Da arte de vender candidatos e chocolates

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Chegadas as eleições, é hora de fazer de candidatos personagens; o Paraná já tem seus modelos colocados

 

As eleições regulares são um dos sintomas do funcionamento pleno de um sistema democrático. Se não são por si só garantidores de tal democracia, vide a Venezuela e seu fetiche por eleições deformadas, são, ao menos, o passo fundamental para alcançar o objetivo.

Se tem um notório efeito benéfico, a repetição regular do pleito também o faz perder encanto, transformando-o em um produto comum, chinfrim, desprovido de valor. Os americanos, é claro, perceberam isso faz muito tempo. Eles elegem presidentes regularmente desde 1789. Se para nós, brasileiros e latino-americanos, votar ainda remete a apupos de patriotismo brega, para a maioria dos norte-americanos a eleição tornou-se uma espécie de incômodo esperado e com hora marcada. A eleição seria como cortar a grama do jardim ou marcar presença na confraternização de fim de ano do trabalho. A diferença lá é que não ir votar não acarretaria nenhum efeito mais grave como transformar a casa em uma floresta selvagem ou ser visto como arrogante e antipático pelos colegas de trabalho.

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Se a eleição era um produto encalhado e com cara de velho, portanto, a solução seria tornar seus protagonistas mais atraentes. Os candidatos precisavam de um banho de marketing. Possivelmente o primeiro a levar o preceito a sério foi o republicano Dwight D. Eisenhower que, em 1952, contratou um publicitário que vendia chocolates para coordenar sua campanha. Rosser Reever aproximou Eisenhower do cidadão comum levando à televisão uma série de inserções curtas que traziam o republicano respondendo a diferentes questões dos eleitores. Deu certo e Eisenhower quebrou uma sequência de vinte anos de democratas na Casa Branca.

O BRASIL E A ALDEIA

No Brasil os nossos Joões Santanas parecem também ter aprendido a lição, especialmente nos últimos trinta anos. Do mesmo modo, na aldeia, é do marketing que depende o fracasso ou o sucesso de nossos postulantes.

Na sua lição básica, o marketing político vende o candidato como produto e como tal apresenta características que o gabaritem. Se um chocolate pode ser ao leite, meio amargo e um vinho pode ser tânico ou frutado, um candidato também precisa ser isto ou aquilo, com, é claro, grau variado de compromisso com a realidade.chocolate_eisenhower2

O exemplo evidente de sucesso dessa construção é o de Lula, que, para o bem e para o mal, tornou-se a personificação moderna do “Pai dos Pobres” construído inicialmente por Getúlio Vargas. Animal político de talento único, ele dá as cartas da política nacional há vinte anos carregando o estigma do retirante nordestino, do metalúrgico, do homem que tirou sabe-se lá quantos bilhões da pobreza no Brasil.

Caso peculiar de sucesso do marketing é o de Dilma Rousseff, sucessora de Lula. A clara e manifesta inaptidão política de Dilma foi contornada com um trabalho tecnicamente exemplar, ainda que moralmente discutível de João Santana. A simples bênção de Lula poderia não ser suficiente e Dilma precisava de algum predicado. Criou-se a gerentona. A mulher que colocava a mão na massa e tocava o país trabalhando de sol a sol. Visto com os olhos de hoje, parece um caso para a delegacia do consumidor, mas a referência tem seu caráter histórico. A militância tradicional da esquerda tinha ojeriza pela maioria dos valores burgueses da sociedade, mas, a seu modo, compartilhava com o grosso da população o

reconhecimento da abnegação e do trabalho duro. Simon Sebag Montefiori, em sua monumental biografia sobre os anos de Joseph Stálin (“Stálin, a Corte do Czar Vermelho”), descreve as jornadas de 15, 20 horas de trabalho dos burocratas soviéticos na primeira metade do século XX. Eles estavam dispostos a construir não só um novo país, mas um novo homem e isso exigia esforço, noites em claro e, obviamente, uma multidão de cadáveres.

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OS PERFIS DA ALDEIA

Na aldeia, hoje, há três perfis postos para o eleitor nas eleições do governo. O PT colocou-se fora do debate. O próprio conceito de subjetividade foi perdido pelo partido na sua cruzada religiosa por Lula. Doutor Rosinha é apena um meme Lula Livre de internet. Nada mais.

João Arruda, o candidato do MDB, é um deputado que soube emergir do baixo clero de Brasília. Tem formação e capacidade, mas sabe que a eleição para governador não guarda nenhuma relação com a de deputado federal. Arruda tentará aparecer como uma versão mais palatável e arejada de Roberto Requião. Boa sorte para ele. Nunca ninguém conseguiu tal feito até hoje, em parte talvez pela própria singularidade de Requião. Ainda que fique pelo caminho no primeiro turno, Arruda já fez abrir um sorriso na tropa do MDB. Requião caminha para o final da carreira com amargor e um amor inexplicável pelo PT. O filho Maurício ainda precisa amadurecer, dizem prefeitos e vereadores emedebistas. Arruda é, a seu modo, o sucessor natural do tio.

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Cida Borghetti, pelo que se viu, será vendida como a mãe de todos os paranaenses. Preocupada, sensível e emotiva. É difícil de fato encontrar quem na política nativa seja maldizente com a governadora. O que não significa de maneira nenhuma que a estratégia garanta sucesso na campanha. Caberá aos marqueteiros mostrar que Cida é sim uma candidata de verdade e não o produto das articulações políticas do marido, o deputado federal Ricardo Barros.

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Ratinho Junior, por fim, investe num combo que de quando em quando ressurge: o do jovem dinâmico, de perfil empresarial. Junior tem feito bem a lição de casa e impressionou a nata do agronegócio no estado reunida na Faep. O deputado vai apostar no discurso de valorização da iniciativa privada, da modernização do estado e da busca por uma máquina pública mais ágil e leve. É uma beleza na propaganda, é claro, mas difícil de ser implementado sem comprar briga séria com as guildas do funcionalismo. É esperar para ver.

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