As Holandas Paranaenses*

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O touro que fazia companhia a outras 40 novilhas prenhas pareceu não gostar muito do sacolejar provocado pelo mar. O bicho ficou agitado e simplesmente desabou em pleno Oceano Atlântico. Desesperado, o proprietário do rebanho, Bauke Dijkstra, arregimentou uma dezena de homens que estava a bordo do navio para resgatar o bicho. Uma operação calculada e bem-sucedida conseguiu içar o animal das águas agitadas. Para alívio de Bauke, o pioneiro em trazer o gado holandês para terras paranaenses em 1947.

Era a primeira vez que as vacas holandesas pisavam no estado. O destino era a colônia holandesa de Carambeí, na região dos Campos Gerais. O trabalho de Bauke frente à produção leiteira – que atualmente é a principal atividade econômica da cidade – durou pouco tempo. Morreu em 1953 com 52 anos. Mas o legado deixado por ele persiste e cresce a cada ano. “Ele voltou outras três vezes para a Holanda para trazer gado, que produzia mais leite que o rebanho do Brasil”, conta a neta Douwtje van Westering.

Seis anos após a chegada do avô materno Bauke, foi a vez de a família paterna de Douwtje desembarcar em Carambeí. O avô Henry van Westering e a esposa Anna Machteld vieram com o filho Herman, então com 18 anos, após se depararem com anúncios de incentivo à imigração em terras holandesas.

 

O início

Os primeiros gados holandeses chegaram ao Paraná quase quatro décadas após o início da saga dos imigrantes dos Países Baixos no estado. Os pioneiros desembarcaram entre 1908 e 1909 e se estabeleceram primeiramente na Colônia Gonçalves Júnior, em Irati. Incentivadas pelo governo brasileiro, que fomentava a vinda de colonizadores europeus, e movidas pela esperança de construir uma vida mais próspera em novas terras, cerca de 200 famílias de imigrantes vieram para a localidade.

“Na época, o governo brasileiro fazia propagandas em livretos para impulsionar a imigração europeia para o Brasil, com vistas à mão de obra europeia em substituição ao trabalho escravo. Neste contexto, havia no país uma política de branqueamento da população, com fundamentos raciológicos, próprios do fim do século 19, início do 20”, explica a pesquisadora Fernanda Homann Hrycyna, membro do Núcleo Educativo do Parque Histórico de Carambeí.

A Colônia Carambeí começou a se formar em 1911

A Colônia Carambeí começou a se formar em 1911

Mas a colônia de Irati se resumiu a uma propaganda enganosa. Não tinha estrutura alguma. Os holandeses chegaram a passar fome. O cenário era de mata fechada, pragas e desnutrição. Mulheres e crianças morreram vítimas de várias doenças, como tifo e malária. Os imigrantes até tentaram iniciar algumas lavouras, mas não tiveram sucesso. Conviviam com a invasão de porcos-do-mato e de gafanhotos. A colônia chegou a ficar conhecida por “Cemitério das Mulheres”.

 

Plano B

Diante deste cenário desolador, muitos resolveram abortar o plano imigratório e regressaram para a Holanda. Outros, porém, tentaram encontrar outras localidades nas proximidades para reconstruir suas vidas.

Foi nesse período que notícias sobre a construção de uma ferrovia na região de Castro animaram os remanescentes que ainda desejavam sair de Irati. A companhia férrea Brazil Railway Company estava incumbida de colonizar a região onde ficava a antiga Fazenda Carambehy para justificar a construção de uma ferrovia. Para isso oferecia às famílias interessadas um contrato que concedia lotes com cerca de 20 hectares, três vacas leiteiras, sementes e adubo, a serem pagos durante 10 anos de produção do colono.

Em 1911 as famílias dos irmãos Jan e Leendert Verschoor e de Jan Vriesman aceitaram o desafio e deram uma nova chance à vida no Brasil. Mudaram-se para o novo local, onde hoje é o município de Carambeí, e iniciaram a colonização holandesa na localidade.

“O objetivo da colonização era o abastecimento de alimentos para os trabalhadores dos trilhos e o transporte de produtos com vistas à formação de mercado consumidor”, explica a pesquisadora Fernanda Homann Hrycyna.

