O Paraná espanhol

espanhois0abre

Aos 19 anos, Juan José Miner Camio deixou a cidade espanhola de San Sebastián para nunca mais rever seus pais. O cenário de uma Europa pós-guerra era desolador. Miséria, fome, instabilidade econômica e desemprego tornavam a vida na Espanha um verdadeiro ponto de interrogação. Foi diante dessa realidade que Juan José se despediu dos familiares e enfrentou a viagem de quase um mês a bordo de um navio com destino ao Brasil.

Nessa época, a Espanha não sofria apenas com os impactos provocados pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Desde 1936, a ditadura de Francisco Franco – que permaneceu até sua morte, em 1975, à frente do comando espanhol – assombrava a sociedade. A repressão política era uma dura realidade. O pai de Juan José, inclusive, lutou contra as forças de Franco durante a Guerra Civil Espanhola, que durou de 1936 a 1939.

Posse de antigos membros do Centro Espanhol do Paraná Divulgação/Acervo de Família

Posse de antigos membros do Centro Espanhol do Paraná
Divulgação/Acervo de Família

“Ele era o filho mais novo de um total de oito irmãos. O mais velho já estava morando no Brasil, o que facilitou a vinda dele”, conta Ricardo Miner Navarro, filho de Juan José. Após desembarcar no estado de São Paulo em 1953, Juan José veio morar em Curitiba – região que possuía características climáticas mais próximas daquelas a que ele estava habituado. Ricardo, que nunca conheceu seus avós paternos, relata que o pai encontrou uma brecha no mercado de trabalho brasileiro, até então carente de mão de obra especializada.

Juan José trabalhava em reformas de latarias de automóveis desde os 14 anos. “Ele trouxe o ofício da Espanha para cá e só parou de trabalhar por causa da idade”, conta o filho.

No mesmo ano da chegada de Juan José, sua futura esposa – Joana Navarro – também desembarcou em terras paranaenses. Então com 12 anos, ela veio de navio com seus pais e o irmão. Saíram de Barcelona com o mesmo propósito: construir uma nova vida longe da repressão e da pobreza. “Anos se passaram e eles se conheceram no Brasil, participando das atividades do Centro Espanhol do Paraná”, relata Ricardo.

O casal Miner Navarro representa a última e maior leva da imigração espanhola no Paraná. Entre as décadas de 1940 e 1960, foi registrada a maior onda migratória que o Paraná já recebeu. Somente na década de 1950, cerca de mil famílias vieram da Espanha para Curitiba. Elas se instalaram na cidade e se dedicaram ao comércio, à gastronomia, à construção e também a profissões liberais. Hoje existem cinco mil espanhóis natos e descendentes apenas na capital do estado.

Ricardo Miner Navarro, filho de imigrantes espanhóis  Diego Antonelli

Ricardo Miner Navarro, filho de imigrantes espanhóis
Diego Antonelli

Os espanhóis também foram construir suas vidas pelo interior do Paraná, em especial na região norte, como Londrina. “Os imigrantes espanhóis formaram suas colônias em Jacarezinho, Wenceslau Braz e Santo Antônio da Platina. Suas principais atividades estão ligadas ao comércio e à indústria moveleira”, escreve o historiador Ângelo Priori.

Pesquisadora e consulesa honorária da Espanha no Paraná, BlancaHernando Barco relata que nessa época até o alimento era controlado em território espanhol. “Eram dadas cartelas para as famílias retirarem cotas limitadas de comida por mês. As cidades não estavam desenvolvidas. Na economia pós-guerra, não havia muitos recursos financeiros. Além disso, muitos deixaram o país por problemas políticos com o governo de Franco”, explica.

As primeiras ondas migratórias
A primeira onda imigratória dos espanhóis no Paraná remonta ao final do século 19 e aos primeiros anos do século 20. A industrialização começava a deixar desempregados nos territórios europeus e o Brasil buscava mão de obra para trabalhar, principalmente no campo. Cerca de 190 mil espanhóis chegaram ao país entre os anos de 1884 e 1903.

A segunda leva de imigrantes espanhóis ao estado remonta ao período instável que assolou o Velho Continente nos anos que antecederam e sucederam a Primeira Guerra Mundial. Entre os anos 1910 e 1920, segundo Blanca, um grande número de espanhóis chegou ao Brasil fugindo da guerra, da fome e da miséria que atingia toda a Europa. “Vinham com contratos de trabalho para atuar nos cafezais de São Paulo. Constatou-se que, após o término dos contratos, muitas famílias se mudaram para o Paraná em busca de nova vida”, conta Blanca.

Quem chegou nesse período era, na sua maioria, proveniente das regiões de Andaluzia e Galícia. “Essa imigração não foi considerada significativa para as autoridades brasileiras já que os espanhóis não se reuniam em colônias. Eles eram independentes e se integravam facilmente ao meio”, relata a pesquisadora.

