O princípio da objetividade

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Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados
Millôr Fernandes

Objetividade e neutralidade são dois princípios que guiam o jornalismo. É assim que é? Não. Então por que jornais, jornalistas e o jornalismo insistem na objetividade e neutralidade? Há pesquisadores que dizem que isso não existe mais e que os jornais já tomam suas posições escancaradamente. É verdade? Afinal, o que é a verdade? Outra coisa que os jornalistas buscam. Enfim, não é verdade e não é mentira. O jornalismo é uma instituição ambivalente, paradoxal, por vezes, cínica e, até mesmo, falaciosa. Mas também é benévola, bem-intencionada e eficiente – vide o emblemático caso de Watergate (que pode ser visto no filme “Todos os homens do presidente”), cuja investigação de Bob Woodward e Carl Bernstein, repórteres do Washington Post, derrubou o presidente Richard Nixon. EUA são EUA e Brasil é Brasil, a relação que há na imprensa americana é muito diferente. O sintoma da importância do jornalismo dada pelos americanos é a Primeira Emenda ser justamente aquela que defende a liberdade de imprensa.

objetividade1Emitir opiniões nunca pareceu ser um problema. Páginas de colunistas, editoriais e outros espaços são destinados a este propósito. É dito que o editorial é a opinião do jornal sobre determinado tema, não necessariamente dos jornalistas. Porém, não é só de editoriais que se faz um jornal, ao contrário, as páginas dos jornais, inclusive na internet, estão carregadas de cobertura noticiosa: aqueles fatos rotineiros que o jornalista precisa cobrir, falas de presidente, de governador, troca de ministros, inflação, deflação, câmbio alto ou baixo. Também não é só de política e economia, há cultura, comportamento e, de uns tempos para cá, várias editorias foram criadas para atender o gosto do público. Acontece que as opiniões emitidas nos jornais tomam como base a cobertura noticiosa, logo um editorial só vai se posicionar sobre Michel Temer ter 3% de aprovação depois que o jornal der a notícia sobre a pesquisa. Algumas vezes isso não acontece, a notícia e a opinião tornam-se simbióticas, mas não é regra.

E é nessa cobertura noticiosa que se busca a objetividade e a neutralidade, isso que alguns pesquisadores de maneira fantasiosa dizem não existir mais. A própria estrutura da notícia busca a objetividade, como mostrou o Bem Paraná na segunda-feira, 18 de junho: “A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) começa a julgar, nesta terça-feira (19), a ação penal da Lava Jato contra a senadora paranaense e presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann e seu marido, o ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo. No processo, ambos são réus pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro”. Quem fez o quê, quando e por que foi feito, no jornalismo, é o que chamam de “pirâmide invertida”.

GLOBO GOLPISTA

“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” é um grito comum em manifestações. Embora pareça uma exclusividade da esquerda, não é. As manifestações de junho de 2013 entoavam gritos contra a emissora, e os atos não foram promovidos pela esquerda. Uma classe média descontente com “a política” e “os políticos” se reuniu contra “todos eles”. Não convém debater agora o caráter dessa manifestação que pouco de produtivo fez ou trouxe. O que parece ser consenso entre os pesquisadores é a capitalização deste sentimento anticorrupção pela Lava Jato para destronar o PT, Dilma Rousseff e, principalmente, o ex-presidente Lula e a ascensão de uma direita: é o Brasil mostrando a sua cara. Sem novas.

objetividade2A Globo e todos os conglomerados de comunicação do país são empresas. É um fato aparentemente óbvio, mas de uma importante relevância já que o jornalismo é, sobretudo, é uma instituição da sociedade com destacado papel, função e responsabilidade. O conflito mora entre ser socialmente responsável e financeiramente lucrativa, ou seja, é a ambivalência entre instituição e empresa.

Como instituição, as empresas de comunicação se preocupam com o fato, com a verdade, com a objetividade e com a neutralidade. Funcionam para o aperfeiçoamento da sociedade, mais: da sociedade democrática, já que a imprensa foi uma das grandes responsáveis pela criação do Estado Nacional Moderno. É uma tríade, exemplificada em detalhes por Benedict Andersen no seu livro “Comunidades Imaginadas”, entre imprensa, capitalismo e vernáculo. Esta soma resulta no Estado Nacional, tal como conhecemos hoje, com fronteiras, idiomas, moedas etc.

Nem sempre, no entanto, foi assim. O jornalismo, quando surgiu, servia para atender os reis e os nobres e fazer propaganda das suas ações, isso no século XVI e XVII. Do século XIX até as primeiras décadas do XX, surgiu o jornalismo partidário, aparentemente mais honesto, já que se vinculava a determinados partidos e defendia suas ideias políticas. É um período marcado profundamente pelo jornalismo de opinião. Acontece que os Estados Unidos, o berço da democracia moderna, desenvolveram um jornalismo para “o público” e não para públicos segmentados.

Os donos e editores de jornais venderam a ideia para anunciantes, que gostaram, pois seus produtos seriam difundidos em larga escala para várias pessoas. Para atingir o maior número possível de gente, propuseram-se a fazer um jornal neutro e objetivo, sem emitir suas opiniões políticas e dando apenas e tão somente “o fato”. A famigerada uma mão lava a outra. Os anunciantes pagam por um espaço no jornal, o jornal é vendido em larga escala, os leitores precisam se informar sobre os acontecimentos, compram e veem o anúncio. E o primeiro vê suas vendas crescerem. Parece que deu certo. (Óbvio que a dinâmica do sistema capitalista é mais complexa e outros fatores definem o aumento e a queda de vendas, mas publicidade é um dos pilares.)

Se pararmos para pensar, e não é necessário quebrar o crânio, o Facebook se propôs da mesma maneira. Um lugar cheio de gente que vende espaço para anunciantes e se diz neutro ou, na linguagem moderna, uma “plataforma aberta”.

