Troca-troca infame

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Vicente Ferreira diz que as alianças na política nativa se aproximaram, nos últimos dias, de obsceno troca-troca de parceiros. Vamos lá. Uma revoada de tucanos em direção ao albergue de Ratinho Jr escandalizou aqueles que pensaram que eles cumpririam o acordo que fizeram com Ricardo Barros, do PP, para compor a chapa de Cida Borghetti.

Gente do pequeno porte de Valdir Rossoni jurou fidelidade à candidata do PP à reeleição. A começar por Beto Richa, que abiscoitou a vaga do Senado na composição e está livrando com Ratinho Jr onde lhe parece mais conveniente e isso parece ser o Estado inteiro. Os candidatos a deputado federal, como Rossoni, ou a estadual, como Ademar Traiano, não escondem a sua vocação para a traição.

Ou seja, os acordos de dois meses atrás já não valem. Aliados das eleições anteriores agora estão em trincheiras opostas e os adversários se juntam no mesmo barco. Esses conchavos de cúpula mostram que, para estar no poder, nossos políticos fazem qualquer acerto. E o período é propício. Os brasileiros andam distraídos, irritados exatamente com essa promiscuidade que facilita a corrupção.

Por trás do jogo de dissimulações prevalece o vale-tudo. O poder merece tamanha desfaçatez e pouca vergonha porque proporciona tudo aquilo que um homem pós-moderno que habita a periferia do capitalismo quer. Ele briga pela oportunidade de fazer qualquer negócio. E o poder, senhores, é uma maravilha. Dá-se emprego aos de casa e aos do auditório, socorrem-se os apaniguados com o caixa do Tesouro Público, por aí vai.

Assim se desenrola a vida de um “estadista” tupiniquim. Vida boa. Marcada apenas pela preocupação de ficar no trono pelo maior prazo possível. Na política nativa, esse espírito macunaímico é uma praga pior que a maria-sem-vergonha. Chamam a isso de bom senso. E lá vêm os mestres do pragmatismo a recomendar os entendimentos mais incríveis entre políticos que pareciam, ainda ontem, antípodas, inimigos irreconciliáveis pelas divergências ideológicas e de métodos.

Na geleia macunaímica, vinga o populismo, o poder é mafioso e a mídia é o seu instrumento. (Sem contar que Macunaíma não tem ideologia, está em todo canto.) Mas Amaral tem razão. As mazelas da política são antigas, mas nunca, antes, foram expostas com tanta naturalidade.

A panela da política paranaense continua fervendo no fogo da sucessão. É fogo brando, bastante, porém, para que extravase. Há um aspecto positivo em que o conteúdo se derrame. Assim, a sociedade nativa conhece os seus líderes, ganha consciência dos problemas que a afligem e pode avaliar o alcance de suas expectativas. Sem dizer das revelações de corrupção que deixam o cidadão de cabelo em pé.

Mas não deixa de ser doloroso, embora de certa forma útil, na revelação dos humores de boa parte de nossos políticos, o reconhecimento da inadequação das elites ao processo de modernização. A maior esperança de oposição dos paranaenses chegou a ser Osmar Dias, do PDT. Mas ele renunciou. Não quis mais ser candidato. Largou os betes, entregou o boné e escafedeu-se. Dizem que está nos EUA, bem longe deste insensato mundo e do noticiário que pode lhe provocar asco.

No lugar de Osmar pintou uma figura nova, o João Arruda, do MDB. O certo é que as apostas no crescimento do MDB de Requião e de João Arruda aumentaram muito no arraial da esquerda e ninguém se surpreende mais com o rumo dos acontecimentos na política nativa. Uma orgia franciscana, segundo o mesmo Vicente Ferreira, que não usa termos chulos dos ditos populares. É um caos

Maquiavel conta os estragos da tísica, doença mortal naqueles tempos renascentistas, que os médicos costumavam enfrentar quando já era tarde demais. Ao que tudo indica, o Paraná padece de tísica, mas não tem maiores chances que os doentes contemporâneos do secretário florentino. Decerto, por aqui, não há gente disposta a confiar em nossos políticos e a enfrentar a desfaçatez da rapaziada no braço.

E por que haveria?

 

A força conservadora

Além das injunções locais, há que analisar as tendências majoritárias na sociedade nestas eleições. É observar a conduta de muitos dos principais meios de comunicação brasileiros, seus editoriais e badalados comentaristas. Não precisará muito tempo para concordar com esta afirmação: eles decidiram que o problema do Brasil não são os corruptos, nem é a esquerda retrógrada, nem a irracionalidade do modelo institucional, nem a irresponsabilidade fiscal dos parlamentos, nem a instabilidade criada pelo STF. O que tem que ser combatido no Brasil é o conservadorismo. Não lhe deve ser concedido direito de representação e precisa ser alvejado até que não reste em pé um só desses idiotas para que suas pautas não ganhem força institucional.

Ampla maioria da população crê em Deus e reconhece a importância da religião e da instituição familiar. É contra a ideologia de gênero e quer proteger as crianças dos abusadores que pretendem confundir sua sexualidade. É contra o aborto, o desarmamento e a liberação das drogas. Quer segurança e bandidos na cadeia. Repudia o feminismo como pauta política, movimento revolucionário, ou fundamento de uma nova moral. Não admite a transformação da sala de aula em oficina onde o professor opera como torneiro de cabeças. Rejeita o deliberado acirramento de conflitos que se tenta impor em vista de diferentes cores de pele, olhos e cabelos; ou de classe, apetite sexual, faixa etária, renda. E por aí vai.

Os grandes veículos jamais revelaram qualquer interesse por tais posições. Da ideologia de gênero ao feminismo mais transgressor. Degeneradas fazem orgia com símbolos sacros em via pública? Noticia-se o ocorrido como quem descreve um pôr do sol sobre a Lagoa, ou se fala em liberdade de manifestação e em tolerância. É a pretendida tolerância com o intolerável e com os intolerantes…

De fato, o período que estamos vivendo oferece oportunidades extraordinárias para observarmos o principal alinhamento de grandes meios de comunicação. Mesmo quando há diferenças importantes entre eles, sobressai um denominador comum que resiste à desilusão de muitos profissionais com as antigas convicções. Até os que delas se divorciaram antes de ficarem viúvos da esquerda participam da confraria que pode ser definida como a união de quase todos no repúdio às posições conservadoras. E essa intransigência, hoje, tem como alvo o candidato Bolsonaro, saco de pancadas da eleição presidencial. Dedicam-se a malhá-lo, haja ou não motivo para isso. Aliás, não precisaria motivo. O conservadorismo basta.

Tal atitude reforça a natural conduta dos demais candidatos. A posição de Bolsonaro nas pesquisas já seria motivo suficiente para todos o atacarem. Com a mídia comandando a artilharia contra o adversário comum, o que pudesse haver de conservadorismo em qualquer deles foi jogado no arquivo morto. “A mídia rejeita e está ajudando”, dirão. Objetivo alcançado: há um único representante dessa importante corrente de opinião indispensável para realinhar aspectos essenciais da vida nacional. Agora, basta abatê-lo e esperar, ali adiante, a colheita integral do “progressismo” plantado por ação ou omissão.

 

 

Legenda: Thomas Couture, Les romains de la décadence, 1847

 

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