Uma visita

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Ao entrar na Rua Duvivier, pensei: talvez esta inédita sensação possa estar me fornecendo a certeza de que, finalmente, encontrei a residência perfeita do poeta.

À esquerda, um prédio, em negro mármore. Repentina visão de alguns móbiles flutuando à varanda…

Novamente a certeza. Só poderá ser ali. Apresento-me ao porteiro. Que me informa: sim, ele reside aqui, mas o senhor espere que ele foi comprar pão e já retorna…

Alguns minutos esperados sob a sombra, do dia 24 de março de 2003, numa Copacabana de 48 graus…

De súbito surge a figura atravessando a rua, de bermuda, sapatênis, e um Seiko inox no pulso. Em pleno átimo vivido tremulante, lembrei-me de Hélio Fernandes quando, em sua coluna na Tribuna da Imprensa, ressaltava o que ele denominava como os brasileiros de 3 metros de altura: Drummond, Florestan, Antônio Cândido.

Faço a abordagem inicial. Apresentamo-nos. Mais um átimo comovente. O poeta me convida – extremamente cordial – como outro brasileiro de 3 metros, Sérgio Buarque, adjetivaria o poeta, a entrar no prédio para então conversarmos detidamente.

Levei uma singela pasta contendo pinturas, desenhos. Ele, da forma mais atenciosa, fazia observações e análises; como se me conhecesse há 20 anos.

Após muita conversa, levantei a hipótese de ele fazer um texto num futuro, espécie de apresentação.

Ele adverte: “Fale com a Luciana, minha filha, acerte com ela.”

Finalizando o histórico encontro, deixei Copacabana, pensando: Eis que encontro o maior poeta vivo, realizador de obras que o consagram como partícipe inigualável do elenco dos maiores poetas de toda a nossa História. Combatente, combatido, participante e atuante do elenco do Neoconcretismo/RJ.

Seguia pelo túnel, atuando como um móbile de Cálder por entre os carros, árvores, ao sabor do vento, flutuando ao mesmo tempo que encantado ao estar tocando em nuvens, por ter ficado sentado nos ombros de um gigante…

Uma força multi-sim-Gullar tingia a orla azulando-a zunindo feito dínamo…

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