A múmia do Bacacheri

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Tothmea, Dalton Trevisan e Machado de Assis ou como Curitiba é um bom lugar para morrer

 

 

Tothmea é uma múmia egípcia de 2,7 mil anos que passa seus dias deitada em uma réplica de sarcófago, cercada por uma redoma de vidro em uma sala de cerca de 15 metros quadrados especialmente construída para ela. Ela possui faixas ao redor da cabeça que escondem seus globos oculares ainda presentes. O crânio sofreu pequenas fraturas ao longo do tempo, mas os dentes de Tothmea estão visíveis e preservados. Em vida ela nunca teve cáries. O tronco está desprovido de faixas. A resina utilizada no processo de mumificação tem pequenos furos, obra dos cupins. Braços e pernas estão inteiros e nas mãos é possível ver as unhas compridas da múmia.

Tothmea é a joia do tesouro do Museu Egípcio da Grande Loja de Língua Portuguesa da Ordem Rosacruz. Com instalações neoclássicas que emulam a antiguidade grega e egípcia e a Europa renascentista, a Grande Loja ocupa quase duas quadras inteiras do Bacacheri, bairro de classe média de Curitiba.

Depois da destruição da coleção do Museu Nacional do Rio, Tothmea é, até onde se sabe, a única múmia egípcia em exposição em um museu brasileiro. O conjunto de prédios coloridos da Grande Loja ‒ entre o kitsch e o esotérico, dependendo do gosto de quem vê ‒ guarda, portanto, uma pequena relíquia. “Sabemos da importância dela. Por isso, garantimos a Tothmea todo cuidado necessário”, diz Vivian Tedardi, coordenadora do Museu.

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Resguardada no Bacacheri, um oásis de tranquilidade em que a grande emoção dos moradores é lembrar-se de antigas quedas de avião e encontrar o juiz Sergio Moro passeando com o cachorro, Tothmea vive a máxima expressa por Dalton Trevisan em seu Pico na Veia.

“A tua Curitiba (essa mesma do pai do finório Escobar) é uma boa cidade para morrer”, conclui Dalton, ao rememorar Machado de Assis, cujo personagem Maria, do conto Um Capitão de Voluntários, morreu em Curitiba, voltando do Rio Grande. Tothmea não voltava do Rio Grande, mas, de certo modo, veio descansar em Curitiba, depois de uma jornada atribulada por três continentes.

 

Uma vida desconhecida

Sobre a vida de Tothmea não se sabe muito. Os pesquisadores estimam que ela viveu entre 25 e 30 anos e tinha algo entre 1,55m e 1,60m. A causa da sua morte é desconhecida. O próprio nome verdadeiro é uma incógnita. Ela foi batizada de Tothmea como homenagem aos faraós Tothmés, que governaram o Egito durante a 18.ª dinastia (entre os anos de 1504 e 1425 a. C.)

Inscrições encontradas em sua tumba dão conta de que ela seria uma musicista ou cantora de um Templo de Ísis, participando de celebrações da vida e também de ritos funerários. Se não era uma sacerdotisa de posição social mais elevada, Tothmea levou uma vida bem menos pesada do que a maioria da população egípcia da época. Por sua posição clerical, Tothmea provavelmente passou a vida louvando Ísis (a deusa da maternidade, protetora da magia e da natureza), cantando e dançando; comendo e bebendo. Não é uma vida de se jogar fora.

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Passeios de carruagem e porão

Da história de Tothmea depois de sua descoberta, na segunda metade do século XVIII, sabe-se um pouco mais. Da antiga Tebas (atual cidade de Luxor, no Egito) até o Bacacheri foi um longo trajeto, cheio de contratempos. A história da múmia começa em 1885, quando o diplomata americano Samuel Sulivan Cox ganhou, em uma viagem ao Egito, duas múmias de presente do Quediva Mohamed Pasha Tewfik, à época governante do Egito e do Sudão.

Ao retornar para Washington, em 1886, Cox doou uma das múmias para o Smithsonian Institution. A outra, Tothmea, foi adquirida por H. C. Farrar, diretor do Museu George West em Round Lake, estado de Illinois.mumia4

Em agosto de 1888, a múmia foi parcialmente desenfaixada em um auditório na vila de Round Lake em uma cerimônia pública que reuniu a nata da sociedade local. Tothmea permaneceu em exposição no Museu George West até 1918. No ano seguinte, a instituição foi fechada e o acervo do museu, desfeito. A múmia acabou guardada em um celeiro sob a responsabilidade de um senhor chamado Garnsey. Nesta época, Tothmea era vista perambulando por Round Lake. Os garotos da cidade costumavam levá-la em passeios de carruagem.

Provavelmente na década de trinta, um professor, chamado Flanking Clute, se responsabilizou pela curadoria de Tothmea. Em 1939, ele decidiu deixá-la no Museu da cidade de Schenectady, em Nova York. Ali a múmia foi exposta algumas vezes, mas acabou sendo esquecida, permanecendo guardada no porão. Posteriormente, em 1975, o diretor George H. Cole decidiu exibi-la para um programa educativo em uma estação de televisão local.

Entre 1978 e 1984,  Tothmea permaneceu exposta entre Schenectady e Round Lake, indo de uma cidade a outra, conforme era requisitada por exposições e feiras locais.

No dia 13 de fevereiro de 1984, Round Lake devolveu Tothmea à senhora Inez Sewell, filha do então falecido Sr. Clute. No dia 24 de março de 1987, a múmia foi entregue por Inez para o Museu Rosacruz de San Jose – Califórnia. Depois de permanecer sete anos guardada na reserva técnica do museu, Tothmea foi então doada para o Museu Egípcio de Curitiba, onde permanece em exposição desde sua chegada, em abril de 1995. Curitiba, afinal, é um bom lugar para morrer.

 

 

 

Fotos: Divulgação / Ordem Rosacruz

 

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