Eles, os mortos

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Somos todos imortais! Assim pensam os normais. Ninguém pensa em morrer de uma hora para outra ou mesmo daqui a cem ou duzentos anos. No entanto, uma bela manhã de verão ou numa noite fria de inverno, você recebe a notícia de que alguém muito próximo se foi. Pode ser um amigo querido, um familiar ou mesmo uma celebridade que, por alguma razão que a razão desconhece, parecia muito próxima. A primeira questão é saber se nos obrigamos ou não a comparecer às exéquias. Em geral, a regra é desmoronar quando a obrigação é ir ao funeral. Ninguém gosta! A chegada ao local já é constrangedora, com toda aquela gente circunspecta a observar aquele corpo quieto, silencioso, pálido e incrivelmente íntimo. Sim, não há mais vida naquele caixote apertado, só uma profunda e dolorosa solidão. Nas capelas ao lado, outros estão na mesma situação. Tirando o murmurinho lá fora, a quietude se faz presente naquela capela onde, pela lógica da religião professada, se deveria estar alegre, pois afinal o “privilegiado” já estaria a gozar os prazeres da eternidade no paraíso prometido, afinal os mortos são santos. Será? Não, pelo contrário, o que se vê é a tristeza e a dor, eternos companheiros daquela turma calada que aguarda seu destino final providenciado pelos vivos. Sim, são eles, os mortos.

É certo que a consciência da nossa finitude é mesmo insuportável e o apego à vida por temor à morte é incomparável com o de qualquer outro animal que vive tão somente de seus instintos. O fato é que procuramos enxergar o ente querido que ali deita inerte como alguém que simplesmente viajou, mas que um belo dia, no futuro, andará por aí saltitando de alegria, comendo, bebendo e fazendo sexo. Pura mentira! Ali está exatamente a mesma pessoa, só que dessa vez mortinha da silva. Sim, contrariando o destino que não queremos. É ela quem daqui a pouco vai ser enterrada naquele solo gélido e úmido ou cremada em alta temperatura, virando uma maldita cinza misturada a outras tantas que já passaram por aquele lugar dos infernos. Dois destinos no mínimo aterradores. O morto não vai poder espernear ou gritar que não quer ir. Vai e pronto! E é exatamente isso que apavora os fantasmas que habitam os vivos. A desgraça da finitude indesejável e ilógica vem e termina com todos os sonhos. E sem chorumelas porque nada vai mudar o maldito final que condena todos a passar por isso mais cedo ou mais tarde. E a própria Bíblia causa medo ao definir que a morte não é algo bom, ao referir, nos Efésios do apóstolo Paulo, que Jesus desceu à mansão dos mortos e depois subiu. Ora, se subiu é porque aquela mansão era algo terrível e não merecia ser habitada. Só que ninguém é Jesus para fazer uma simples visitinha e subir tão rapidamente, de modo que indubitavelmente fico imaginando, nos velórios, uma maneira de enganar a morte tal qual o médico do conto dos Irmãos Grimm, cuja ceifadora era a madrinha. Embora ele tenha tido sucesso em uma ocasião, no final viu a curta vela de sua vida se apagar rapidamente e por vingança da desgraçada. O “penso, logo existo” é uma punição da vida. Não há saída.

Então, sorumbático, só me resta ir embora o quanto antes daquele lugar medonho onde só os mortos habitam, tentando esquecer a má sorte daquele amigo ou parente morto que agora faz parte de uma imensa legião de desaparecidos aos olhos dos vivos e torcendo para que Caronte exista, já que sorrateiramente depositei naquele caixote duas moedas de um real. Retiro-me pensando o quanto é bom tentar acreditar na religião que prega a ressurreição dos mortos e a vida no paraíso para os puros. Daí outro medo bate num átimo: e se nem puro eu sou?

 

Legenda:

Caronte, ilustração de Gustave Doré para A divina comedia de Dante

 

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