Os poloneses fincam o pé no Paraná

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Ela sobreviveu aos horrores do Holocausto nazista, atravessou o Oceano Atlântico com três filhos no colo e escolheu Curitiba para reconstruir sua vida. Em terras brasileiras, Stefania Wojtyga teve outros três filhos. Mas quis o destino que o marido dela fosse repentinamente embora, abandonando a família. Stefania, que hoje tem 90 anos, ficou sozinha. Mal sabia ela que as dificuldades enfrentadas anos antes, no decorrer da Segunda Guerra Mundial, bateriam à sua porta novamente.

Stefania, que vivia no bairro Barreirinha, começou a sofrer com inúmeras ações preconceituosas, além das dificuldades para manter a família. Por ser mãe solteira e não falar direito o idioma português, foi alvo de um abaixo-assinado dos moradores da região para que ela se mudasse. A sua presença incomodava e não era aceita pela comunidade tradicional da época. “Ela resistiu, continuou no bairro, criou e educou os filhos, netos e bisnetos e hoje é uma das pessoas mais respeitadas da Barreirinha”, conta a neta Kelly Bastos de Barros, que lamenta não ter sido registrada com o sobrenome polonês.

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A saga de Stefania em terras paranaenses exemplifica uma última grande leva de poloneses que migraram para o Paraná. De 1935 até 1970, entraram no Brasil mais de 25 mil imigrantes de nacionalidade polonesa. Uma história que começa a ser contada no século anterior, a partir do ano de 1870.

“A chegada dos primeiros poloneses data dessa época. Eles vieram da região de Joinville, onde mantinham tensas relações com os alemães. A imigração foi fruto da iniciativa pessoal de Wós Saporski, considerado o pai da imigração polonesa no Paraná”, conta o pesquisador e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Márcio de Oliveira. Nessa época, a Polônia não existia como país independente. Seus territórios, desde fins do século 18, eram divididos entre os impérios Austro-Húngaro, Russo e Prussiano.

Edmundo Sebastião Wós Saporski chegou a Santa Catarina em 1867, visitou Curitiba pela primeira vez em 1870 e coordenou a vinda dos imigrantes poloneses que estavam em terras catarinenses para a região. A situação em Santa Catarina estava muito complicada para os poloneses que haviam emigrado do país de origem.

Essa tensão em terras catarinenses ocorria pelo fato de os primeiros poloneses a chegarem ao Brasil terem vindo de regiões sob ocupação da Prússia, dominada por reinos germânicos, e foram enviados, justamente, às zonas de colonização alemã no Brasil, em Santa Catarina. “Foram exatamente os conflitos com as comunidades germânicas que fizeram os primeiros poloneses, com a ajuda de Saporski, migrarem para Curitiba”, completa o pesquisador.

Dessa forma, um grupo de 78 poloneses decidiu partir para Curitiba, convencidos por Saporski que, então, se havia tornado professor em uma escola da cidade. “Nessa migração interna, o grupo enfrentou a resistência das autoridades catarinenses, que não desejavam ver ‘seus’ imigrantes partirem, e do governo Imperial, para o qual pouco interessava a migração entre províncias. Mas, por outro lado, contou com o apoio do governo do Paraná, que custeou a viagem até Curitiba”, ressalta Oliveira.

 

Motivações e passaporte “alemão”

Fome, falta de terra, miséria, colheitas magras e o sonho de se tornar “proprietário rural” foram preponderantes para que os poloneses deixassem suas terras e atravessassem o Atlântico de navio para começar vida nova no Novo Mundo.

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Esses poloneses que chegavam ao estado não eram considerados, oficialmente, como oriundos da Polônia. Por serem de uma região que estava ocupada por outros três impérios, o povo era subjugado às outras nações. Na hora do embarque, que era realizado a partir de portos de Bremen e Hamburgo (na até então Prússia, hoje Alemanha), os poloneses vinham munidos com passaporte emitido pela Prússia. Isso os obrigava, na prática, a imigrarem como alemães.

