Fora da tela

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Claudio Bodra, gerente do antigo cine Palácio por muitos anos, costumava dizer que os bandidos e heróis nem sempre estavam na tela. O Zito, antes de ser gerente de cinemas, era projecionista, e do alto das janelinhas da cabine via coisas também fora do enredo dos filmes. Aqui alguns casos por ele relatados.

O cine Lido, no final de 1974, exibia “Meu corpo em tuas mãos” (Ash Wednesday, 1973), com Elizabeth Taylor, Henry Fonda e direção de Larry Peerce. A personagem faz uma cirurgia plástica a fim de rejuvenescer na esperança de reconquistar o marido. A câmera pegava o bisturi cortando a pele, o sangue espirrando… Várias meninas desmaiando, gente passando mal na sala de espera, quando uma delas saiu gritando, ofegante, e a levaram ao sofá. Quando o porteiro do cinema viu o que era, gritou: “Pare com isso ou te dou uns tapas na cara”. O rapaz sarou no mesmo instante.

jensen1Durante a matinê no cine Astor, a funcionária do cinema chegou ao reservado feminino e ouviu ardentes gemidos, incomuns em tal ambiente. Por debaixo da porta, notou dois pares de pernas e foi chamar o gerente, que já chegou inquirindo: “Quem está aí? Vamos saindo ligeirinho que aqui é uma casa de respeito!” Lá de dentro, a voz do moço se fez ouvir: “Não dá para sair, o trinco da porta está quebrado”. A voz do gerente saiu ameaçadora: “Então vamos arrombar”. O cara pediu trégua e avisou que sairia por cima. Logo a cabeça, no espaço entre as divisórias,  apareceu. Ele, empoeirado e arranhado, diz: “Não sei como fui parar lá dentro, mas com o trinco quebrado não podia sair”. E foi saindo de fininho. Chaves de fenda, alicates, trinco aberto por fora, deram com a mocinha que, sem ser interrogada, explicou: “Pois o cara entrou aí, e o senhor sabe, antes o estupro que a morte. Não havia como evitar, relaxar e desfrutar”. Acompanhada ela saiu e, já fora do cinema, lá o rapaz esperava. Abraçados e sorrindo, partiram ao sol da tarde.

Na tela do cine Plaza, “Drácula de Bram Stoker” (Bram Stoker’s Dracula, 1992), com Gary Oldman e Winona Ryder, dirigido por Francis Ford Coppola, era uma extravagância visual cheia de efeitos visuais. No fim da sessão, um amigo do Jairo, o gerente, empolgado, comenta: “Puxa, fantástico! Aqueles morcegos pareciam reais, como voavam, pareciam estar dentro da sala”. Jairo não riu, pois lembrou do vitalício quiróptero, hóspede indesejado dos desvãos e da escuridão do seu cinema. Possivelmente atraído pelos colegas na tela e pelos castelos da Transilvânia, arriscou alguns voos em incomuns “defeitos especiais”.jensen2

Numa noite de caloroso inverno curitibano, o gerente do mesmo cine Astor, à meia-noite, exausto, estava fechando as pesadas portas de aço do seu cinema, já na calçada da Voluntários da Pátria, quando o casal se aproximou: “Moço, não feche a porta, aí dentro tem mais um homem e uma mulher”. Paciente, o Osvaldo fez ver que não havia ninguém, ele vasculhara tudo, como fazia rotineiramente, e garantia que viva alma lá não teria ficado. Mas o casal insistia: “Tem sim, estão lá dentro”. Tem, não tem e o Osvaldo fez ver que perderia seu último ônibus e que morava longe. “Depois, só de táxi”. “Pago o táxi”, disse o homem vencendo o Osvaldo. Pegou o dinheiro e abriu a porta de aço. Lanterna de mão, passaram a porta de vidro, entraram na plateia e lá, iluminado em meio à escuridão, sentado, um casal. “Como ficaram aí?”, quis saber o gerente. “Esconderam-se”, antecipou o interessado na busca. Toca botar para fora todo mundo, porta novamente cerrada e ouvir o festival de palavras, palavrões e bofetadas. O gerente foi saindo de fininho, concluiu que era coisa de um com a mulher do outro e do outro com a mulher de um. Apesar da animada aventura, melhor pegar seu táxi e sumir.

No cine Palácio, em meados dos anos 60, com poucos espectadores, a sessão da tarde corria tranquila. Mas aí pelas quinze horas, elegante senhora aparece na sala de espera: “ Fui roubada!” Cláudio, o gerente, foi chamado e ouviu o relato constrangedor. Ela: “Pois eu entrei e sentei num bom lugar, coloquei minha bolsa na poltrona ao lado e me interessei no filme. Momentos depois um moço foi-se chegando assim como quem não quer nada, perguntou se a poltrona ao lado estava vaga e sentou. O senhor sabe, ele não era do tipo de muita conversa, passou logo às ações, aquelas de passa a mão aqui e ali, e eu firme, para ver aonde a coisa ia dar. Ele se excedendo, até o lanterninha começou a marcar em cima da gente. Mas eu firme. No meio desta troca de simpatias, ele se levantou e disse que ia ao banheiro, o que eu achei normal, dadas as circunstâncias. (Cláudio fez que sim com a cabeça) E eu esperei, esperei, e ele nada de voltar. Resolvi procurá-lo, mas daí senti falta da minha bolsa, e acho que sumiu com ele, é certo.  Agora quero minha bolsa com meus documentos, dinheiro, minhas coisas íntimas”. Cláudio lembrou que um moço de paletó branco saíra rápido uns quinze minutos antes. “Tarde demais”, fez ver o gerente, “a senhora deveria ter suspeitado dele”. Ela, desapontada ante a afirmação do Cláudio: “Ora, seu gerente, eu achei que ele estava com boas intenções!”

Foto: Cine Plaza fechado, depois demolido pelo grupo Positivo Crédito: Dirceu Cavalcanti

Foto: Cine Plaza fechado, depois demolido pelo grupo Positivo
Crédito: Dirceu Cavalcanti

Nos cinemas de hoje, existem uns chatos que não largam do celular, nem durante o filme, e fica aquela luz incômoda da telinha a ferir nossos olhos. Há ainda as conversas, que também atrapalham.

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