Palhaço das perdidas ilusões / Tempos de segunda ordem / A política, de perto

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Palhaço das perdidas ilusões

 

A vida nem sempre foi um palco iluminado. Houve a escuridão da ditadura, a tortura, as frustrações, o desamor. Mas não devo me queixar. Detesto autocomiseração. Minha vida não foi monótona e devo reconhecer, vaidade às favas, que cheguei a cantar entre as palmas febris dos corações. Desde a infância este verso da música me encanta e, enfim, encontrei a oportunidade de usá-lo.

Não me julguem em fim de linha. A minha obsessão com a morte às vezes causa enorme confusão. Sigo firme. Atento e forte. Mas com muito medo de entender a morte. Mudei muito. E não mudei nada. O mundo é que mudou demais. Tenho de me virar para não ficar anacrônico. Procuro a interlocução com os jovens para perceber o admirável mundo novo que se abriu com todas as inovações tecnológicas. Mas tenho cá minhas resistências. Às vezes percebo que estou mais perto de meu avô que de meus filhos, culturalmente falando.

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A vida não foi avara comigo. Deu-me afetos, deu-me filhos, Rubens e Izabel, um neto, Antonio. Sou tão ligado a eles emocionalmente que é melhor não começar a falar de suas qualidades. Extravaso e os constranjo. Ainda mais agora, que estão todos longe.

Sou um poço de contradições. Preciso de solidão. Sou um conversador que ama o silêncio. Meus amigos não entendem minhas desaparições. Me fazem falta os mais chegados que se foram. Eu os invoco na memória, na leitura, mas gostaria da conversa da madrugada, aquela que só se desenrola na madrugada.

Dos amigos contemporâneos, quase todo mundo morreu. Sou um sobrevivente. E quando encontro outro de minha época que ainda respira, não nos queixamos de dores e que tais. Maldizemos os escombros de valores mortos. Dói. Tenho saudade da luta, da ação, do protesto, mas isso de quando ansiávamos por liberdade. Hoje, os déspotas apedeutas são alçados à condição de heróis. O debate foi pasteurizado na academia. E a logorreia do politicamente correto escorre da internet.

É claro que de minha meninez aos dias de hoje houve melhorias fantásticas. As que mais me espantam são as da Medicina, que reduzem as dores e prolongam a vida. Adoro tomar remédios. Nenhuma tolerância para a dor. Eu, que tenho artrite reumatoide, tenho grande consideração e confiança na morfina. Houve mais. A tolerância aumentou. Não só em relação a ideias, mas a gêneros e comportamentos. Surgiu uma sociedade mais rica e mais próspera. Alcançamos o conforto que a sociedade industrial proporciona.

Mas vamos com calma nessa digressão de aniversário. Nem tudo são flores neste Vale de Lágrimas. Aos ganhos materiais e de liberdade não correspondeu uma sabedoria mais alta nem uma cultura mais profunda. Eu penso que levei azar em pegar os anos do regime fardado e suas consequências. Mas tenho de considerar a sorte de ter vivido os anos de nossa pequena renascença. O cinema novo, a bossa nova, o teatro, aquela inteligência toda concentrada em produzir arte ainda hoje insuperada. Não havia a parafernália digital, sem a qual as pessoas hoje não vivem. Mas a vida produzia arte, poesia e falava cara a cara.

Eu acredito que houve uma diminuição da tensão vital. Vivemos mais anos, mas são anos ocos, vazios. O espetáculo espiritual é desolador. Renascimento das seitas religiosas, das superstições, a degradação do erotismo, o prazer a serviço do comércio, a liberdade convertida em alcagueta dos meios de comunicação. As minorias fanáticas. E no mundo o terrorismo.

Quanto ao meu projeto pessoal, digamos que não se realizou exatamente como eu esperava. Desde muito cedo me pensei escritor. E acabei escrevendo para viver. Aos 17 anos um amigo me conseguiu um emprego num jornal. Era início de 1965, o jornal era Folha do Estado e apoiava Bento Munhoz da Rocha Neto para o governo. Recebi instruções, menti que já tinha 18 anos e fui em frente. Bento perdeu a eleição e o jornal fechou. Desde então trabalhei em todos os jornais, em TVs, em cinejornais, em revistas e tudo mais que possa receber um texto em troca de um salário.

Só saí do jornalismo quando a militância política me levou. Ao mesmo tempo fiz de tudo. Iniciei cinco cursos universitários, mal e mal terminei um. Fiz teatro amador. Tentei fazer cinema. Fui cinegrafista de cinejornal. Desapareci. Entrei na militância pesada. Acreditei que só a luta armada devolveria a liberdade. Fui preso. Muitas vezes. Em 1964, aos 16, a primeira. Em 1969/70, a última, esta pesada, com passagens inenarráveis, ilha das flores, cenimar, cacete, choque elétrico, pau- de arara, meses de desespero.