 

As primeiras colônias

Nos arredores da capital paranaense. foram fundadas, inicialmente, quatro colônias exclusivas para os imigrantes poloneses e uma colônia mista que também recebeu imigrantes poloneses. A primeira região em que os poloneses se instalaram foi na colônia mista de Pilarzinho, em 1870.

A pesquisadora Rafaela Mascarenhas Rocha relata que a segunda colônia polonesa foi a do Abranches, inaugurada em 1873 e “habitada por 320 famílias polonesas distribuídas em 82 lotes, onde viviam imigrantes poloneses da região da Silésia”.

Dois anos depois, o governo provincial inaugurou a colônia Orleans, próximo ao Rio Barigui. A colônia recebeu 63 famílias na sua fase inicial e lá foi instalada a primeira escola em uma colônia de imigrantes, em 1876. O primeiro professor foi o polono-brasileiro Jerônimo Durski, que lecionava em polonês. No mesmo ano, foi criada a colônia de Santa Cândida.

Em 1876 a Província do Paraná criou a colônia de Santo Inácio, vizinha a Orleans. De 1870 a 1889, estima-se que 7.030 poloneses desembarcaram no Paraná.

No entanto, como esclarece o pesquisador Antônio Leocádio Cabral Reis, nem todos esses imigrantes vieram apenas para Curitiba. “Fixaram-se também em São Mateus do Sul, Rio Claro, Mallet, Cruz Machado, Ivaí, Reserva e Irati”, aponta. Os poloneses ajudaram a difundir o uso do arado e da carroça puxada a cavalo. Dedicados à agricultura, ajudaram a aumentar a produção agrícola do estado.

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A febre do Paraná

O ápice da imigração polonesa para o Brasil ocorreu entre 1890 e 1914. Nessa época, mais de 96 mil imigrantes desembarcaram na cidade do Rio de Janeiro. Só nesse período o Paraná recebeu perto de 35,1 mil poloneses. Foi o estado que mais registrou imigração oriunda da Polônia.

“No primeiro grande fluxo, 1890-1894, também conhecido como o período da ‘febre brasileira’, 12 numerosas colônias foram criadas, tanto nos arredores de Curitiba quanto em outras regiões do estado. Entre elas, as mais importantes são: São Mateus (1.225 colonos), d’Eufrosina (1.475 colonos) e Rio Claro (3.425 colonos)”, afirma o pesquisador Márcio de Oliveira. No período do segundo grande fluxo, entre 1900 e 1904, foram criadas as colônias de Cruz Machado, Apucarana e a colônia mista de Nova Galícia.

Nessa época, as razões para saírem da Polônia não eram tão diferentes das que motivaram a saída dos primeiros imigrantes. “A situação dos camponeses, comparada ao período anterior, em nada havia progredido. A queda do preço dos cereais provocada pela abertura do mercado local à concorrência internacional, provocando grande miséria naquelas áreas rurais, associada à rápida industrialização de cidades como Varsóvia e Lodz, era um dos mais importantes fatores de mobilidade, culminando tanto na emigração para regiões rurais ricas da Prússia quanto na emigração em massa”, explica Oliveira.

 

A ilusão da propaganda

Deve-se somar a esses fatores a enorme propaganda sobre o Paraná que se espalhou no seio do campesinato polonês, provavelmente disseminada por agentes particulares ligados às companhias marítimas. Afirmava-se que o governo brasileiro estaria disponibilizando gratuitamente aos imigrantes enormes quantidades de terra e que o Brasil era um país tão rico que não havia necessidade de trabalhar. Doce ilusão.

“Chegar ao Brasil não era o que diziam”, resume Marília Manikowski Pietruki. Seus avós paternos vieram da Polônia durante a Primeira Guerra Mundial, por volta de 1914. “As dificuldades que eles encontraram eram enormes. Foram colocados para viver em lugares ermos, sem estrutura alguma. Tiveram que se virar para se acostumarem com um lugar completamente diferente para tentar construir suas vidas”, conta Marília, de 50 anos.

