Aberta a temporada de mentiras

mentiras_abre

A campanha eleitoral deste ano será curtíssima. Tudo será decidido em 60 dias. Não haverá tempo para construir candidaturas novas, como é o sonho de muito marinheiro de primeira viagem que se encantou com o caso de João Dória, em São Paulo. Pura ilusão. O índice de reeleição será grande, porque só os candidatos que têm nome e base eleitoral estruturada poderão enfrentar a eleição sem sustos. Levarão grande vantagem sobre os demais.

Outra característica da campanha será a grosseria, marcada pelos golpes abaixo da linha da cintura, os exercícios de desespero de quem precisa resolver sua disputa em curto espaço de tempo. A maioria tentará aplicar um nocaute, um ippon no adversário. Imaginem a baixaria.

Essas são as previsões de nove de cada dez marqueteiros da praça. De sorte que não teremos debates de ideias, propostas, programas. Teremos mesmo é pancadaria, numa campanha eleitoral curta e grossa. Tudo bem, mas este é mais um efeito colateral perverso da Lava Jato, a partir de agora mais usada como instrumento de achincalhe que da própria investigação das falcatruas de nossos políticos.

Quem é capaz de diferenciar, de pronto, uma fake news, mentira disfarçada de notícia séria? Algumas são tão bem elaboradas e distribuídas com cuidado profissional que vingam facilmente e esparramam a mentira com rapidez. A vítima é quase indefesa. Além de perder tempo para reunir provas que desmintam o boato, deve fazer esforço muito grande para que a verdade consiga derrubar a mentira. Além dos gastos que essa operação para limpar o nome exige.

Não tenhamos ilusões. Mentir em campanhas é algo habitual no mundo político. Notícias falsas sempre existiram. A diferença é que antes não eram difundidas com velocidade tão galopante quanto a patrocinada pelas redes sociais e muito menos tratadas como “fake”, essa palavrinha inglesa que conferiu certo charme à profusão de produtores de factoides e maldades em geral.

Aqui, entre nós, paranaenses, o caso Ferreirinha, que teria decidido a eleição para governador em 1990, tornou-se emblemático de uma mentira que mudou o curso da história. O candidato José Carlos Martinez foi acusado pela campanha de Roberto Requião, do MDB, de contratar jagunços para expulsar agricultores de terras que considerava suas no norte do Paraná. Até hoje os historiadores nativos tratam do tema e as controvérsias só aumentam. Assim como há controvérsias que jamais serão sanadas sobre a campanha que Ney Braga fez contra Moysés Lupion para se eleger governador pela primeira vez, em 1960.

mentiras_pinocchio

OS PRIMEIROS FAKES

Aqui, na terrinha, a baixaria começou a aquecer. Um exemplo: boa parte da imprensa do Paraná divulgou informações dando conta de que Edson Campagnolo fora defenestrado da campanha de Ratinho Jr. A questão ficou pesadíssima, pois se dizia que o Gaeco investigava o presidente licenciado da FIEP, que é cotado para ser o vice na chapa de Ratinho Jr., por falcatruas cometidas.

Ora, pois, toda essa trama não passava de grossa mentira para impedir que Campagnolo virasse vice e levasse com ele o cobiçado PRB, braço político da Igreja Universal do Reino de Deus que dispõe de bom tempo na TV e uma horda considerável de seguidores. O principal interessado em ficar com o PRB era Osmar Dias, do PDT, que ofereceu a candidatura a vice mas não para Campagnolo, e sim para Luizão, o prefeito de Pinhais que há pouco deixou o PT.

Mentira, às vezes, tem perna curta, mesmo quando alavancada pela mídia mais poderosa da praça. A FIEP desmentiu a carga contra Edson Campagnolo. Nada há contra ele nos anais da entidade e o Gaeco emitiu documento para atestar que não investiga Edson Campagnolo e nada há no Ministério Público contra ele. Agora, inverteu-se a situação. A polícia passou a investigar de onde veio a fake news contra Campagnolo, um crime que pode resultar em pena pesada contra o autor.

Outro fato destacável e que envolve pesos-pesados. O juiz Sergio Moro decidiu informar ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que estava no Brasil, e não em Portugal, no domingo em que despachou no habeas corpus concedido a Lula pelo desembargador plantonista Rogério Favreto. Ele confirmou, por meio de sua assessoria, que não viajou a Portugal neste mês de julho, quando estava em férias (do dia 2 ao 31). E mais: “O jornal Valor apurou que, na defesa que apresentará ao CNJ, Moro indicará que as informações sobre sua suposta estada em Portugal foram divulgadas nas redes sociais pelo senador Roberto Requião (MDB-PR).”

O que mais se vê são “perdigueiros” em busca de indícios, provas, qualquer coisa que sirva a um político para desancar o outro. Os depoimentos de delatores da Lava Jato ou de outras operações passaram a ser fonte de material para a campanha eleitoral. Qualquer um que tenha sido citado numa lista da Odebrecht, por exemplo, está com a vida eleitoral em apuros.

mentiras_geppetto

MENTIRA POR MENTIRA

Mas tão grave quanto divulgar falsidades sobre o adversário é a prática de ludibrio ao eleitor, popularíssima entre nós. Mente-se descaradamente, sem qualquer pudor. E contra isso não há salvaguarda. Do Tribunal Superior Eleitoral, que promete combate feroz contra as fake news, jamais se viu qualquer posicionamento sobre os sucessivos estelionatos eleitorais do passado e dos que já se anunciam por aí.

Revisitar discursos de campanha e de posse é útil para ilustrar o descaso com o tal do povo que todos juram defender. Imperam generalidades, frases de efeito (não raro duvidoso) e convocações a lutas ficcionais que candidato algum vai travar. Pouco do que se diz é verdade e possível de ser feito. E quase nada vai além do dizer.

Alguns exemplos são didáticos. Fernando Collor se elegeu como caçador de marajás e era um califa entre eles. No final de seu primeiro mandato, Fernando Henrique Cardoso começou a entregar exatamente o oposto do que prometia para, assim, garantir sua reeleição. Luiz Inácio Lula da Silva foi ainda mais hábil: com discurso antielite, assegurou seu lugar no banquete dos milionários. Lambuzou-se das delícias do poder, conseguiu se safar do mensalão e, à la Al Capone, só acabou na cadeia por um crime menor. Propalava a “fake reality”, algo em que o PT, Lula e os seus são experts.

Quer algo mais fake do que a candidatura Lula, lançada pelo PT na sexta-feira, com direito a leitura de um manifesto escrito pelo ex-presidente condenado e preso e, portanto, impedido legalmente de disputar a eleição? Ilusionismo puro que o PT pretende manter diante dos fiéis enquanto desfia saídas na sacristia.

No manifesto, Lula renova o arsenal de interpretações particulares da História, referindo-se ao “golpe de 2016” e ao conluio de forças da mídia e do capital para impedir sua candidatura. Nada fala da escandalosa roubalheira e do fracasso de Dilma, limitando-se a citar datas dos mandatos do PT. E ilustra feitos com “fatos alternativos”.

No cerne de sua mensagem, Lula entoa a mesma falseta de Getúlio Vargas em sua carta-testamento: “Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes”. Parece não saber que os ardis getulistas têm sido desmascarados pela História, desmistificando o “pai dos pobres”, ele também um genial ilusionista.

Leia mais

Deixe uma resposta