O Brasil e a religião

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Deus é brasileiro. Mas qual Deus? Segundo o último Censo do IBGE que apurou o assunto, trata-se do católico mesmo. Entretanto, ele anda meio na marcha a ré, encolhendo a participação no país.

Em 2010, data do documento completo mais recente, o Brasil continuava com o título de maior nação católica do mundo, mesmo tendo perdido em dez anos 12,2% de fiéis, cerca de 1,7 milhão de pessoas. Na outra ponta, a população evangélica subiu os degraus da fé e estampou crescimento significativo: passou de 15,4% em 2000 para 22,2% em 2010.

Os espíritas também aumentaram o percentual: pularam de 1,3% da população para 2%. Os adeptos da umbanda e do candomblé mantiveram-se em 0,3% em 2010. Sem religião, ainda segundo o documento, eram mais de 15 milhões.

É preciso esperar novo estudo para saber de forma mais precisa da situação do momento. Mas basta dar uma voltinha pelas cidades para entender que no Brasil nem tudo que parece, é.

Um exemplo: Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Pelourinho, Salvador, Bahia. A missa católica se adaptou à particularidade geossocial e leva para dentro da igreja aquele jeitão do candomblé. Os cânticos chegam acompanhados de percussão, palmas e danças. Há oferendas, pedidos de bênçãos. Há o afoxé presente e até o sermão do padre recorre a exemplos estranhíssimos ao catolicismo para mandar a mensagem. Várias culturas dão as mãos por um momento e nele, ali dentro pelo menos, todos são iguais. A senhorinha que mora no bairro, o turista francês a filmar tudo, as freiras que formam fila cinza nos primeiros bancos, a mãe de santo que ouve tudo coberta de guias e de olhos fechados. Todos iguaizinhos, porque todos querem coisas muito parecidas, porque todos são humanos, porque são todos, e cada um, um elo dessa corrente universal. Bonito, né? É uma exceção na dura vida religiosa que mantém a raiz forte de condenar os diferentes…

No Brasil as religiões, principalmente as duas maiores concorrentes, são exércitos inimigos que disputam cada soldado com tática conhecida há muito: o poder da comunicação.

Na década de 1970, 91,7% da população se dizia católica; 40 anos depois, o percentual caiu para 64,6%. Os evangélicos aumentaram o número de 5,2% para 22,2%, como já foi dito. O que isso significa? A Igreja Católica relaxou, abriu a guarda, perdeu terreno e enquanto se movimentava lentamente, carregando todo o peso burocrático do Vaticano, a Evangélica, camaleônica e atenta aos espaços, foi tratando de adaptar o discurso, abrir as portas e conquistar fiéis.

Muitos são os motivos para as transformações, não cabem aqui, mas algumas coisas rapidamente são identificáveis, como, por exemplo, o crescimento populacional e a carência de paróquias periféricas onde se concentrou grande parte das pessoas que migraram do interior para a cidade. Enquanto a Igreja Católica precisava de recursos imensos para prédios, sinos, padres, autorizações e muitos eteceteras, a Evangélica abria portinhas com cadeiras de plástico e pastor que falava palavras compreensíveis, de fácil entendimento.

Há também um fator político importante. Na década de 1970, a Igreja Católica, que havia apoiado maciçamente o regime militar, mudou a postura e virou oposição. A grande sustentação do regime dentro da atmosfera filosófica das famílias perdeu força. O general Golbery do Couto e Silva, homem da Casa Civil de Geisel, colocou em prática um plano que dá frutos até hoje: abriu as portas do país, e isso quer dizer incentivo, grana, propaganda, para que pastores dos Estados Unidos, principalmente das pentecostais, iniciassem a pregação. Estádios de futebol, clubes, grandes praças e onde houvesse possibilidade de grandes concentrações de pessoas, o Estado entrava com apoio logístico. A ideia de enfraquecer a Igreja Católica deu certo.

E mais, o grupo evangélico firmou o discurso na teologia da prosperidade, enquanto os padres ainda estavam agarrados à ideia teórica de votos de pobreza. A realidade mundana, com chances de encontrar o paraíso na terra, foi se transformando em coisa mais sedutora, de fácil convívio e, ainda por cima, abençoada. As ideias da ramificação pentecostal do protesto de Lutero são aquelas que oferecem a felicidade terrena, possível ao alcance imediato a partir da intermediação de qualquer pastor e de alguns gritos de aleluia. Tornou-se mais fácil ser fiel.

É por isso, também, que entrou em cena o simpático Papa Francisco. Ele faz parte de uma renovação do pensamento do Vaticano, uma bênção que cai direto dos céus da Santa Igreja àqueles que antes eram desprezados. Suas pregações rompem algumas filosofias que se arrastam ao longo dos séculos e que já não ecoam mais nas sociedades atuais. É feio dizer que se trata de uma jogada de marketing da Igreja, mas é justo reconhecer que deu certo. A linguagem simples e a temática variada são o combustível para colocar os dissidentes na rota novamente. Quem imaginaria, há poucos anos, que o papa poderia falar “Se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para criticá-lo?”.

Vez ou outra, como convém em qualquer guerra, inimigos fazem um intervalo em suas causas particulares, pausam as diferenças e dão as mãos em torno de um objetivo comum.

No começo deste ano, as bancadas católica e evangélica no Congresso Nacional começaram a tratar de aliança. Foi a primeira vez que isso aconteceu assim, de forma aberta. Líderes encontraram as bandeiras comuns para colocar em marcha o plano de eleger 200 deputados entre as duas correntes. Pensaram em se concentrar nos assuntos (aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, eutanásia, ideologia de gênero etc.) e não nas denominações de cada um. O discurso é reto, conforme disse Paulo Melo, do Movimento Católico Pró-Vida: “Os nossos irmãos evangélicos não são nossos adversários e, na medida do possível, estaremos juntos na eleição. Os nossos adversários são PT, PSOL, PSTU e PCdoB, que defendem agenda progressista”. Ou Ezequiel Teixeira, apóstolo do Projeto Vida Nova: “é algo altamente positivo. Quando as bancadas evangélica e católica se unem, nós ganhamos todas as votações. É muito importante que nos unamos. Assim vamos ter uma representatividade muito maior”.

Muita gente fica assombrada quando a religião abre o confessionário e se joga na política. Mas não dá para esquecer que nos planos de poder do mundo, em nenhum tempo, esses dois assuntos deixaram de caminhar lado a lado, se proteger, complementar, dividir riquezas e fatiar objetivos.

Se Pero Vaz de Caminha teve o cuidado de relatar a Vossa Alteza já na carta de achamento dessas terras que rolou missa logo nas primeiras horas de Brasil, é certo que nascemos sem laicidade e achar que ela realmente existe é querer ensinar o padre a rezar missa.

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