Templo das Musas: o poema em pedra de Dario Vellozo

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Nasceu na Lapa, mas mora em Curitiba desde os 7 anos. Aqui trabalhou na Universidade Federal do Paraná, assessorou programa de editoração da Secretaria de Estado da Cultura e foi diretora do Patrimônio Histórico-Cultural de Curitiba.

Ao lembrar sua formação, o arquiteto curitibano Villanova Artigas atribui papel relevante ao ambiente em que viveu na sua terra natal, Curitiba.

Órfão muito cedo, Artigas empenhava-se em seus estudos com a seriedade de “filho de viúva”, como costumava dizer. Cunhou esta expressão para definir aqueles que, como ele, “se viam obrigados a dar certo”, optando pelo comportamento discreto, de quem não gosta de dar problemas em casa. cassiana1

Talvez, o futuro arquiteto estivesse referindo-se também a seus colegas do Gymnasio Paranaense: sérios e estudiosos, tímidos e discretos, como de resto o são os jovens curitibanos.

Este traço da juventude curitibana, através do olhar do futuro arquiteto, veio acompanhado de referências à influência de seu mais notável professor do Gymnasio Paranaense: Dario Vellozo (Rio de Janeiro 1869-Curitiba 1937).

Suas aulas de História, que não tinham horário para acabar, eram ocasião para que os sérios rapazes sonhassem acompanhando os sonhos do professor, que concretizou seus projetos desafiando as limitações de província.

Esta relação com o professor do Gymnasio Paranaense marcou o arquiteto que criou a Faculdade de Arquitetura da USP e projetou seu edifício.

Era o mestre que atuou na sua formação iniciada em Curitiba, uma cidade na qual os grandes sonhadores aceitam desafios e erguem templos.

Odilon Negrão (1908-?), cronista e poeta que participou do incipiente modernismo local, não foi indiferente ao magnetismo de Dario, o “Zeus de sua mocidade” e “do velho templo grego/Que Dario erigiu lá no Portão,/Avalio a extensão da fantasia/Desse filósofo insubordinado/Que fez sozinho uma revolução”.

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Futuros intelectuais e artistas curitibanos da década de 1930-40, ao recordarem sua juventude, mencionam o Templo das Musas como um espaço que lhes despertava curiosidade e atração intelectual. Afinal, integrava sua biblioteca uma coleção da Encyclopédie Française, a mesma que atraiu o jovem Rosala Garzuze (1906-2009), futuro genro de Dario e substituto do poeta na tarefa de guardar o templo.

É o caso de Temístocles Linhares (1905-1993), que teria ido com amigos até Vila Isabel, à época uma região de campos e chácaras. Diante do “Templo de Dario”, os jovens começaram a buzinar, até que foram recebidos pelo poeta em trajes helênicos, oferecendo-lhe hidromel.

Ficaram encantados. Esta imagem confirma depoimentos segundo os quais “Dario era um velho jovem, sempre sorridente e muito atencioso com todas as criaturas que o procuravam.”

Naturalmente, enquanto os jovens viam no templo uma aventura, visitantes de prestígio acorriam para admirá-lo, como Alberto de Oliveira, Hermes Fontes, Raul Machado, até Vital Brasil, Ângelo Guido, Georgina Monguel, Alfredo Andersen, além de grandes nomes da Teosofia.

Ainda estudante de Letras, comecei a pesquisar na biblioteca do Templo das Musas, quando fui acolhida pelo gentil professor Rosala Garzuze, o sucessor de O Antigo, também um homem sensível e sintonizado com as novas gerações. Nesse período, as grandes conversas com Alice Ruiz e Paulo Leminski (1944-1983) eram sobre o Simbolismo e o Templo das Musas, tanto que, quando o poeta publica “Cruz e Sousa”, ganho a dedicatória pelo meu amor ao Símbolo.

Como frequentava o templo pelo menos duas vezes por semana, foi natural que começasse a levar visitantes: Décio Pignatari, Emir Rodríguez Monegal, que revelou existir em Cuba um movimento neopitagórico, José Guilherme Merquior − que ficou mais interessado no Bosque do Papa, pois imaginou um congresso de formalistas poloneses em Curitiba −, Victor Manoel de Aguiar e Silva, da Universidade de Lisboa, Jean Michel Massa, conhecido como um grande machadiano, mas também estudioso de Philéas Lebesgue, o que fez dele um conhecedor da correspondência trocada entre Dario Vellozo e aquele escritor e estudioso do esoterismo.

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Insólita foi a primeira visita de Haroldo de Campos (1919-2003). Chegou a Curitiba e, movido por grande curiosidade, foi direto do aeroporto ao “Templo de Dario Vellozo”.

