Nostalgia da ordem

mazza

Do processo constituinte para cá, temos vivido um descompasso, cada vez maior, entre os princípios da liberdade e da autoridade. A rigor prevalece um só nas coisas mínimas como um grupo de dez a quinze pessoas fechando uma estrada federal porque um jovem ciclista morreu e reivindica-se uma passarela. Predomina o sentido da negociação como se a Polícia Rodoviária Federal fizesse o mesmo papel do educador de rua em relação ao morador de rua. O exercício da proteção a Lula como prisioneiro é expressão dessa anomalia que apenas abastece o receituário populista no país. E surge, como decorrência, alentada doutrina jurídica – o que dá uma ideia das dimensões do absurdo ‒ capacitando um condenado em segunda instância a participar do processo eleitoral para presidente da República, a despeito de recente jurisprudência firmada em sentido proibitivo pela Suprema Corte. O sofisma se consolida e ganha foros de episteme acadêmica.

E aí, como consequência desse processo de torpor, esse liberou geral, como se estivéssemos no 1968 francês, vai criando uma atmosfera que passa a reclamar, como no episódio europeu, a exigência de ordem e de prevalência do que está inscrito em lei. E aí se passa a temer o reverso com formas de tolerância zero à mínima infração e instala-se a repressão e o autoritarismo.

O mundo não se faz em ciclos até porque corremos o risco de trocar o longo império da liberdade, em verdade um rumo ao liberticídio, pelo da ordem. Um ciclo pode tornar-se uma era e o da ordem poderia nos lançar, embora todos jurem abominá-la, outra vez, numa ditadura que é claro jamais ousaria dizer seu nome – o de fascista. Mimeticamente, como outros, se afirmando democrático e ajustado ao estado de direito.

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