Suicídio e filosofia

edmilson

Seu Armando é um paciente meu de 90 anos, exemplo de alegria de viver. Nascido na Espanha, veio ao Brasil ainda criança. Aqui fez sua vida de maneira dura e digna (segundo ele). É meu paciente há 20 anos e, dentre as diversas comorbidades que o acometem, a mais limitante é uma doença pulmonar crônica, sequela dos anos de fumante. Necessitando hoje de oxigênio contínuo, não se incomoda de levar o cilindro para lá e para cá, a quem apelidou carinhosamente de “mascote”. Viúvo há 10 anos, desde então não fuma mais. Homenagem à esposa que tanto o aconselhava com relação ao cigarro, porém os pulmões já estavam comprometidos.

O que mais me chama atenção nele são seus hábitos sociais regulares, independentemente de suas dificuldades.

Encontra-se com amigos diariamente em um bar próximo de sua casa, onde jogam conversa fora.

Uma vez por semana, frequenta um baile da terceira idade, onde, após reforçar o oxigênio, consegue dançar umas duas músicas. Diz ter duas “garotas” de 70 anos muito interessadas nele, mas não quer compromisso sério, brinca.

Reúne filhos e netos no almoço aos domingos em sua casa. Vez por outra ele mesmo faz uma paella para manter a tradição.

Gosta de um bom vinho espanhol e, como único arrependimento na vida, lamenta o dia em que começou a fumar.

Luta com unhas e dentes pela vida. Vai regularmente às consultas e declara: “Doutor, essa vida é boa demais para eu abandoná-la. Quando eu morrer, vou sentir saudades de mim mesmo”, completa.

Vocês devem estar se perguntando o porquê deste relato. É que fiquei estarrecido com a notícia da morte do chef Anthony Bourdain, 61 anos, no mês passado, por suicídio, em um quarto de hotel.

Apresentador famoso, conhecido mundialmente, conduzia um programa muito bom sobre gastronomia pelo mundo, já tendo estado no Brasil algumas vezes. Boa pinta, levava uma vida de dar inveja a muitos. Demonstrava bom humor e alegria. Viciado em heroína, vinha em crise no seu relacionamento amoroso.

Sem entrar no viés da droga, pois compromete em muito as funções cerebrais, gostaria de me ater à questão filosófica do sentido e do valor da vida. Como pode alguém atentar contra ela?

Olho Seu Armando e fico imaginando toda sua dificuldade diária em viver, em função do desgaste de seus 90 anos, somado a todas as comorbidades que enfrenta e que o limitam. Limitam? Tentam, mas não conseguem, ele simplesmente não as aceita e as vence todos os dias com determinação e vontade.

Já vi pais internarem filhos; pessoas receberem implacavelmente diagnósticos de cânceres malignos; acidentes trágicos dos mais diversos e, mesmo assim, essas pessoas, apesar de toda dor, mantiveram-se vivas, na esperança de dias melhores.

Mas olhemos apenas Seu Armando e o chef Bourdain. Como pode tanta alegria e vontade de viver de um, apesar de todas as dificuldades e já tendo vivido tanto, comparada a uma situação tão confortável, com 30 anos a menos e com tantas benesses do outro? Um dia Bourdain declarou: “Não conheço ninguém com mais vontade de morrer do que eu mesmo”.

Explorando nossos filósofos e pensadores antigos, lembremos Arthur Schopenhauer, que tinha como uma de suas características principais uma manifestação exemplar de pessimismo filosófico. Uma de suas máximas era a ideia de que o sofrimento é positivo, pois se faz sentir. O que chamamos de felicidade é negativo, no sentido de que não a percebemos. Ainda na sua concepção, viver é sofrer. Duas pérolas chancelam suas ideias: “Uma vida feliz é impossível. O máximo que se pode ter é uma vida heroica”. A outra: “Hoje está ruim e cada dia vai piorar até o pior acontecer”.

Mesmo diante de todo o seu realismo pessimista, não cometeu suicídio e morreu aos 72 anos.

Para onde caminhamos? Que vazio existencial é esse que não permite que algumas pessoas acreditem no amanhã?

No mundo todo se observa um aumento no número de suicídios. Impressionantemente entre os jovens. Algo alarmante que merece atitudes imediatas por meio da educação, com ensino nas escolas, desde o primário, de matérias ligadas à filosofia, fazendo nossos jovens pensarem mais, dando-lhes conteúdo, mostrando-lhes um mundo real. Estão muito ligados à tecnologia, achando que este mundo é virtual. Apresentam vazios existenciais enormes sem respostas adequadas.

Há um distanciamento do contato familiar contínuo, não se fazem mais as refeições juntos. Cada um com uma TV no quarto ou ligados em seus celulares, durante os encontros.

É bem verdade que vivemos em uma época de necessidades extremas de trabalho, com deslocamentos grandes e muita perda de tempo. Ainda assim se valorizássemos o pouco tempo que temos e privilegiássemos nossos filhos com bons diálogos e exemplos, talvez começássemos uma mudança importante em seus conceitos, preenchendo um pouco mais o vazio que os possa estar afligindo.

Para contrapor Schopenhauer, Nietzsche e outros filósofos pessimistas, temos Tales de Mileto, Aristóteles e Epicuro que, fundador da escola da felicidade, postulava que o equilíbrio e a temperança dão origem à felicidade.

Feliz ou triste, otimista ou pessimista, doente ou saudável, jovem ou idoso, não importa. A vida é uma experiência maravilhosa que deve ser vivida em sua plenitude. Todos os momentos contam. Todos fazem parte de nossa história. É um livro sendo escrito. Que o último capítulo seja obra do universo e não de um desejo de abreviar seu final.

 

Legenda: Anthony Bourdain

 

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