Rock nas telas

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jensen2_WoodstockNo último ano da década de 50, a ColumbiaPictures apresentou um filme que exigia rápida exibição, pois se entendia que seria algo passageiro: “Ao balanço das horas” (Rock aroundtheclock, 1956). Dirigido por Fred F. Sears, em preto e branco, contava com a presença de Bill Haley e seus Cometas, ThePlatters e Fred Bell. Sua estreia em Curitiba aconteceu no cine Palácio e providências seriam tomadas para o evento, entre policiais civis e guardas, para evitar os atos acontecidos em São Paulo, onde o filme estreou em dezembro de 56. Na capital paulista, as plateias de jovens faziam algazarra e dançavam sobre as poltronas e corredores, causando danos aos cinemas. Inicialmente a censura era 14 anos, depois passou  para 18 anos, pois os censores ressaltavam que a dança do rock é excitante, frenética, alucinante e provocante de estranha sensação e de trejeitos exageradamente imorais. A publicidade proclamava que o filme trazia um tema louco em tempo de loucura, cuja música alucina. Cinco sessões depois, no final da noite a bilheteira leva ao gerente o resultado do dia de estreia: 116 ingressos vendidos. Nos demais dias, o mesmo “sucesso”, na imensa sala cinematográfica com poltronas vazias. Apesar deste fracasso em Curitiba, o single em 78 RPM e o vinil com a trilha completa eram muito vendidos. A importância do filme é que lançou o rock androll ao mundo, a goma de mascar e iniciou o “conflito de gerações”. A música-tema tornou-se o hino da juventude rebelde dos anos 50.jensen1_Rock_Around_the_Clock

Na segunda metade dos anos 60, estreia “Help”, dos Beatles, o segundo filme do grupo, cuja trilha sonora foi lançada no álbum homônimo. O filme, em cores e dirigido por Richard Lester,  estreou simultaneamente nos cines Avenida e Marabá, já com grande afluência de público.

Durante três dias, em agosto de 1969, meio milhão de jovens se reuniram numa fazenda chamada Woodstock, na cidade rural de Bethel, no estado de Nova York, EUA, para o encontro dos maiores gigantes do rock. As manchetes exploravam o lado lúbrico do evento, como o sexo livre, e os jornais o citavam como vergonhoso. Sem uma televisão ativa, restava esperar pelo filme, indicado ao Oscar de melhor trilha sonora, melhor edição e melhor documentário, vencendo este último. Dirigido por Michael Wadleigh, que empregou, entre outros, Martin Scorcese, George Lucas e ThelmaSchoonmaker, o filme tem quase três horas de duração e foi distribuído pela Warner. Utilizando técnicas de divisão da tela, o som em estéreo multicanais, com a cobertura simultânea de eventos e o ponto de vista neutro, mais os jensen3_Tommyshows, contribui como um retrato daqueles tempos, um marco da contracultura. Nele desfilam 13 mitos do rock: RichieHavens, Joe Cocker, TheWho, CrosbyStillsandNash, JimiHendrix, JoanBaez, e outros. Por aqui, a censura do Ato Institucional número 5 havia tornado o filme “exibível”. Mesmo assim, em 1970, no cine Lido, com um ano de atraso (nesta época era a demora normal em Curitiba), estreia “Woodstock, 3 dias de paz música e amor” com casa cheia. Tempos depois no cine Vitória, reprise com uma cópia íntegra e som multicanal ‒ o documentário ficou muito melhor.

“Tommy”, rock-ópera do conjunto The Who, ganhou uma adaptação para as telas em 1975. Dirigido por Ken Russel, tem no elenco Roger Daltrey, Ann Margret, Oliver Reed, Elton John, Eric Clapton, Tina Turner e Jack Nicholson. Foi distribuído pela Columbia Pictures, produzido por Robert Stigwod com composições de Pete Town shend. O álbum duplo já tinha sido lançado, foi muito vendido e as músicas ficaram muito conhecidas. Mas quando fomos assistir ao filme no cine Plaza, decepção: algumas músicas do álbum não estavam no filme, como, por exemplo, a sequência da Tina Turner “The Acid Queen”: cortes da censura, que não era só política.

No final dos anos 70, foi lançado no cine Astor um filme muito interessante, com cenas reais da Segunda Guerra Mundial e com músicas de Lennon e McCartney: “Tudo isso e a segunda grande guerra” ( All this and world war II, 1977). Produzido por Lou Reizner, dirigido por Susie Winslow, com as músicas interpretadas por Elton John, Bee Gees, Leo Sayer, Rod Stewart, Frankie Laine, Tina Turner, Status Quo, Peter Gabriel, The London Symphony Orchestra, e outros. Lembro de “Help”, cantada por Henry Cross, e as imagensjensen4_WorldWarII do bombardeio aéreo de Londres. Ou “The fool on the hill” na interpretação de Helen Reddy, com imagens mostrando Hitler em sua casa nas montanhas. Distribuído pela Warner, nunca saiu em vídeo, que eu saiba. Também não fez muito sucesso, a não ser umas faixas do álbum com a trilha, como “Lucy in the sky with diamonds” por Elton John. Gostaria imensamente de revê-lo, pois foi uma experiência que me impressionou.

São retratos de uma época e ainda me emociono ao rever Woodstock, cujos valores culturais foram cooptados para vender refrigerantes e bandas de música que não têm nada a dizer, a não ser barulhos e efeitos de palco, num vazio constrangedor, a partir dos anos 80, principalmente.

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