Os sete pecados capitais e a MPB

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— Parte II —

 

Cá estou embalada no propósito de visitar cada um dos sete pecados capitais na música brasileira. Claro!, preciso pedir algumas licenças poéticas a São Tomás de Aquino, que foi quem elencou, forma definitiva, essas normas para regrar o comportamento dos fiéis e chamar os hereges para perto de certas condutas. Os vícios capitais listados por ele foram se modificando durante os séculos, não só arrumando um perdãozinho aqui, uma desculpinha ali, uma absolviçãozinha acolá, mas também perdendo o cerne do referencial.

Isto posto, concentro o olhar na Luxúria e como ela é cantada na MPB.

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A primeira parada é na deliciosa Mania de você, composição de Roberto de Carvalho e Rita Lee. É uma das primeiras criações da dupla, data do finalzinho dos 1970 e a explicação de Rita em seu songbook sobre como surgiu a balada combina 100% com o tema dessa edição: “Foi em cinco minutos que a gente fez ‘Mania de você’. A gente tinha acabado de transar, ele pegou o violão e eu o caderninho e começamos: ‘Meu bem, você me dá água na boca…’”. A letra chocou os conservadores, animou os liberais e acabou por ser cantada por todo mundo, conseguindo escapar dos censores que àquela altura do campeonato tinham outras preocupações e, como palavras mais, digamos, escandalosas não apareciam no texto, a composição ganhou as rádios e está aí até hoje: “Meu bem você me dá água na boca / Vestindo fantasia, tirando a roupa / Molhada de suor / De tanto a gente se beijar / De tanto imaginar loucuras / A gente faz amor por telepatia / No chão, no mar, na lua, na melodia”.

No repertório do casal há variações sobre este tema de tudo quanto é jeito. E a voz sensual de Rita apimenta ainda mais o assunto, como em Doce vampiro: “Venha me beijar / Meu doce vampiro / Na luz do luar / Venha sugar o calor / De dentro do meu sangue / Vermelho / Tão vivo tão eterno / Veneno / Que mata sua sede / Que me bebe quente / Como um licor / Brindando a morte e fazendo amor”. Ou em Chega mais: “Eu conheço essa cara / Essa fala, esse cheiro / Essa tara de louco / Esse fogo, esse jeito / Escandaloso, você é guloso / E quer me sequestrar”. E também quando a dupla encontrou com texto de Arnaldo Jabor e fez música do balacobaco: “Amor é cristão / Sexo é pagão / Amor é latifúndio / Sexo é invasão / Amor é divino / Sexo é animal / Amor é bossa nova / Sexo é carnaval”.

Sei que já falei isso algumas linhas acima, mas repito: a sensualidade da voz de Rita, de seu jeito de cantar, seu olhar de quem entende do assunto muito contribui para criar o clima voluptuoso no que canta. É sempre golaço.

E a inspiração para a escrita de Garoto de aluguel, de Zé Ramalho? Sobre isso, ele mesmo explicou em entrevista à Isto É: “Isso foi na época da ditadura. Os militares estavam atrás dos comunistas e não perturbavam os hippies que queimavam fumo no Pier de Ipanema. Chegamos ao Rio, um bando de cabeludos jagunços do Nordeste metidos a hippie. E, nessa história de queimar fumo, pra conhecer as pessoas, viramos ratos de shows. Havia as groupies, garotas que iam ao show a fim de transar com o artista, ou com os músicos do artista, ou com qualquer aficionado. Nessa sequência você acaba sorteado. No outro dia dormia num quarto de motel, elas tinham pena da gente e davam um troco pra refeição”. O relato forte da música se transformou num estrondoso sucesso, obrigatório em shows até hoje: “Minha profissão / É suja e vulgar / Quero um pagamento / Para me deitar / E junto com você / Estrangular meu riso / Dê-me seu amor / Que dele não preciso”.