Voltei. E só poderia voltar ao que sabia fazer. Escrever. Em jornais, para agências de propaganda, discursos para políticos. Me reinventei. Passei a fazer jornalismo político com um forte viés de oposição ao regime fardado. Naturalmente desembarquei nas campanhas de oposição. Vencemos. Virei secretário de Estado por três vezes, uma vez do município de Curitiba. Fui fazer campanhas no exterior. Dei consultoria para dois presidentes. Essa vida me roubou muito tempo de escrever.

Voltei novamente. E aqui estou. A escrever e a ler. Ler, a outra obsessão. Ler, ler, ler. Hoje, menos. Mas não passo sem a minha ração de leitura. Continuo na vida e no mercado. Jornalista, crítico, novelista, até poeta. Não me levo a sério. Conheço as imposturas de literatos antigos e jovens. São iguais quando o caráter não ajuda. Tenho um grande desprezo pelas glórias e pelas armações infames. Mas minto se disser que não me sobe uma ponta de vaidade quando encontro uma crítica simpática.

Não queria escrever isto com esse toque de jeremiada, mas acaba sendo inevitável. Tanta gente, tanta coisa, tanto tempo. Não vale a pena chorar sobre o que passou. E já nem sei o que é este texto, que seria mínimo, minúsculo, e me escapou dessa forma, traindo minhas intenções.

 

 

 

Tempos de segunda ordem

 

Não gosto de ordens. Detesto palavras de ordem. Reajo às verdades definitivas dos sectários de toda espécie. Não consigo conviver com as minorias organizadas que fazem de seu tema único o explanatório do mundo e saem em pregações, a acusar quem delas discorda de preconceituoso ou politicamente incorreto, esta expressão cunhada pelos néscios de nosso tempo.

Não aceito argumentos reduzidos a slogans que mais expressam ressentimentos que outra coisa. Ando enfarado desses radicalismos gritados por minorias ruidosas. Não há idades menos serenas que as idades da fé. Tanto na vida dos indivíduos, quanto na dos povos. E por infortúnio me foi dada esta quadra para viver. Vejo os movimentos de todas as cataduras e me vem à cabeça que sempre que os homens tomam com fervor inquestionável as suas crenças, ortodoxia e heresia emergem em luta e o desacordo espiritual torna-se conflito irracional.

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A experiência de viver nestes tempos de segunda ordem tem sido penosa. O sentido geral da evolução humana nos últimos cinquenta anos pode resumir-se no esforço para conter e vencer a intolerância: a intolerância racial, religiosa e de gênero. Mas também as intolerâncias sociais e até as nacionais. E no Brasil conseguimos recuar ainda mais. Não canso de me perguntar como um país que foi de Villa-Lobos, Niemeyer, Guimarães Rosa, Glauber Rocha e todos os que produziram arte e cultura nos anos áureos de 1950 a 1970 pode ter se transformado nesta choldra que tem como trilha musical o sertanejo universitário, o funk, o axé e outras excrescências.

Recuamos ao paleolítico. A divergência e a diferença são necessárias e inerentes à espécie. Uma humanidade que se reconciliasse numa só cultura, numa só raça, numa única civilização homogênea e unânime, seria afinal intolerável. É o que pretendia Hitler, a sua maneira, a eliminar fisicamente o que considerava descartável na espécie.

Politicamente, ando cético e enraivecido. Depois que abriram as entranhas da corrupção no país, política passou a ser a arte de enfiar a mão na merda. A rigor, a política reduziu-se ao jogo bruto das delações premiadas em que o criminoso passou a ser a figura central do processo. E os heróis, a disputar o lugar mais alto no pódio, são delegados de polícia, procuradores, juízes e ministros da alta corte de Justiça.

As grandes palavras, os programas, as ideias, os altos propósitos patrióticos ou impatrióticos hoje servem apenas para discursos de ocasião. O que realmente predomina é o esgoto, agora a céu aberto. O que anima chefes e chefetes são motivos pessoais nem tão grandes ou estimáveis. A política tornou-se um jogo bruto dominado por sentimentos e paixões mais negativos: a cupidez, o ressentimento, a mágoa, a inveja, o orgulho ferido.

Por escrever a crônica política diária eu pago um ônus pesado. Não é agradável ver de perto a coisa pública e acompanhar o dia a dia de seus atores e personagens. A política não é bonita quando vista de perto. Quem não tem o ânimo forte e o estômago saudável, fique na plateia ou vá para casa.

Não sou ingênuo a ponto de afirmar que não gosto de política e que melhor é não saber nada sobre o assunto. Só os imbecis não entendem que a política, mesmo nos seus piores momentos, é sempre importante e decisiva. Não só para os atores em cena, mas para todos, indistintamente. Alienar-se, virar as costas, ou escolher uma reivindicação qualquer para esquecer as outras, é sintoma de burrice irrecuperável.

