O que havia e o que resta: pinturas de Estela Sandrini

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A exposição O que já havia e o que resta: pinturas de Estela Sandrini traz 30 obras inéditas da artista visual e agente cultural paranaense Estela Sandrini. Trabalhos vigorosos, produzidos com a ajuda dos olhos da memória e da sua incessante necessidade de criar.

Nas palavras da professora, curadora e crítica de arte Maria José Justino, Estela “só se mostra por inteiro na vivência impetuosa com a arte”. Em seu trabalho, a cor funciona como maneira de existir no mundo e de representar o real. O crítico Fernando Bini é certeiro ao apontar que “é na cor que ela mostra a sua liberdade plástica e toda a sua sensibilidade, fundamento de seu compromisso social e político quando provoca a reflexão, seja pelo desvendamento do universo feminino ou pela revolução cromática”.

Dona de vasta experiência no mundo das artes, Estela é formada em pintura na Escola de Música e Belas Artes do Paraná e especialista em Antropologia Filosófica pela Universidade Federal do Paraná. Trabalhou no ateliê do professor Juan Carlo Labourdette, em Buenos Aires, e no Maryland Institute of Art, nos Estados Unidos.

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Participou de diversas exposições coletivas e individuais dentro e fora do país, em instituições como a Fundação Cultural de Curitiba (PR), Katzenstein Gallery (EUA), Brazilian-American Cultural Institute (EUA), Museu de Arte Contemporânea do Paraná (PR), Galeria de Arte Banestado (PR), Fundación Centro de Estudios Brasileños (AR), Museu Metropolitano de Arte de Curitiba (PR), Art at Format (EUA), Conjunto Cultural da Caixa, (BA), Ecomuseu de Itaipu (PR), Centro Cultural Jorge Luis Borges (AR), Embaixada do Brasil (PAR), Galeria de Arte do Banco Itaú (SP). De 2011 a 2017, foi diretora cultural do Museu Oscar Niemeyer. Foi selecionada e premiada em diversos salões oficiais pelo Brasil.

O que já havia e o que resta: pinturas de Estela Sandrini apresenta uma artista coerente, cuidadosa e em plena força criativa.

SERVIÇO

Abertura: dia 18 de agosto de 2018 (sábado), a partir das 10:00 horas.

Encerramento: dia 28 de outubro de 2018.

Local: Instituto Internacional Juarez Machado, Rua Lages, 994 – América – Joinville/SC

 

 

Estela (Teca) Carmen Pereira Sandrini

 

Desenhista, escultora, gravadora, pintora, professora e agente cultural

Desde 1968 se dedica principalmente ao desenho e à pintura; a escultura lhe serviu para se libertar da forma e lhe dar a noção de espacialidade. A sua responsabilidade social e política, que sempre está presente na sua obra, também é de extrema importância seja como agente cultural no processo administrativo, ou seja, na atividade de incentivadora e professora de arte.

Apesar de grande desenhista, pois é uma artista essencialmente gráfica, é a cor o que sempre a atrai, lembrando Paul Klee quando se decide pela pintura: “A cor me possui. Não preciso ir atrás dela. Ela me possui para sempre, eu sei. Esse é o significado dessa hora feliz: a cor e eu somos um. Sou pintor” (Diários, 16/04/1914).

Em Buenos Aires, quando começou a estudar escultura, trabalhou com a figura humana, abandonando gradativamente os resquícios acadêmicos da Escola de Belas Artes. Nesse momento, seus trabalhos apresentavam figuras femininas nos afazeres domésticos, cabeças bicudas como aves, mulheres gordas, agigantadas ou objetos caseiros. Esse espaço da copa e da cozinha começa a ser sintetizado com janelas, gavetas ou cadeiras: “A cadeira representa a espera, o descanso e o pensar”, diz Teca. Seus quadros transpiram uma angústia, a dúvida da artista ou a dúvida de ser artista; é uma pintura enjaulada, contida dentro de uma parede – “a prisão da pintura”, ou melhor, a necessidade da pintura como algo existencial, íntimo e apaixonado; no entanto, aquelas cenas enigmáticas vão se transformando predominantemente em cor.

A forma ortogonal das gavetas, das grades, das janelas ou das cadeiras vai se tornando elíptica até formar um todo colorido. Pintura como cor até a exaustão. Lentamente o centro das telas vai clareando, expulsando os objetos para as suas bordas, que partem do cinza, ao creme e ao branco. Ficam os vestígios desses objetos, como os sons de uma música ao longe (a música, a sua fiel companheira), “texturas, transparências, planos, matizes, tonalidades, luz” e também “sombras e gestos”.

