Ópera no cinema

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Nas salas digitais de hoje, vemos programadas algumas sessões especiais com óperas e balés, produções de teatros mundiais famosos. Mas claro que isto não é cinema, é teatro gravado. Todavia foram produzidas verdadeiras obras-primas cinematográficas com óperas. Eis algumas delas.

jensen1_dongiovanni“Don Giovanni”, de W. A. Mozart, foi produzida por Michel Seydoux para a Gaumont francesa em 1979, com direção de Joseph Losey. O americano Losey foi colocado na lista negra em 1951 por seus filmes esquerdistas. Proibido de trabalhar, foi para a Inglaterra, onde, com extensa filmografia, ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo filme “O mensageiro” (The go-between, 1971) com Julie Christie e Alan Bates. No elenco deste filme operístico, Ruggero Raimondi, John Macurdy, Edda Moser, Kiri Te Kanawa, Kenneth Riegel, Jose van Dam, Tereza Bergança e outros. O filme conta ainda com a orquestra e o coro da Ópera de Paris sob regência de Lorin Maazel. Filmando na Villa La Rotonda, na região de Veneto, na Itália, Losey soube ser fiel à música, ao canto, a Veneza e às suas paisagens, reforçando seu estilo pessoal barroco. Usou os recursos do cinema para colocar em relevo a música de Mozart e os intérpretes, também como atores, suas aparências e fotogenias, o que na tela torna-se imprescindível, não basta ser um cantor excepcional. A trilha sonora foi gravada numa igreja de Paris e saiu em disco pela Columbia, apesar do desejo do diretor que queria evitar a dublagem, criticada por alguns puristas. Porém, é impossível conseguir um bom som sem as condições acústicas de um ambiente controlado para uma grande orquestra, cantores e coro. Losey exigiu que os recitativos fossem feitos durante as filmagens, pois eram só os cantores e o cravo. Nesta luxuosa transposição, os movimentos de câmera fluem graciosamente entre os participantes, com fotografia, direção de arte e figurinos primorosos. Mesmo que você não seja fã de ópera, deve ver esta obra-prima, que suponho nunca foi lançada em nossas telas, mas saiu uma versão em DVD duplo restaurada em Dolby digital 5.1. com imagem e som maravilhosos.

jensen2_carmen (1)“Carmen”, de Bizet, teve versão apontada pela crítica na época como definitiva para o cinema, dirigida pelo italiano Francesco Rosi. Considerado um cineasta político, ganhou a Palma de Ouro pelo polêmico “Caso Mattei” (Il caso Mattei, 1971) com Gian Maria Volonté. Esta Carmen foi produzida por Patrice Ledoux também para a Gaumont francesa, com Placido Domingo, Julia Migenes-Johnson, Ruggero Raimondi, Faith Esham e outros. As músicas foram interpretadas pela Orquestra Nacional da França, pelo coro e coro infantil da Radio France, regidos por Lorin Maazel. Antonio Gades assina a coreografia. O cenógrafo Enrico Job e sua equipe transformaram as locações da Andaluzia espanhola em ambientes do século 19 magnificamente fotografados por Pasqualino De Santis. A soprano americana Julia Migenes treinou por dez meses para chegar sua voz ao mezzo-soprano do papel de Carmen. Além de sensual, Julia revelou-se uma grande atriz, trazendo vivacidade e garra como exigida pela personagem. Quanto a Placido Domingo, o tenor já era um veterano nos palcos, além de também ótimo ator. Esta produção orçada em 6,5 milhões de dólares estreou em Paris em março de 1984. Pauline Kael, crítica do The New Yorker, escreveu que “Carmen tem clareza, crua vivacidade e é extremamente romântico. As locações parecem ter sido criadas por um mestre da cenografia”. Esta produção passou no Cine Ritz da Fundação Cultural de Curitiba. Foi maravilhoso vê-la em tela grande, apesar do som chinfrim daquele cinema.

“A flauta mágica”, de Mozart, com direção de Ingmar Bergman, em 1975, foi concebida como uma homenagem ao teatro, grande paixão do diretor sueco. Com cenas de bastidores, não é considerada uma transposição de ópera para o cinema. Também passou no Cine Groff da FCC.

jensen3_pagliacciFranco Zeffirelli começou no teatro como cenógrafo, depois dirigindo principalmente óperas. No cinema firmou-se como diretor com dois sucessos: “A megera domada” (The taming of the shrew, 1967) com Elizabeth Taylor e Richard Burton,  e logo depois “Romeu e Julieta” (Romeo and Juliet, 1968) com Olivia Hussey e Michael York. Entre outras produções, em sua filmografia constam óperas transpostas para a tela: “La traviata”, de Verdi; “Pagliacci”, de Leoncavallo; “Cavalleria rusticana”, de Mascagni, todas de 1982, além de “Otello” de Verdi, em 1986. Estes filmes só chegaram até nós por vídeo e valem a pena pela direção de arte, ambientação e cantores como Placido Domingo, Elena Obraztsova, Teresa Stratas, Juan Pons e Renato Bruson. Em “Cavalleria rusticana”, Zefirelli utiliza todas as vantagens de filmar em campos e vilas da Sicília, incluindo uma linda igreja barroca de pedras vulcânicas. Já em “Pagliacci”, optou por cenários deliberadamente claustrofóbicos como de pequeno palco, tendas circenses e reproduzindo uma pobre vila da Calábria, nos anos entre guerras em que situou a ação.

Existem ainda muitas óperas feitas para a televisão, que foram posteriormente distribuídas em DVD no Brasil, mas que também não podem ser consideradas cinema. Por exemplo, “Madame Butterfly”, de Giacomo Puccini, que ganhou uma versão para a TV alemã em 1974. Dirigida por Jean-Pierre Ponnnele,  tinha no elenco Mirella Freni, Placido Domingo e Christa Ludwig. A direção musical coube ao renomado Herbert von Karajan com a Filarmônica de Viena.

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