A visita surpresa não deu certo. Ligou-me desesperado: “Cassiana, as musas não abriram as portas para mim!!!”

O templo inacessível, com as portas fechadas, se transformará em leitmotiv entre escritores de Curitiba, a exemplo do que ocorre com o personagem do romance “O Fantasma”, de José Castello.

À tarde, no dia e hora de visita, o poeta de “Galáxias”, ensaísta e tradutor, entrou solenemente no Templo das Musas e confirmou a impressão que tivera ao ver a foto de Dico Kremer, na qual Leminski aparece em trajes helênicos na escadaria do edifício.

Todos esses visitantes conheceram o Templo das Musas antes da fatídica noite de 25 de agosto de 1987, quando o edifício foi devorado por um incêndio helenófobo que consumiu a Encyclopédie e obras de importância vital para o conhecimento do Simbolismo e outros, que foram fundamentais na pesquisa de Wilson Martins (1921-2010) para sua “História da Inteligência Brasileira”.

O desastre, que inspirou inúmeros poemas, exigiu do “guardião do templo”, Rosala Garzuze, a maior demonstração de tenacidade que se pode esperar de alguém que empenhou sua vida na defesa de um sonho e de uma ideia. Sem qualquer ajuda oficial, Rosala Garzuze reerguerá o Templo das Musas, que lá está tão desafiador como o fora em 1918. O sonho da construção do Templo das Musas, marco da Curitiba da Nova Hélade do início do século XX, faz parte do rumo tomado em favor da poesia solar e panteísta, em contraponto com as ideias que sucedem o anticlericalismo e os versos decadistas dos luares hinverno do século XIX. A construção do templo materializou novos interesses literários e ideológicos, a exemplo daquele iniciado em 1909, quando Dario Vellozo ergueu a Escola de Nova Crótona, em Rio Negro, onde foi criado o Instituto Neopitagórico, do qual o Templo das Musas será sede. Contudo esse projeto de ensino revolucionário foi interrompido pelos combates do Contestado e Dario Vellozo trouxe os alunos para Curitiba, a fim de que terminassem o ano letivo. O retorno a Curitiba inaugura essa nova relação com a paisagem e se traduz numa nova Curitiba pagã e luminosa, na Coroação de Emiliano e nas Festas da Primavera, com seus cortejos de musas em trajes gregos atravessando a cidade.

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Também uma nova geração, integrada por Andrade Muricy, Tasso da Silveira, Lacerda Pinto cria a revista “Fanal”, órgão

do Novo Cénáculo (1912-1913), cujo título diz tudo do novo momento. Inaugura-se um ambiente cultural propício ao renascimento do paganismo e, consequentemente, para que o Templo das Musas fosse erguido a partir do projeto de Alves de Faria.

Inaugurado em 22 de setembro de 1918, o Templo das Musas torna-se em 2018 um edifício e um espaço de sentido centenário.

Pela força de sua aura simbólica e vontade de memória (Nora), o templo curitibano perpetua outro tempo hoje.

 

Exemplo de sonho e perseverança, marco de uma Curitiba que soube traduzir sonhos, o centenário Templo das Musas reforça não a repetição, mas impõe a diferença que atualiza.

 

Cassiana Lícia de Lacerda é professora, pesquisadora e escritora. Especializada no estudo do Movimento Simbolista no Brasil, período sobre o qual publicou “Do Simbolismo aos Antecedentes de 1922”, pela Casa de Rui Barbosa, “Decadismo e Simbolismo no Brasil”, pela USP, obra referencial sobre aquele período da literatura brasileira, além de edições críticas sobre “Emílio de Menezes”, “Dario Vellozo”, “Silveira Neto”, “Emiliano Perneta”. Foi curadora de várias mostras sobre história do Paraná.

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LEGENDAS

Foto 1: O professor Dario Vellozo em palestra no Gymnasio Paranaense

Crédito: Acervo P.J. da Costa

 

Foto 2: Rosala Garzuze e Paulo Leminski

Crédito: Dico Kremer

 

Foto 3: Dario Vellozo com as crianças Lycio e Radhail Vellozo, que será uma sensível “bibliotecária” do templo

Crédito: INP

 

Foto 4: Visitantes recebidos pelo Antigo Dario Vellozo

Crédito: INP

 

 

Foto 5: Dario na biblioteca do Templo das Musas. Entre os títulos, todos os números da revista “Tinguí”, uma experiência juvenil de Dalton Trevisan, só confiada pelo contista ao acervo do Templo das Musas

Crédito: INP

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