Os novos atores da velha novela

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Petistas e tucanos já não ocupam os papéis principais

 

Duas potências políticas perderam musculatura nos últimos quatro anos no Paraná. O PT pelos escândalos de corrupção na República que destronaram Dilma Rousseff e colocaram na cadeia o caudilho maior Luiz Inácio Lula da Silva. Levou à prisão e ao opróbio mais uma penca graúda de petistas de discurso bolivariano e mãos de Al Capone. Aqui, na terrinha, o PT concorre apenas para ganhar espaço para o proselitismo Lula livre. De resto, vexame.

Outro partido que virou mingau no Paraná foi o PSDB. Os tucanos parecem, afinal, convencidos de que não adianta emplumar-se de pássaro tropical se o povo não entende o pio. O pessoal de alto coturno do tucanato nativo trocou figurinhas sobre a semana que entra e é considerada decisiva, porque se inicia a campanha eleitoral na televisão. E saíram amargurados.

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No Paraná subiram as estrelas do PP de Cida Borghetti e seu amplo leque de aliados. E temos o retorno do MDB, com João Arruda candidato a governador e Requião na posição de favorito para o Senado. No outro canto do ringue, o aglomerado que se formou em torno de Ratinho Jr, candidato popular e esperança dos desvalidos de todas as cataduras.

Há boa dose de decepção no poleiro tucano. A rapaziada vive em estresse. Pudera. Apesar dos esforços, o presidenciável Geraldo Alckmin não sobe nas pesquisas nem com reza braba. Outra constatação de tucanos nativos é a de que a insistência no discurso de pitbull contra Lula mostrou-se insuficiente para mudar a tendência do voto da maioria dos brasileiros. É preciso apresentar um projeto alternativo para o país.

No Paraná o PSDB procura manter, para o público externo, a cara de despreocupado. Mas não consegue disfarçar o suor frio nas mãos, a tremedeira nas juntas e a depressão que o medo costuma causar. Não há como esquecer o desastre que lhe trouxe a série de denúncias de corrupção nunca antes imaginada no Paraná.

 

RESISTÊNCIA

A governadora e candidata à reeleição, Cida Borghetti, bem que se esforça para dar ao debate político uma dose de substância que a diferencia dos demais candidatos. Ela propôs aos representantes do setor produtivo paranaense a elaboração de um grande projeto de visão de futuro e planejamento estratégico de longo prazo, chamado de Masterplan Paraná 2053.

O que ela não consegue parar ou prever são os rumos que podem ser dados pela intervenção judicial ou policial na política nativa. Ainda estão em curso a Operação Quadro Negro, que ouve delações cabeludas. A do diretor-geral do DER no governo Richa, Nelson Leal, é devastadora. Mais até que a de Maurício Fanini, que entregou o esquema de desvio de verbas destinadas à construção e reforma de escolas públicas. Não foi sem razão a resistência em todos os partidos a uma coligação com os tucanos. Acabou acontecendo, na marra, com o PP e a candidatura de Cida Borghetti a governadora. Aliança que o PSDB tratou logo de conspurcar. Estabelecido o acordo, por pressão dos demais partidos aliados e do próprio Richa, deu-se o que muitos esperavam: um vergonhoso espetáculo de traições. A maior parte do tucanato se dedica a fazer conchavos espúrios com outros candidatos, abandonando Cida Borghetti.

Quem mais tira vantagens da malandragem tucana é o candidato Ratinho Jr, que recebe gostosamente os apoios de tucanos que pedem guarida para se reeleger. Sem dúvida, esta é a eleição mais desprovida de princípios e valores que antes os políticos ao menos faziam de conta que respeitavam. Agora é sexo explícito. Vale tudo. Espetáculo deprimente, mas quase inevitável depois dos efeitos colaterais da Lava Jato, que limpou a área de petistas e que tais, mas a deixou livre para a expansão de outras quadrilhas.

Difícil é despertar entusiasmo na população, que perdeu qualquer interesse pela política, certa de que ao votar contribui para reeleger ou inaugurar mais um corrupto. O horário eleitoral obrigatório de rádio e TV abriu a etapa decisiva de uma eleição em que a farsa domina. Candidaturas falsas, burla de leis e mentiras deslavadas quanto ao financiamento das campanhas são exemplos da dimensão do embuste.

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NOSSAS CIRCUNSTÂNCIAS

Vejam só, um turista de país onde a civilização pegou há muito tempo não consegue entender algumas coisas da vida brasileira. Por exemplo: o líder nas pesquisas para a Presidência da República está preso por corrupção e lavagem de dinheiro, condenado à inelegibilidade por força da Lei da Ficha Limpa. Nem deveria figurar nas sondagens eleitorais. Mas continua falseando sua candidatura e, da cadeia, dá ordens e faz troça com o povo. Em meados de setembro, será substituído pelo vice de mentirinha, que acaba de virar réu por superfaturamento das ciclovias paulistanas, espalhadas à deriva quando foi prefeito da cidade. Para tentar fincar seu poste, terá dois blocos de 2 minutos e 23 segundos e 189 inserções de 30 segundos.