As linhas não foram abandonadas, é como se a artista partisse de um tratamento geométrico e as balizasse pelos vestígios de uma perspectiva paralela, mas é na cor que ela mostra a sua liberdade plástica e toda a sua sensibilidade, fundamento de seu compromisso social e político quando provoca a reflexão, seja pelo desvendamento do universo feminino ou pela revolução cromática.

Teca busca sempre a novidade, mas sua pintura é sempre a mesma: questionadora, com vontade de querer fazer, de se sentir no mundo, de existir; “fome de pintura”, de “pintura como pintura” na explosão do colorido. “Sonhar em vão” a sensualidade da cor, na magia da pintura que no início é “fantástica” e que, no fim, deixa todas as dúvidas, mas “sem sentir o medo da loucura consentida” e com “nada de limites entre o visual e o emotivo”. Sua pintura é tátil, pois é a mão e as pontas dos dedos que dividem o trabalho com a espátula e o pincel nessa “necessidade de traduzir o invisível” (Teca), construções que partem da memória da artista e se transformam em grandes massas policromadas.

É uma pintora verdadeira e sincera, coerente desde seus inícios, uma profissional que domina sua técnica com cuidado, deixando, contudo, as portas abertas para o diálogo com o espectador, uma pintura que é de questionamentos o tempo todo e que provoca nesse espectador o mesmo prazer, a mesma angústia e as mesmas dúvidas experimentadas pela artista.

 

FERNANDO A. F. BINI (Professor e crítico de arte, Julho de 2018)

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Estela Sandrini – A memória da cor

 

Repetindo a mesma forma até o cansaço, fazendo verdadeiras progressões matemáticas, banindo a mão do artista e recorrendo à fabricação industrial, os minimalistas produzem uma arte que, não raro, resulta impessoal, cerebral e fria. Estela Sandrini também repete à exaustão suas cadeiras, atingindo a saturação, mas no ponto mesmo em que se cruzam é que se distanciam métodos e principalmente resultados. Sem o rigor da ciência, nem tampouco reduzindo sua atuação física, a mão lhe é fundamental, por isso mesmo suja suas telas de subjetividade, apresentando uma arte apaixonada.

Sandrini precisa dessa materialidade. Independentemente das escolas e dos movimentos, constrói um trabalho em escala pessoal. Cézanne pintou inúmeras vezes a mesma montanha, a eterna Saint-Victoire; Monet, as ninfeias; Donald

Judd, os módulos geométricos… Sandrini continua atrás dos objetos domésticos. Tudo se resume na casa, é ela ainda o sentido de sua pintura. Só que agora essas tralhas aparecem de forma camuflada, quase invisíveis, ocultas pelas manchas, ora incompletas na sua presença (fragmentos de objetos), ora completas na não presença (os vazios das cadeiras e das gavetas).

Passional, dramática, bruta na lida com os pincéis, é moldada quase exclusivamente pela cor e pela paixão de pintar. Cézanne dizia escutar a pintura. Diante das Noces de Cana (Veronese), ordenava “Feche os olhos, aguarde, não pense em nada. Escute-as.” Nossa artista pratica esse exercício. A diminuição da visibilidade, de que vem sofrendo, vai conduzindo-a a pintar quase de memória. Hoje, ela escuta a pintura muito mais do que a vê, e dessa espreita auditiva advém a visão. Ela pinta o invisível do visível pela riqueza da memória e pela relação biológica com a cor. Tudo se passa por meio da luz, pois, com a dificuldade que tem, é esta quem lhe oferece o contraste. Mas a luz, que ilumina, também cega. É quando então a artista tira partido do silencioso branco. Sua pintura permanece com traços fortes, só que, mais do que linhas, agora são pinceladas grossas de cor, buscando sempre atingir a essência dos vermelhos, dos terras, dos azuis. Mesmo quando são visíveis, os traços nada mais são do que o derramamento de cores.

Sandrini encontra prazer em pelejar com o banal. Do interior da trama doméstica, a seleção pela cadeira e pelas gavetas (lugar do segredo, dos escondidos, mas também das revelações: as gavetas se fecham, mas também se abrem) quase reclama uma psicanálise. Não é o caso. Ela exercita sua angústia pela pintura. Seus últimos trabalhos invadem nosso espaço com explosões de cores, trágicas e sensíveis, a química familiar da cor nos regalando com soberbas imagens poéticas. Charles Fourier foi iluminado ao perceber que o homem está todo inteiro nas suas paixões. Sandrini só se mostra por inteiro na vivência impetuosa com a arte.

 

Maria José Justino

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