Produção leiteira é a principal atividade econômica das colônias holandesas no Paraná

Produção leiteira é a principal atividade econômica das colônias holandesas no Paraná

Instalados e satisfeitos com o local para produção agropecuária, os pioneiros resolveram “recrutar” mais holandeses para habitarem a nova colônia. Com esse intuito, Jan Verschoor, que há pouco ficara viúvo, viajou para a Holanda. “Ele foi para chamar mais pessoas para a colônia no Brasil e para tentar encontrar uma nova esposa”, conta a guia turística de Carambeí, Douwtje van Westering.

O primeiro objetivo ele conseguiu cumprir. A propaganda do Brasil surtira efeito e em 1911 mais holandeses já arrumaram a mudança rumo a Carambeí. O segundo objetivo, contudo, jamais foi cumprido. Jan morreu durante o tempo em que esteve na sua terra natal.

Com a propaganda diversas famílias, que hoje se destacam na economia local, rumaram para o Brasil. Caso do jovem Leendert de Geus, que tinha apenas 21 anos. Depois de perder parte de sua produção de batatas na Holanda, decidiu se aventurar nas terras novas do Brasil. A cada ano mais famílias se juntavam ao grupo. Em 1914, havia mais de 50 famílias na colônia, oriundas principalmente do sul da Holanda.

 

Casamentos e prole fértil

Logo após a chegada dos holandeses, os primeiros casamentos dentro da colônia de Carambeí também começavam a ser celebrados e com eles o nascimento dos primeiros brasileiros, frutos dos holandeses em terras paranaenses. E não eram poucos. Os holandeses tinham uma média de 10 a 16 filhos. O casal Leendert e Cornélia de Geus foi o primeiro a unir laços na colônia. A prole seguiu a média: 15 filhos.

Os moradores da colônia ainda frequentam e se casam na Igreja Evangélica Reformada, instituição religiosa oriunda dos imigrantes holandeses. “Toda chegada em uma terra nova não é fácil. Tem dificuldades de adaptação. Mas a fé e a união ajudaram muito os pioneiros”, conta a guia Douwtje. Carambeí reúne hoje cerca de três mil descendentes de holandeses.

 

* Na imagem de abertura: casas típicas da colônia holandesa de Carambeí.

 

Parque de Carambeí

O Parque Histórico de Carambeí é o maior museu histórico a céu aberto do Brasil. Está localizado em um terreno de 100 mil m² e contabilizou, somente no ano passado, 120 mil turistas. É o espaço que preserva e visa valorizar a memória e a cultura holandesa no Paraná. A primeira ala do museu, a Casa da Memória, foi inaugurada em 2001. Em 2011 o Parque Histórico foi inaugurado para celebrar os 100 anos do início da imigração no estado.

“O Parque Histórico tem por objetivo o resgate da memória dos primeiros imigrantes a chegarem a Carambeí, em especial as primeiras famílias de holandeses, chamados pela comunidade e pela Associação Parque Histórico de Carambeí (APHC) de pioneiros”, explica a pesquisadora Fernanda Homann Hrycyna, do Núcleo Educativo do Parque. holandeses_box1b

 

O Parque é formado pela réplica da vila de Carambeí em seus primeiros anos, com estação ferroviária, chácara do colono, igreja, casa das etnias, que é um memorial aos outros povos, fábrica de laticínios, matadouro, escola, casa do ferreiro e do marceneiro. Além da conservação das peças que fizeram parte do cotidiano de algumas famílias.

“Uma série de ações educativas são realizadas ao longo da programação anual do Parque Histórico, além das mediações feitas quando grupos visitam o parque, seja o perfil que for”, ressalta Fernanda. Aos sábados e domingos é servido almoço típico holandês-indonésio. A Indonésia foi colônia da Holanda durante muito tempo e muitos holandeses que moravam naquele país também vieram para Carambeí.

 

Legenda: Parque de Carambeí resgata a história e a tradição cultural da imigração holandesa no Paraná

 

 

 

 

 

 

O tripé da cultura holandesa

Em comum as três colônias holandesas no Paraná guardam e passam de geração a geração a importância do tripé que, segundo os imigrantes, foi fundamental para o sucesso da colonização no Paraná: fé, escola e cooperativismo. Sem a união dos três, é consenso entre os descendentes que as colônias não teriam se desenvolvido e, sobretudo, se consolidado.