O candidato que lidera quando o presidiário não aparece nas simulações encarna valores de arrepiar. Entre eles a obsessão por armas de fogo, a ponto de se vangloriar por seus filhos terem atirado com balas de verdade aos cinco anos de idade. Militarista assumido, já escancarou sua índole homofóbica e pode virar réu por crime de racismo, caso o STF acate denúncia da Procuradoria-Geral da República.

Assim como Lula, Jair Bolsonaro agride a lei eleitoral. Faz campanha antecipada há mais de ano, sem receber nem mesmo uma advertência. A vantagem ilegal se reflete nos números das pesquisas de ambos. Agora, o ex-capitão terá de se virar com 8 segundos em cada bloco e 11 comerciais de 30 segundos durante os 35 dias de propaganda de rádio e TV.

OS INTERMEDIÁRIOS

Entre os candidatos do pelotão intermediário, Marina Silva contará com míseros 21 segundos em cada bloco e 29 inserções de 30 segundos, menos de uma por dia. Com uma coligação envolvendo nove partidos, Geraldo Alckmin disporá de 5 minutos e 32 segundos por bloco e 434 comerciais, 14 por dia – única aposta do tucano para tentar cruzar a linha de chegada do primeiro turno.

Ao todo treze partidos têm candidatos à Presidência da República e, destes, sete acumulam dívidas em cartórios por todo o país. Os campeões são PT com R$ 1,8 milhão e PSDB com R$ 1,7 milhão. Os protestos são diversos, incluem desde contas de luz até multas eleitorais. Nenhum, até agora, tornou-se favorito da maioria silenciosa, que trabalha, paga impostos, dá um duro danado para sobreviver e só se decepcionou com os políticos que temos nos últimos vinte anos.

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No plano estadual, é ainda pior o desalento da maioria. Pela primeira vez, estão na disputa real do governo três candidatos que nunca antes foram aplaudidos como cidadãos capazes de governar o Paraná na linha da prosperidade e da melhoria das condições sociais de todos. Temos um simulacro de empresário e apresentador de rádio e TV, que se beneficia do nome artístico do pai para ganhar popularidade. Ratinho Jr, tal qual o Ratinho pai, ainda não deu provas de que está preparado para o cargo que pretende.

Cida Borghetti, a governadora, que aparece em segundo lugar nas pesquisas e tenta a reeleição, tem poucos meses no cargo e tudo que fez poderia abonar sua candidatura. Seu drama é ser herdeira do espólio de Beto Richa, candidato tucano ao Senado em sua chapa, que a antecedeu e contaminou a vida pública com escândalos sucessivos.

E há o novato João Arruda, do MDB. Deputado federal, com reeleição garantida, decidiu ocupar o espaço deixado pelo brizolista Osmar Dias, que tentou montar uma frente sem os vícios e defeitos comuns na política de hoje em dia e entrou pelo cano. Acabou por desistir da candidatura e, pelo visto, da vida pública.

QUEM VÊ POLÍTICA NA TV?

A esperança da maioria é que os indecisos, que até agora somam cerca de 70% dos eleitores, se sensibilizem com a propaganda no horário eleitoral do rádio e da TV para escolher um dos nomes da lista. Não será fácil. Tudo degradou e a própria gratuidade do horário eleitoral é outra lenda. Só é grátis para os partidos políticos e seus candidatos. Para os pagadores de impostos a conta é salgada.

Neste ano, o Tesouro vai perder cerca de R$ 1 bilhão de arrecadação das mais de 10 mil emissoras de rádio e 320 de televisão existentes no país. Isso porque, por lei, elas podem descontar dos impostos devidos 80% do que faturariam com anúncios. As estimativas feitas pela ONG Contas Abertas também apontam o custo real por eleitor: R$ 6,90, quase duas vezes e meia a mais do que os R$ 2,80 de 2016.

Na eleição deste ano, será inaugurado outro desatino: o Fundo Especial de Financiamento da Democracia, nome mentiroso para o fundo eleitoral, criado a partir do argumento de que democracia custa caro e fixado em R$ 1,7 bilhão. Dinheiro do bolso do cidadão para engordar as contas dos partidos políticos, que, por não representarem nada, não conseguem ser financiados por filiados e simpatizantes.