Mas penso que tudo isso, enfim, ainda seria até tolerável se os nossos governantes e os nossos políticos brasileiros não fossem dotados de uma ambição de mando, de uma vontade de dar ordens, de uma sede de poder absolutamente desproporcionais ao seu talento para governar.

 

 

 

A política, de perto

 

A política, mesmo em seus piores momentos, é sempre decisiva. E não só para os atores em cena, mas para todos nós que acabamos pagando o pato. Virar as costas não é remédio, mesmo sabendo-se que a política não é bonita quando vista de perto. Ela é para ser vista de distância apropriada. Quem não tem ânimo forte e estômago saudável não se meta, fique na plateia ou vá para casa.

Política é jogo bruto. Muitas vezes dominado por sentimentos e paixões que se podem chamar de negativos. A cupidez, o desejo de poder e riqueza acima de todos os outros objetivos. Além do ranço de ressentimento, mágoa, inveja, orgulho ferido. E vaidade. Muita vaidade. As grandes palavras, os programas, as ideias, os altos propósitos patrióticos servem para mover e até arrebatar partidários e admiradores, mas o que realmente anima chefes e chefetes, com demasiada frequência, são motivos pessoais nem sempre assim tão grandes ou estimáveis.

Esse é o ônus que devemos pagar, nós, os que se obrigam a ver de perto a coisa pública e a acompanhar o dia a dia dos seus atores e personagens. O jornalista deve abandonar a soberba, a crença ingênua de que faz a cabeça das multidões. A maioria mal sabe do que acontece nesse universo descolado do real que é o mundo da política. A minoria privilegiada repete as frases feitas que a mídia lhe põe na boca, enquanto a maioria dos brasileiros forma a caravana. Se os canhões de Francis Drake fossem tão eficazes quanto as nossas baterias midiáticas, ele não passaria de pescador de arrastão.

A caravana percorre seu caminho sem dar ouvidos e olhos ao jornalismo nativo e também sem questionar se o governo cuida direito de seus interesses. Berra quando a crise aperta e a miséria ronda a sua volta. De resto, segue impávido em sua vidinha. Na hora do voto, sai-se bem quem tem melhor potencial artístico. Messiânicos e demagogos compõem a maioria nos legislativos. São maioria na condução dos governos.

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Como diz meu amigo Jeff Sabbag, o pianista que também é sábio filósofo, a política é um jogo de adultos, bruto, terreno dos conflitos, mas o ideal é que seja, tanto quanto possível, um jogo limpo, com regras estabelecidas limpamente, claramente. Há esperanças. Depois da Lava Jato, voltou a valer a máxima popular que diz que a esperteza, quando é demasiada, vira bicho e acaba comendo quem a inventou. Tomara.

O demagogo paulista Ademar de Barros foi quem cunhou o slogan: “Nem esquerda, nem direita; para frente e para o alto”. Na época, como era de esperar, Ademar acabaria organizando uma companhia estatal de aviação para servir ao seu partido.

Apesar dos demagogos e populistas do tipo, houve um tempo em que direita era direita, esquerda, esquerda. Hoje não existem fronteiras ideológicas bem definidas. Nem entre os políticos, nem entre os partidos. As alianças são costuradas para atender à conveniência eleitoral do momento. É um vale-tudo. Sem pejo e sem pudores.

Pode? Pode tudo. Na geleia geral macunaímica, é possível juntar no mesmo barco nacionalistas e liberais, ex-comunistas e ex-fascistas, democratas e saudosos da rebordosa. Tudo depende de boa conversa, como se diz na linguagem eufêmica dos políticos, costumeiramente reunidos em torno de boa mesa.

Aliás, o que mais fazem os políticos nativos nesta fase de ritos propiciatórios para firmar alianças é conversar. E comer, pois os conchavos, em nossa cultura, são feitos ao redor da mesa.

Alguns chegam a seis refeições diárias. Por isso estão mais gordos, mais robustos, arfantes, nesse ritual que só terminará no dia 30, quando a lei encerra o prazo de negociações e comilanças.

 

cronicas_fabio_1_retratoFábio Campana é jornalista, poeta, escritor, com 12 livros editados, autor dos romances “O guardador de fantasmas”, “Ai” e “Último dia de Cabeza de Vaca” e dos livros de poesia “Paraíso em Chamas” e “O ventre, o vaso, o claustro.” Suas crônicas estão reunidas em volumes como “A árvore de Isaías.” Nasceu em Foz do Iguaçu, mas mora em Curitiba desde os 13 anos. Aqui trabalhou em jornais, revistas, televisão e rádio.

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