Onde foram parar as conversas?

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Falar sobre Proust, tentar entender Homero, relembrar as “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, conversar sobre Eça, saber de Camus, percorrer um a um os Buendía de “Cem Anos de Solidão”… Onde foram parar as conversas que esvaziavam copos e enchiam almas naquele tempo em que todos podiam sentar num bar e entre um papo e outro falar do futebol, da política, de como está caro o quilo da banana e dos planos do futuro? Cadê aquele momento em que um amigo contava para outro sobre sua sorte e isso interessava tanto que ninguém puxava ar para disputar atenção ou tratar de outra coisa que não fosse o colocado na mesa? Onde foi parar o entendimento de que o silêncio, muitas vezes, é o mais necessário numa conversa?

O tempo da delicadeza passou, todos sabem. Mas passou também o momento da inteligência, das ideias, da discussão digna e, principalmente, da troca entre os diferentes.  Essa pobre e resistente contemporaneidade tratou de crescer a partir de um cerne ridículo de que cada macaco tem que ficar no seu galho ou, no ainda mais popular, cada um no seu quadrado. E em vez de procurarmos o contraditório para enriquecer questões, tratamos todos de nos fecharmos em teorias mancas, mal elaboradas, a gritar perguntas e bufar respostas ao mesmo tempo.

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Vivemos de slogans. Os livros, que deveriam ser o complemento da vida, se transformaram em objetos que empoeiram nas estantes e complicam os herdeiros. Raros são os que recorrem às bibliotecas para explicar a loucura do mundo. A grande massa não sabe, ainda e de novo, que a história se dá em círculos que fazem longo caminho através dos séculos e acabam sempre tendo o mesmo ponto de partida e de chegada. Fôssemos mais atentos, poderíamos pular etapas e entender de reconstrução, renascimento e progresso antes mesmo que as decadências nos alcançassem.

Nos nichos em que as conversas ainda são possíveis, não entram, por óbvio, aqueles que não são dados aos diálogos. E por isso, também por isso, os turrões não saem do lugar e se enforcam em seus palavrórios doentios que entopem veias e vias sem ao menos repercutir eco.

É triste o momento em que estamos. Mas temos o arbítrio das alternativas. Podemos continuar nos afundando nesta noite que ainda pode demorar muito a passar ou apressar o alvorecer de ideias, a começar pelo entendimento de que a verdade que seu vizinho proclama é tão desconectada, irrealista, certeira e razoável quanto a sua. Depende de onde você está. E podemos também, e principalmente, dar as costas ao palavrório raso e recorrer aos grandes ensinamentos que estão disponíveis desde Tales de Mileto.

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