 

Relatos de imigrante

O casal Nicolau e Maria Soltowski embarcou, em 1902, no navio que os traria para o Brasil. A tiracolo estava o único filho. Ao chegarem ao Brasil, depararam-se com um idioma completamente desconhecido e com uma alimentação totalmente diferente. “Não sabiam nem o que comer aqui. Por um tempo só se alimentavam de arroz”, conta a neta Rita de Cássia Soltoski Koleski, de 45 anos.

Foram parar no norte do estado do Paraná, próximo da cidade de Japira. Era da plantação da fazenda que o casal tirava o sustento da família. “Mas quando minha mãe completou 19 anos, eles decidiram se mudar”. Vieram para a capital do estado para que a filha tivesse condições de estudar. O plano deu certo. Ela tornou-se professora e se casou com o homem que conheceu em uma igreja polonesa em Curitiba.

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Dentro de casa praticamente se passou a falar cada vez menos o idioma polonês. Vale lembrar que, na época do governo de Getúlio Vargas, tudo que era de origem estrangeira passou a ser proibido no país. “Meu pai só falava polonês se queria contar algum segredo e a gente não pudesse escutar”, conta Rita.

Mas a fé católica, as tradições de Páscoa, a alimentação, o pierogi, a sopa de beterraba passaram de geração para geração. “Eu fiz aula e aprendi a falar polonês”, orgulha-se Rita, que frequenta com a família o grupo étnico Wisla, em Curitiba.

 

Perfil: 95% dos imigrantes eram camponeses

Os estudos sobre imigração polonesa indicam que a maioria dos indivíduos que se instalou no Paraná era de origem camponesa, aproximadamente 95%. Essa maioria era pobre, de caráter laborioso e muito apegada à religiosidade católica. Mas não foi só no campo que os poloneses se destacaram. Também houve atuação de muitos imigrantes, como aponta a pesquisadora Rafaela Rocha, nas áreas educacional, intelectual, de imprensa e recreativa na cidade de Curitiba entre as décadas de 1890 e 1940.

“Destas áreas é interessante destacar a importância central que as escolas das colônias tinham na formação das crianças imigrantes, pois o conteúdo escolar era todo lecionado em idioma polonês. Houve vários jornais em idioma polonês que circularam em Curitiba durante este período, e o mais importante deles possivelmente tenha sido a Gazeta Polska w Brazyli”, escreve a pesquisadora em artigo produzido durante seu doutorado pela UFPR.

Sobre organizações sociais, ela destaca a Sociedade Junak, que reuniu imigrantes e descendentes em torno de práticas esportivas e culturais durante as primeiras décadas do século 20.

 

Alguns redutos polacos no Paraná

Muitas colônias polonesas também foram idealizadas em outras cidades do estado. A pesquisadora Rafaela Rocha destaca, por exemplo, a colônia Tomás Coelho, fundada em 1876 por meio de iniciativa provincial quando o Paraná estava sob a presidência de Lamenha Lins.

Essa colônia ficava nas proximidades da estrada para a Lapa. Outra importante colônia de imigrantes da região leste do Paraná era a colônia Dom Pedro, também fundada em 1876. “Muito próxima à colônia Orleans, Dom Pedro atualmente faz parte do município de Campo Largo”, escreve Rafaela.  Dom Pedro foi uma colônia mista, abrigando imigrantes italianos, ingleses, franceses e poloneses. Às margens do rio Passaúna, o reduto contou inicialmente com 23 famílias.

“Convém salientar ainda que o imigrante polonês também se faz presente em municípios tais como: Cerro Azul, Campo Largo, Pinhais, Mallet, Chopinzinho, Palmeira, Ponta Grossa, Campo Magro, São João do Triunfo, União da Vitória, Agudos do Sul, Antônio Olinto, Imbituva, Ipiranga, Contenda, entre muitos municípios, que nem sempre são citados nas estatísticas oficiais a respeito da presença polonesa no Brasil”, afirma o pesquisador Antônio Leocádio Cabral.

