Os sete pecados capitais e a MPB – Parte I

adriana0abre

Aqui, embalada pela publicação de “Sete confissões capitais e outros pecados”, comecei a pensar sobre a MPB e os vícios condenados pela Igreja. A música brasileira se aventura pelo assunto de várias formas. E, se olharmos com a lupa do tema, quase toda ela é formada por pecados, pecadinhos e pecadões, capitais ou não.

Acho que antes de entrar para valer nas citações habituais da coluna, tenho obrigação de falar um pouquinho sobre isso. Num ato de vaidade, recorro ao meu próprio livro (que pode ser encontrado nas melhores livrarias da França, Europa e Bahia).

Os sete pecados capitais não estão na Bíblia. Eles têm raízes anteriores ao cristianismo. Mas foi a partir da Igreja, e da necessidade de regrar o comportamento dos fiéis e chamar os hereges para dentro das cercas da boa conduta, que se popularizaram.

Capital deriva de “caput”, no sentido de cabeça, líder, chefe, parte principal. Pecado deriva da gente mesmo, desde que o mundo é mundo – ou, se você preferir, no bom e definitivo latim, peccātum: falta, culpa, delito, crime. Um pecado é capital quando ele encabeça uma lista de outros; quando ele dá à luz outros pecadinhos e forma gigantesca família, que em encontros de domingo podem causar muito tumulto na ordem do mundo.

Com isto posto, também preciso dizer que minha primeira tentativa dessa edição resultou numa redação única com os setes pecados e seus exemplos musicais. Terminei o texto frustrada, com uma série de músicas na manga e a vontade de compartilhá-las. Por isso cheguei à conclusão de que cada pecado merece um pouco mais de tempo, de dedicação, de proveito, como tem que ser. Inicio aqui a série “Sete pecados capitais e a MPB”.

Pronto. Vamos à primeira lista.

 

Parte I: Preguiça

A acídia virou, no vulgar dos séculos e na perda da linguagem, preguiça. Hoje em dia ela desfila de várias formas na música. Começo pelo óbvio: Tim Maia e sua sempre, sempre, sempre atual Sossego. Longe de mim fazer qualquer tipo de autópsia na obra de Tim, de quem sou fã de carteirinha, mas é um fato inegável que a música é dos Booker T. and the MG’s, banda soul norte-americana do início dos 1960. Naquela época, as coisas aconteciam de um outro jeito, vai, e Tim Maia fez uma espécie de “homenagem” aos instrumentistas. Pegou a composta e gravada Boot leg, esticou daqui, puxou dali e lhe tascou letra. Como algumas partes foram suprimidas e outras inventadas de leve, dá até para dizer que não foi roubo nem plágio, que se tratou de uma inspiração e pronto. Procure no YouTube os Booker T. and the MG’s em Boot leg para você ouvir que sonzeira.

Mas aqui, o que importa é a letra de Tim: “Ora bolas, não me amole / Com esse papo, de emprego / Não está vendo, não estou nessa / O que eu quero? / Sossego, eu quero sossego / O que eu quero? Sossego”.

Porque este homem com voz de trovão tinha cento e tantos quilos e muitos gramas de irreverência, em seus shows ele respondia ao verso “O que eu quero?” com variações de suas preferências: “um quilo do bom”, “um quilo de skank”, “a branca pura” e por aí vai.

Só mais uma coisinha sobre essa música. Em 2001, o Guns N’Roses veio para o Rock in Rio e, tratando em bom português, cantou a Sossego de Tim. É verdade que o soul dançante virou um rock com guitarra esganiçada e as frases foram pronunciadas com aquele sotacão de quem não domina a última flor do Lácio, mas foi bonito ver a multidão cantando junto e aplaudindo.

adriana1Próxima parada nessa espreguiçadeira da MPB, a música de Kassin, Tranquilo. Kassin é um pé da tríade X+2, que muda de nome conforme o projeto. Eles são Moreno Veloso, Domenico Lancelotti e Alexandre Kassin (ou Moreno+2 ou Domenico+2 ou Kassin+2, a depender da época). Pois bem, a música em questão é um relax total, coisa para ouvir bem devagarinho, pouca luz, naquele conforto quase cochilo. Se você não conhece, corra, mas devagar, procurar. Além do Kassin, a Thalma de Freitas gravou, Bebel Gilberto também. E nessa composição ainda há o diálogo com outros vícios capitais, mas de outra forma. Quando você ouvir, vai entender. “Tranquilo, levo a vida, tranquilo / Não tenho medo da morte / Não vou me preocupar / Que passe por mim a doença / Que passe por mim a pobreza / Que passe por mim a maldade / A mentira e a falta de crença / Que passe por mim olho grande /Que passe por mim a má sorte /Que passe por mim a inveja / A discórdia e a ignorância”.

Mario Lago, este homem imortal em tantos afazeres, pintou a MPB de maneiras divertidas, comoventes, dramáticas, melancólicas e, claro, pelo menos uma vez, preguiçosa. Em 1973 escreveu Salve a preguiça, meu pai, que foi lançada por Beth Carvalho no álbum Canto por um novo dia. A música não foi um estouro porque estava muito bem acompanhada das colegas A velhice da porta-bandeira (Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro) e Folhas secas (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), mas mesmo assim tem que ser lembrada, lembrada até, quem sabe, entrar para os sucessos do compositor: “Com meus pés, não vou / Venha me buscar / Mas só vou de colo / Pra não me cansar”.

Achei que não dava para passar pelo tema sem citar Dorival Caymmi, gênio da raça que escreveu, pintou, atuou e mesmo assim é apontado como um expert no assunto preguiça.

Caymmi era outra coisa, coisa que nascia de uma natureza lenta, gostosa, sonolenta, tranquila, mas nunca improdutiva. Por isso, em vez de buscar em sua obra um exemplo para o assunto, recorro a Toquinho e Vinícius de Moraes e assim vão-se dois, três, coelhos de uma vez só: “Um velho calção de banho / O dia pra vadiar / Um mar que não tem tamanho / Um arco-íris no ar / Depois da praça Caymmi / Sentir preguiça no corpo / E numa esteira de vime / Beber uma água de coco”.

Sei, por experiência e audição, que ainda há muito na MPB sobre o assunto e que leitores mais exigentes devem estar a me xingar por eu parar por aqui. Mas tenho cá minhas razões, uma delas é o tamanho da coluna, outra a preguiça. Assim, nesse clima malemolente, tipo o Violão vadio de Baden Powell que é apesar de não ser, vou colocando umas reticências na edição deste mês (porque ponto final é coisa muito pesada para quem está entregue a essa moleza de matéria) e me despeço, mas só depois de lembrar de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano em De papo pro ar: “Não quero outra vida / Pescando no rio de Gereré / Tem um peixe bom / Tem siri patola / De dá com o pé / Quando no terreiro / Faz noite de luar / E vem a saudade / Me atormentar / Eu me vingo dela / Tocando viola / De papo pro ar”…

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