A gente sabe que a música brasileira pode também ser bem escrachada, tipo quando o Ultraje a Rigor escandalizou o Brasil com Sexo ou quando Genival Lacerda cantou Radinho de Pilha ou, ainda, com Jorge Ben Jor em Eu quero é mocotó. E Gretchen com a Piripipi, que mal tinha letra. Uma baixaria geral que não combina com as nuances do que a última flor do Lácio pode produzir quando se encontra com melodias bem construídas. Prefiro a segunda categoria. Prefiro a categoria. Prefiro quem sabe e tem recursos para contar sobre os desejos, como Chico fez em O meu amor: “O meu amor tem um jeito manso que é só seu / De me fazer rodeios, de me beijar os seios / Me beijar o ventre e me deixar em brasa / Desfruta do meu corpo como se o meu corpo / Fosse a sua casa”. Em Folhetim: “E eu te farei as vontades / Direi meias verdades / Sempre à meia-luz / E te farei, vaidoso, supor / Que és o maior e que me possuis”. E só mais uma, vai: “Como, se nos amamos feito dois pagãos / Teus seios inda estão nas minhas mãos / Me explica com que cara eu vou sair” (Eu te amo).

Veja lá que a Igreja pregou a utilização do sexo apenas para a procriação, só isso. Nada de sentir prazer durante o ato. À dificuldade de obedecer a regra chamou-se luxúria. O que nos coloca num ponto de concluir que quem transa, peca. Porque, se não considerarmos casos extremos, não há sexo sem prazer, às vezes mais, às vezes menos, mas a diversão é inegável. O que torna uma injustiça colocar Kleiton e Kledir como pecadores nessa maravilha cantada desde o início dos 1980: “Amo tua voz e tua cor / E teu jeito de fazer amor / Revirando os olhos e o tapete / Suspirando em falsete / Coisas que eu nem sei contar”.

É correto afirmar que a MPB gosta do tema, mas esse viés quente não tem relação direta com nossa cultura, faz parte da condição humana e por isso se repete em outros lugares, sob signos de paixões e tragédias, alegrias e desilusões.

Às vezes, o sexo aparece na música como grito de, para usar palavra da moda, empoderamento. Foi isso que fez Karol Conka na sua Lalá: “Pouco importa pra ele se você também tá satisfeita / Esses caras ainda não aprenderam que dez minutos é desfeita / Meia bomba que toma não aguenta o molejo da lomba / Se desmonta, tem medo e no final só me desaponta / Já fico arrependida / Seca, desacreditada e fria / Desse jeito desanima / Quero ser bem atendida”.

Alceu Valença é também um dos mestres do assunto. Você pode até dizer que ele é um velho magricela e narigudo, parecido com o Pedro de Lara (como um amigo me falou), mas eu acho, e acharei para sempre, que ele sabe dizer as palavras com o sabor que cada uma tem, e faz isso usando a saliva na medida, no tom preciso da sensualidade. Poucos sabem cantar como ele: “Da manga-rosa quero o gosto e o sumo / Melão maduro, sapoti, juá / Jabuticaba, teu olhar noturno / Beijo travoso de umbu cajá / Pele macia é carne de caju / Saliva doce, doce mel, mel de uruçu”. Depois que Vicente Barreto lhe mostrou a melodia, num hotel em São Paulo, Alceu compôs Tropicana em alguns minutos, para cantá-la para sempre.

No livro História sexual da MPB, Rodrigo Faour fez um prazeroso passeio pelo tema. Imagine: se há um livro inteirinho sobre o assunto, como que uma coluna pode tratar do tema sem ter certeza de que deixou grandes composições de fora? Impossível! Rendo-me e despeço-me, sem antes dizer para que você aumente o som e vá para cama porque as duas coisas juntas fazem muito bem – para a carne e para o espírito.

Neste parágrafo de despedida, Cazuza e Frejat, Todo amor que houver nessa vida: “Eu quero a sorte de um amor tranquilo / Com sabor de fruta mordida / Nós na batida no embalo da rede / Matando a sede na saliva / Ser teu pão / Ser tua comida / Todo o amor que houver nessa vida / E algum trocado pra dar garantia”.

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