Os jornais, então, passaram a ser financiados pelos anunciantes com o disfarce de objetivos e neutros. É possível que algum dia eles acreditaram nisso? Talvez. Pouco importa. Você acreditou lá no começo do século e acredita até agora. Os jornais são uma máquina de manipulação? Não é bem assim, como entoa o próprio grito: “o povo não é bobo”.

objetividade3Elenquemos uma situação hipotética sobre uma empreiteira que anuncia num jornal. Caminhões e caminhões de dinheiro chegam à sede da instituição com responsabilidade social de promover os fatos. O dono da empreiteira está envolvido num esquema, coisa pouca, só favorecimento em obra e essas coisas que comumente acontecem no Brasil. Qual a posição do jornal? Primeiro, o jornalista com faro de notícia, que vai nos recônditos para dar um furo, descobrir uma mega-história, como Bob e Carl, não vasculhará a empreiteira, pois será barrado pelo editor do caderno, editor do jornal, dono do jornal. O princípio da neutralidade cai.

Pode-se argumentar que Marcelo Odebrecht apareceu em todas as manchetes, do Brasil inteiro, da falida Tribuna ao prestigiado Estado de S. Paulo. Mas Norberto Odebrecht, seu avô, não apareceu na década de 1950. Marcelo esteve nas manchetes porque os procuradores da Lava Jato e o juiz Sergio Moro são carentes e precisam de holofotes. E o esquema foi e está sendo desmantelado pelo Judiciário – o rei da neutralidade e da objetividade, mas no Brasil há controvérsias sobre isso. A imprensa nada teve a ver, como no Watergate.

Não é bem por aí que eu gostaria de seguir. Penso mais na objetividade. Parece-me algo metafísico, que está além das nossas possibilidades, pois sempre partimos de algum lugar, de alguma visão. Uma fotografia não mostra só aquele quadrado fotografado, deixa de mostrar todo o resto. Em alguns ou muitos casos, todo o resto é o que deveria ser mostrado, não os dois mil caracteres batidos em uma hora ou menos para que a Folha coloque em seu portal antes d’O Globo que Michel Temer é o pior presidente da história do país e que é inacreditável como ele conseguiu mobilizar um Congresso contra um país e o país conseguiu perder porque não quis lutar porque está preocupado com privilégios e não com mudanças. Parece papo petista, mas a ciência, outra que se propõe objetiva e não é, confirma.

Em todas as vezes que um jornalista senta para escrever uma notícia, seja qual for, ele não é objetivo. Há, primeiro, de uma maneira macro, toda uma sociedade ocidental fundada em valores judaico-cristãos que organizam nosso pensamento de determinada maneira. Pensando em nós, brasileiros, ocidentais, é claro. A seleção da notícia é outra não objetividade. Por que Temer ser um presidente medíocre e Moro ser um juiz sensibilizante é notícia? Há uma cadeia na produção de notícias que precisa atender a perspectiva do jornal, do editor do jornal, do dono do jornal. E, ao menos aqui no Brasil, a liberdade de imprensa é outra farsa. As palavras utilizadas não são desprovidas de significados. O que o jornalista quis dizer quando disse que Paulo Bernardo é marido de Gleisi? É relevante para a notícia ou é apenas para mostrar que a bandidagem é prática familiar?

Quando os jornalistas dão enorme destaque à cobertura política e têm como fontes o próprio governo, qual é a relação existente entre ambos? Qual a camaradagem que rola para o governo dar determinadas informações ou não? Como Lauro Jardim conseguiu as gravações de Joesley? Quais suas fontes? Precisou dar alguma coisa em troca? Uma manchete? Pegar mais leve em algum assunto? Qual é a moeda de troca que existe entre mídia, governo e capital? Fonte é fonte, não se revela, mas já que revelaram, o que imbricava a relação entre Reinaldo Azevedo e a irmã de Aécio? E por que a esquerda tem tanta dificuldade em aparecer na mídia de maneira positiva (há toda uma produção acadêmica que mostra isso)?

O jornalismo desenvolveu maneiras de transparecer objetividade, como o caso da pirâmide invertida citada no começo. Outra maneira é o repórter arrancar de uma fala de alguém o que ele próprio quer dizer. Augusto Nunes já admitiu que preparava aspas e perguntava a determinados políticos se poderia atribuir a eles tais frases. E não tem como eximi-lo da responsabilidade e tentar atribuí-la ao político, pois ele é muito responsável, talvez o principal.

Em busca do fato, da verdade, da notícia, da objetividade, o jornalista utiliza o seguinte recurso: “A disse X”. O fato é esse. “A disse X”. “B negou o que A disse”. Dois lados da notícia – quando acontece – e eis o que chamam de objetividade. Isso é pouco e é mentiroso, quase criminoso. Lembro agora de uma manchete do Estado de S. Paulo: “Temer reajusta o Bolsa Família e concede aumento de R$ 8”, assim aparecia a manchete no Facebook, no dia 1.º de junho. Suponhamos que isso tenha sido com Dilma Rousseff. Por exemplo, em fevereiro de 2016, pré-impeachment, manchete sugerida, como exercício hipotético: “Dilma reajusta o Bolsa Família e aumenta apenas R$ 8”. O “apenas” se justifica porque oito reais é pouco, mas com Temer usou-se “concede”.

São maneiras de mostrar como a mídia não é objetiva. Se não existe objetividade na vida, não pode haver na mídia. Ela faz parte de uma sociedade com perspectivas.

Muitos jornais estão se esquecendo da sua função social e se preocupando quase exclusivamente com a sua situação financeira, estão deixando de ser instituições e se transformando em armazém de secos e molhados.

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