 

Pesquisador aponta data da chegada dos primeiros polacos ao estado

Antes, porém, do ano de 1870 – data consagrada pela chegada da primeira leva de imigrantes poloneses ao Paraná –, alguns desbravadores vindos da Polônia já teriam dado seus primeiros passos na província paranaense. É o que atesta o pesquisador e jornalista Ulisses Iarochinski, autor dos livros  “Polaco” e  “Saga dos Polacos”. Os dados se baseiam a partir de estudos realizados pelo padre Jan Pitón, que foi reitor da Missão Católica Polonesa no Brasil e que morreu em 2006. O padre tinha elaborado uma relação cronológica da chegada dos poloneses ao Paraná.

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“Em 1847 um pequeno grupo de poloneses veio de Santa Catarina para o Paraná e ficou na região do Rio Ivaí. Já em 1857 chegou ao Paraná outro grupo que contava com o professor Jerônimo Durski”, relata Iarochinski. O polonês Gaspar Eduardo Stepnowski, em 1858, também já possuía uma propriedade rural no vale do Ribeira, então município de Castro.

 

Polaco, por que não?

Iarochinski, por sinal, é um dos poucos que defendem com unhas e dentes o termo “polaco” e não polonês para se referir aos imigrantes e descendentes. Devido a essa luta e aos seus livros fazerem referência explícita aos “polacos”, chegou a ser agredido verbal e fisicamente por descendentes polacos.

“O certo é ‘polaco’. A tradução de ‘Polak’, que designa o nativo da Polônia, é polaco. Em Portugal e outras nações de língua portuguesa, só se usa polaco”, conta o pesquisador, que estudou na Cracóvia por oito anos.

Porém, muitos acreditam que “polaco” possui conotação preconceituosa e, por isso, adotaram o termo “polonês”.

“Isso se deve a uma motivação histórica. Antes, o termo ‘polaco’ não tinha carga de discriminação. Mas no final do século 19 e início do século 20, muitas garotas vieram para o Brasil e começaram a se prostituir, muitas de maneira forçada. Elas eram de origens diversas, mas a população referiu-se a elas de uma maneira generalizada como ‘polacas’”, conta Iarochinski.

 

Cultura preservada

O coreógrafo e historiador Lourival de Araújo Filho há 20 anos é o responsável pelas apresentações do grupo folclórico polonês Wisla, em Curitiba. Adotado por uma tia que tinha parentesco com poloneses aos sete anos, desde cedo Lourival foi criado no meio da cultura polaca.

Rigoroso e perfeccionista nos ensaios, Lourival toca o grupo tal qual um maestro rege a orquestra. Cada passo é ensaiado quantas vezes forem necessárias. Ele quer apresentar o melhor da cultura polonesa aos espectadores. Não só isso. Ele quer que cada descendente das novas gerações de poloneses entenda as raízes culturais de seus antepassados.

“É aqui que podemos ensinar as tradições do folclore polonês aos mais jovens. Folclore é a música, a dança, a gastronomia, os usos e os costumes, os trajes… Tudo isso tem uma referência histórica e cultural que deve ser preservada e compreendida. Precisamos valorizar a nossa cultura e não deixar que com o tempo ela desapareça”, ressalta Lourival.

 

Curiosidade

Os poloneses que habitavam a região que estava sob o domínio do Império Russo não tinham autorização imperial para emigrar, ao contrário do que ocorria na localidade sob domínio da Prússia. Para conseguir seguir viagem, precisavam de dinheiro e conquistar, por meio das autoridades prussianas, um passaporte para deixar a Europa.

 

Ensaio

 

Grupo folclórico Wisla ensaiando sob o comando do coreógrafo Lourival de Araújo Filho. Fotos: Diego Antonelli.

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Wisla

 

Apresentações culturais do grupo folclórico Wisla, que é de Curitiba. Fotos: Divulgação.

 

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