A pesquisadora e consulesa honorária, Blanca Hernando Barco Diego Antonelli

A pesquisadora e consulesa honorária, Blanca Hernando Barco
Diego Antonelli

A historiadora Regina Weber ressalta que, no Paraná, a presença de estrangeiros originários da Espanha em 1920 é de 1.817 indivíduos. “Mas ela foi aumentando, tanto em números absolutos quanto na sua participação porcentual entre os estrangeiros nos recenseamentos seguintes. A reemigração de São Paulo para outros estados era também uma constante”, ressalta Regina.

De acordo com a pesquisa desenvolvida pela pesquisadora sobre a imigração espanhola, o Paraná chegou a contabilizar 7.653 indivíduos na década de 1960 que eram nascidos na Espanha. “A chegada dos imigrantes espanhóis representou um legado econômico, social e cultural para todo o estado. Os imigrantes trabalharam em profissões liberais, no campo, ajudaram a desenvolver a economia regional. Sem falar que o Paraná é o que é, culturalmente falando, pelo mosaico de culturas que aqui existem e entre essas culturas há os espanhóis”, assinala Blanca.

Retomada do trabalho na Espanha

De acordo com a historiadora Marina Braga Carneiro, muitos imigrantes espanhóis que vieram ao Brasil a partir da década de 40 tinham como intuito retomarem os ofícios que praticavam na Espanha. Dessa forma, muitos se dirigiram aos centros urbanos, onde se dedicaram ao comércio de comestíveis, hospedagem, carpintaria, sapataria, alfaiataria, entre outros.

“Em contrapartida, ao manter e transmitir esses conhecimentos técnicos oriundos de seu país de origem, os imigrantes acabaram por alterar a arquitetura, a alimentação, os hábitos e os costumes da cidade onde se instalaram, promovendo grande troca e acréscimo cultural”, escreve a pesquisadora.

Folclore, cultura e dança

O legado cultural espanhol resiste ao tempo. Apesar das dificuldades. “A maior dificuldade é atrair a juventude a participar de grupos culturais com a oferta que o mundo globalizado dá”, pontua a consulesa Blanca Hernando Barco, que também é professora de dança folclórica no Centro Espanhol do

Membros do Centro Espanhol ensaiam semanalmente Diego Antonelli

Membros do Centro Espanhol ensaiam semanalmente
Diego Antonelli

Paraná, localizado em Curitiba, há 37 anos. Mesmo assim, a cultura sobrevive de geração para geração.

O grupo de dança conta com cerca de 100 pessoas e já contabiliza apresentações Brasil afora e três na própria Espanha a convite do governo espanhol. Além das danças folclóricas, o grupo mantém vivo o idioma. Quase todos sabem falar o idioma espanhol.

“Lá em casa só se fala em espanhol. Temos o hábito de nos alimentar com comida de origem espanhola quase todo dia”, afirma Pablo Nucete Hernando, de 19 anos. Para ele, é fundamental manter a raiz cultural viva. “Aprendemos mais, conhecemos mais sobre nossa história”, salienta o jovem. Nascido no berço de uma família de emigrantes, Pablo sempre ouviu músicas folclóricas e as histórias dos imigrantes.

Os avós de Pablo participaram do primeiro grupo Folclórico Espanhol em Curitiba na década de 1950. O avô Saturnino Hernando Gordo, por exemplo, é Cônsul Emérito da Espanha e foi um dos responsáveis por trazer o folclore aragonês para a capital paranaense. Desde cedo, aos cinco anos, Pablo já começou a seguir os passos de sua família e integrou o Grupo

Os imigrantes espanhóis chegaram a ter um time de futebol em Curitiba entre as décadas de 60 e 70 Reprodução

Os imigrantes espanhóis chegaram a ter um time de futebol em Curitiba entre as décadas de 60 e 70
Reprodução

Folclórico ao lado de sua mãe e irmãos.

Na gastronomia, por exemplo, os espanhóis introduziram vários pratos típicos, como os churros, madrileños, palmeiras e rosquiñas e a ensaimada, doce típico da região de Palma de Mallorca. Também introduziram o gosto pela paella, prato característico da região de Valência, e pela sangria, bebida tradicional de toda a Espanha.

Pedras do Palácio Iguaçu

Os espanhóis têm muita tradição no trabalho com pedras e granitos e inúmeros locais da capital tiveram trabalhos importantes realizados por marmoristas espanhóis, como o Palácio do Governo, a Biblioteca Pública, o Tribunal de Contas e o Teatro Guaíra, além do calçamento original da própria Praça da Espanha.

