao sistema tonal em 70.

art_jensen_mignone_retratoEstas peças nos mostram um mestre fino da orquestração, em que o regente, os músicos, o coro, a acústica da sala e os engenheiros de gravação podem brilhar, e foi o que aconteceu com este registro de 2003, na Sala São Paulo. As gravações de música erudita feitas no Brasil são muito ruins, pois envolvem não só equipamentos e técnica apurada, mas também ouvidos educados e um mínimo de familiaridade com este tipo de música, principalmente grandes massas orquestrais. Por isso, John Neschling entrou em contato com o proprietário da gravadora sueca BIS, reconhecida como a maior das pequenas gravadoras e a menor das grandes, antes do desaparecimento da maioria delas. Precisava que a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo tivesse uma discografia importante internacionalmente, lançada e distribuída por uma companhia de relevo.

Este CD faz parte desta fase de ouro da Osesp, que o carioca John Neschling iniciou ao reestruturá-la em 1997, instalando-a na maravilhosa Sala São Paulo. O regente deixou a orquestra em 2009, como sempre neste país, por intrigas políticas. Pelo menos ficamos com uma discografia importante, premiada, principalmente de compositores brasileiros, tirados do baú, finalmente muito bem gravados e interpretados. No Brasil, a BIS é representada pela Biscoito Fino.

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