Hipocondria no caminho

Em 1962 havíamos decidido ingressar em grupo no Partido Socialista, basicamente todo o time que figuraria no inquérito dos jornalistas da “Última Hora”, dois anos depois. Como a lei eleitoral sob João Goulart era igual para todos, pela vez primeira no país tínhamos o acesso ao rádio e à TV gratuitos e me coube em parte a montagem desse programa. Como não dispúnhamos de “inserts”, sinalização gráfica, procurávamos acentuar a diferença entre o PSB do João Mangabeira do PSP do Ademar de Barros soletrando peéssebê, bê de Brasil, aí quase no tom do Galvão Bueno. E foi nesse momento que a minha voz caiu, mais baixo que os índices do presidente Michel Temer.

Poucos minutos depois o médico Hélio Brandão, o pai dos endoscopistas, ligou pra mim e intimou: “sete e meia de amanhã em jejum no Hospital Nossa Senhora das Graças!” Para um hipocondríaco a coisa teve um impacto daqueles e lá fui eu para a clínica descobrir a causa. Só que além de ser capaz de somatizar sintomas me transformei num agitador, meio terrorista da causa: alguém se apresentava com rouquidão, queda da voz e lá vinha a minha orientação sentenciosa de procurar um endoscopista.

Roucos tradicionais como o advogado Mário Jorge e o deputado Agostinho Rodrigues não escapavam dos meus alertas e assim vi muitos deles transitarem da clínica à cirurgia, trajeto que também fiz com resultado de biopse benigna, vegetação tumoral, ainda bem.

Várias pessoas dentre os recomendados preferiam ir a uma dessas mediadoras espíritas que atendia massas na localidade de Alexandra no litoral, dentre elas um procurador de justiça que para minha surpresa fora operado e perdera as cordas vocais. Eu conversava com o desembargador Guilherme Albuquerque Maranhão na Boca Maldita quando ele se aproximou com aquele tom dramático na comunicação e em seguida se afastou. Somatizei o quadro a tal ponto que perdi inteiramente a voz por mais de um minuto. Introjetar a hipocondria é um exercício que só vira anedota muito depois.

Numa tarde, na “Boca do Brilho”, instalação de engraxates, mas também de cafés, bancas de jornal, petiscaria e restaurante na Praça Osório, estava numa roda de amigos quando um médico de Maringá pôs-se a falar sobre doenças pulmonares como o enfisema e passei a relatar o que “vivenciara” sobre a temática. Aí o Aníbal Curi, que estava na roda, cortou a dissertação para me lembrar que quem estava tratando do assunto era um profissional da saúde.

— Doutor, qual a sua área?

— Clínica geral.

— Então ganhei porque sou mais do que isso, sou hipocondríaco e ninguém nos supera. Ninguém “vive” os nossos males como nós.

Felizmente passou, mas às vezes me sinto oprimido por palpitações que quase sempre não passam de palpites.

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