Curiosidade: A origem do Centro Cultural

A grande maioria dos espanhóis que chegava a Curitiba na década de 1950 procurava encontrar algum conterrâneo para facilitar a adaptação ao nosso país. Começaram a se reunir em casas e em bares. “Eles sentiam a necessidade de ter um lugar para reunir-se e que, ao mesmo tempo, fosse

Imagem da construção da sede do Centro Espanhol, concluída em 1976 Divulgação/Acervo de Família

Imagem da construção da sede do Centro Espanhol, concluída em 1976
Divulgação/Acervo de Família

ponto de referência para o imigrante que chegava. Foi aí que fundaram a então Sociedade Espanhola, localizada à Rua João Negrão, em frente à rodoviária ‘Guadalupe’, ponto de chegada de todo imigrante naquela época”, explica a pesquisadora Blanca Barco.

Em 1967, a Sociedade fechou suas portas para ressurgir em 1969, quando foi fundada a sede atual do Centro Espanhol no bairro Prado Velho, com a intenção de divulgar os costumes, as tradições e toda a cultura da Espanha. A nova sede só foi inaugurada em 1976 após doação financeira e realização de festas para coletar dinheiro a fim de custear a obra.

Paraná já foi quase totalmente espanhol
Um Paraná colonizado por espanhóis. Essa era a realidade do território que hoje abrange o estado ao longo do século 16. Naquela época, o Brasil estava fatiado pelo Tratado de Tordesilhas, celebrado entre Portugal e Espanha, que colocava a região oeste do estado sob o domínio espanhol. Para Portugal restava a faixa litorânea e uma parte da região leste.

Na região oeste, conhecida como Província del Guairá e povoada por diversos grupos indígenas, a Coroa Espanhola fundou três cidades. A primeira, estabelecida em 1554 nas margens do Rio Paraná, perto da foz do Rio Ivaí, recebeu o nome de Ontiveros. Essa foi, efetivamente, a primeira povoação europeia em território paranaense.

O historiador Ruy Wachowicz relata que, para fundar a cidade, os espanhóis usaram 80 homens armados e chegaram a possuir grande número de índios escravizados. Entre 1556 e 1557, a vila foi transferida para as proximidades da foz do Rio Piquiri e passou a ser chamada de Ciudad Real delGuairá – cujas ruínas atualmente estão localizadas no município de Terra Roxa.

A terceira e maior cidade foi Villa Rica delEspiritu Santo, fundada em 1570 no atual município de Nova Cantu e levada em 1589 para a região de Fênix, na área central do Paraná e onde fica o Parque Estadual Vila Rica do Espírito Santo. A mudança de local se deve, entre outros fatores, à ocorrência de epidemias na antiga localidade.

As cidades espanholas fundadas em território paranaense fizeram parte da Província do Vice-Reino da Prata, cuja capital era a atual cidade de Assunção, no Paraguai. Ao todo, a Ciudad Real durou 75 anos e a Villa Rica, 62 anos. Ao longo desse período, a Coroa Espanhola determinava que a população indígena fosse catequizada e iniciada em algum ofício pelos conquistadores.

Centro Espanhol do Paraná mantém vivas as tradições das danças folclóricas Divulgação/Acervo de Família

Centro Espanhol do Paraná mantém vivas as tradições das danças folclóricas
Divulgação/Acervo de Família

Em troca, os índios teriam de “pagar uma taxa”, ou seja, prestar serviços aos colonizadores espanhóis. Os índios trabalhariam de graça, o que os tornaria escravos. Revoltados com a situação, não foram raros os levantes das aldeias nativas contra os conquistadores. De 1610 a 1628, em tentativa de conquistar o Guairá com menor número de conflitos, foram criadas 15 missões jesuíticas da Companhia de Jesus com o apoio da Espanha. As missões facilitariam a entrada pacífica dos espanhóis em territórios ocupados por índios contrariados pela presença dos europeus.

Porém, os planos espanhóis foram frustrados. Os ataques dos bandeirantes portugueses, vindos de São Paulo, sacramentaram o fim do Paraná espanhol. Os objetivos principais eram afugentar os espanhóis da localidade e capturar indígenas para trabalhar em áreas agrícolas de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, especialmente em canaviais. Estima-se que um total de 100 mil índios foram afetados pelas bandeiras: 15 mil foram mortos, 60 mil escravizados e 13 mil se perderam ou fugiram mato adentro. Além disso, perto de 12 mil foram salvos pelos jesuítas.

Esse processo durou até 1631, quando todas as missões jesuíticas foram destruídas ou abandonadas. A cidade espanhola de Villa Rica foi sitiada por três meses pelos paulistas e arrasada em 1632 e a Ciudad Real del Guairá foi abandonada praticamente no mesmo período, pois os habitantes temiam o ataque dos bandeirantes.

Leia mais

Deixe uma resposta