Somam-se outros R$ 888,7 milhões do fundo partidário, cuja utilização nas campanhas foi autorizada pelo TSE, totalizando R$ 3,5 bilhões de recursos públicos para irrigar políticos. Nada menos do que R$ 51,3 milhões por dia se computados os 72 dias oficiais de campanha – 52 no primeiro turno e 20 no segundo.

MAIS UM ENGODO

É dinheiro a rodo. Em tese, para barrar a corrupção, que teria origem no financiamento empresarial. Um engodo a mais. Até porque já se provou que o crime não reside nas doações declaradas de pessoas jurídicas, mas na troca de favores entre políticos e empresários – mantidas mesmo depois do Mensalão e da Lava-Jato – e no caixa dois, que lei alguma consegue deter.

Para além das investigações da polícia e do Ministério Público e das ações da Justiça, coibir a corrupção dependeria de mecanismos mais eficazes de fiscalização. Algo que o Congresso Nacional nem imaginou debater por estar na contramão do interesse da maioria dos parlamentares.

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Em 2016, eleições municipais foram realizadas sem financiamento de empresas e sem fundo público. A experiência foi exitosa e, por óbvio, passou longe de comprometer a democracia, que não necessita de dinheiro e sim de respeito. Ao contrário do dito popular do futebol, política não é uma caixinha de surpresas. Quanto mais por aqui, onde as regras são definidas pelos próprios jogadores que querem continuar em campo. Perdeu quem apostava em alguma novidade nas alianças agora anunciadas, que, após ameaças de vindas e idas, recolocam os competidores nas suas raias habituais.

Com um cavalo de pau à esquerda depois de fazer todo tipo de juras e mesuras e não conseguir seduzir a direita com

assento no Centrão, Ciro Gomes abriu o calendário de convenções partidárias que se estendeu até 5 de agosto. O bloco que rejeitou o pedetista pousou na candidatura de Geraldo Alckmin como fênix, conferindo ao tucano larga maioria de minutos no horário de rádio e TV, última aposta para repô-lo na disputa.

IDEIAS CURTAS DO MACHÃO

O machão Jair Bolsonaro, líder nas pesquisas, ficou só. A solidão também parece ser o destino de Marina Silva. E de Lula da Silva. No máximo, o PT atraiu Manuela D’Ávila (PCdoB) para o papel de vice de um candidato que legalmente não pode ser candidato, negando a ela a posição do chefe depois de confirmado o impedimento. Com cada um dos postulantes colocados em sua posição de origem, Lula, mesmo na cadeia – e talvez até por estar lá –, é o único fora da caixa. Ele e o PT sabem disso e tentam tirar o máximo proveito.

Depois de conseguir reaglutinar alguns desgarrados a partir da peraltice do plantonista do TRF4, Lula emplacou um artigo na Folha de S. Paulo, “em comemoração” aos 100 dias de prisão. E seu partido lançou, no dia seguinte, as “ideias-força” de um plano de governo, coordenado pelo ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que já esteve mais bem colocado entre os cotados para substituir Lula nas urnas.

Com cinco eixos, seis páginas e alguns erros graves de digitação, o plano é um amontoado de palavras de ordem adolescentes que vão desde a “democratização dos meios de comunicação de massa” ao “combate de privilégios”. Passa por um “processo constituinte”, seja lá o que isso quer dizer, reforma da Justiça para a “garantia de direitos” e “reforma bancária”. Assusta quando fala em reafirmação do legado dos governos do PT – que custaram e continuarão custando bilhões de reais aos pagantes de impostos – e da redução das tarifas de energia, prática adotada por Dilma, que afundou de vez a Eletrobras e todo o sistema energético nacional.

O MARKETING DA MENTIRA

Jogando para a plateia e seguro de que não será instado a cumprir uma linha sequer do que está escrito – até porque sabe que a Lei da Ficha Limpa proíbe a candidatura de Lula –, o PT incluiu no plano a implantação da “renda básica da cidadania”. Projeto de vida do ex-senador Eduardo Suplicy que o PT descartou nas quatro vezes em que chegou ao Planalto. Bonitinho no papel que tudo aceita, impraticável em um país com déficit na casa de R$ 300 bilhões.

Ações bem coordenadas de marketing, algo que o PT sempre soube fazer com maestria, têm mantido o partido e o candidato que não pode ser candidato na mídia. Uma estratégia com dias contados que deverá dar lugar a uma batalha judicial sem precedentes quando a impugnação de Lula for oficializada.

Depois de tanto disse-me-disse em torno de incertezas quanto às eleições, as alianças mais lógicas, goste-se delas ou não, foram consolidadas. Com isso, a única novidade de 2018 é o indeferimento da candidatura à Presidência de um condenado por decisão colegiada em segunda instância. Ao procedê-la, o país mostrará a maturidade de sua democracia. Do contrário se condenará à lama. É o fim. Assim caminha a humanidade nesta área turva do planeta.

 

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