O fator leveza

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Ao nos referirmos à palavra Arte, fatalmente estaremos determinando que, via de regra, acionaremos três eixos. A saber: natureza, nobreza, torpeza. Mas não seria o caso, aqui, de construirmos balizamentos teóricos ou, quando muito, rodapés de relevo erudito.

A intenção é apontar para um fator, que acredito ser de grande importância: incluí-lo, por assim dizer, no bojo do universalismo que, no caso, a Arte permite todo e qualquer argumento que a envolva.

Cito o livro  “Seis Propostas para o Milênio”, de Italo Calvino, em que o romancista-ensaísta-contista ressalta, sob forma admirável a questão: leveza. Recomendaria a leitura dos seis fatores alçados por Calvino. Assim como toda a sua obra.

A partir deste quesito, muito se poderia desenvolver, de forma a salientar a leveza que em alguns momentos, decisivos ou não, compôs o ambiente estético de toda arte ocidental.

Nem sempre guerras. Nem sempre hegemonia monárquica. Nem sempre nevascas ou hecatombes. Nem sempre sangue. Lanças ou tanques…

Mas, em algum momento, por certo, a leveza apresentou-se de forma envolvente, florescente, e sempre: renascente.

Mesmo que houvesse revoluções, mesmo assim, a leveza, ressurgente, resplandeceria. Tão poeticamente influente no decorrer de uma aparição. Basta citarmos um róseo instante em Delacroix.

Entretanto quero apenas fazer o registro de um belíssimo momento, citado por Vik Muniz, quando de sua estada em 1986, em Nova York. Afora agruras vividas, o artista, em visita ao Metropolitan Museum, repara uma intrigante fila. Ao se aproximar da sala em questão, eis que se “petrifica”, ao se defrontar com o quadro “Retrato de Clara Serena Rubens” – no caso o retrato da filha de Rubens. Nada mais evanescente. Aí me lembrei de Valery, via Calvino, “há que pensar mais na leveza do pássaro, que na da pluma…”

Ao vermos a reprodução da obra de Rubens, o sintomático urgente os informa: a leveza orbital daquele olhar, deslimite e porquê para tanto róseo daquelas maçãs, um mirar simétrico daquele anjo. Em suma: recorro à frase de Pablo Picasso, quando perguntado o que ele considerava um quadro como Arte. O mestre determinou: “Basta encostarmos um espelho – se embaçar – é Arte…”

Não seria o caso do espelho encostar no retrato de Clara Serena Rubens.

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