Toda colônia holandesa no Paraná possui igreja protestante, escola e uma associação cooperativa que mantém economicamente todos os moradores de Castrolanda, Carambeí e Arapoti.  Em Carambeí, por exemplo, para evitar a concorrência que começava a se instaurar na colônia, foi proposta a criação de uma cooperativa com o intuito de unir os imigrantes.

Assim, em 1925, nasceu a Sociedade Cooperativa Hollandeza de Laticínios, que em 1941 se tornaria a Cooperativa Mista Batavo. Em Arapoti, os imigrantes holandeses se reuniram na Cooperativa Agroindustrial (Capal), que já vinha sendo estruturada durante a chegada dos primeiros imigrantes.

A Cooperativa de Castrolanda nasceu antes mesmo de chegar ao Brasil. Idealizada na Holanda, os imigrantes já sabiam que formariam uma cooperativa em solo brasileiro. Hoje a bacia leiteira dos Campos Gerais, fomentada pelas cooperativas holandesas, é considerada uma das maiores do Brasil.

 

Castrolanda, chega a segunda leva de holandeses

Tryntje Salomons tinha apenas 14 anos quando embarcou, em outubro de 1953, no navio que atravessaria o Oceano Atlântico e a traria para um lugar completamente desconhecido. Era o quinto grupo holandês que vinha para Castrolanda, dois anos depois da chegada dos pioneiros da colônia.

Junto com o pai, a mãe e os quatro irmãos, Tryntje chegou a estudar um pouco de português antes de enfrentar quase um mês em alto-mar. “O fim da Segunda Guerra Mundial deixou a Europa em situação complicada. Então a gente teve que buscar outras opções e o governo brasileiro estava recebendo bastantes imigrantes da Holanda”, conta. Desembarcaram em Paranaguá com todos os móveis que tinham e mais o gado holandês que também veio na mudança. De maria-fumaça chegaram até Castro e de lá para a colônia.

Ela ajudava a família em todos os afazeres. Tirava leite das vacas e cuidava da lavoura. Mas no início o processo de adaptação foi difícil. Além de não compreender muito o idioma, a falta de estrutura dos primeiros anos de Castrolanda fez Tryntje desejar voltar para o país natal. “Não tinha luz, não tinha estrutura para viver. Lá na Holanda a gente tinha máquina de lavar roupa. Aqui não. Só tinha bicicleta e trator”, conta. Hoje ela só volta para a Holanda para visitar alguns parentes. “Já sou brasileira”.

Castrolanda começou a ser desenhada em 1951, 40 anos após a chegada dos pioneiros às terras de Carambeí. Era a segunda leva de colonizadores holandeses que, dessa vez, desembarcaram no município de Castro. O pós-guerra e as incertezas de uma Europa em processo de reconstrução motivaram a saída de muitos holandeses de suas terras.

A escolha pela região foi motivada principalmente pela proximidade com os membros da primeira colônia e pelos bons resultados conquistados pelos imigrantes em solo brasileiro. O clima favorável da região dos Campos Gerais também pesou para a escolha de Castro.

Organizados pela Sociedade Cooperativa de Emigração, as famílias se prepararam para encarar uma vida nova em um novo país. A cada 15 dias se reuniam para planejar os detalhes da fundação da Cooperativa Castrolanda, que já estava sendo idealizada antes mesmo da chegada dos imigrantes ao Paraná, e da mudança em definitivo para o Brasil, que aconteceria em sete grupos.

Em novembro de 1951, o navio com as três primeiras famílias de imigrantes deixou a Holanda. A bordo vieram mobílias, ferramentas de trabalho agrícola e gados acomodados nos porões.

A embarcação atracou na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e após uma pequena estada na Ilha das Flores, uma hospedaria de imigrantes do Brasil, o grupo partiu de trem para Castro. O primeiro grupo ficou alojado na casa sede da fazenda. holandeses_box3

À medida que recebiam suas caixas de mudanças com os instrumentos de trabalho, iam construindo moradias provisórias de madeira e estábulos para recepcionar os imigrantes que já estavam rumando para o Brasil. Era o pontapé para a criação da segunda colônia holandesa em terras paranaenses. De 1951 a 1954, 54 famílias chegaram a Castrolanda. O prédio da Escola Holandesa Prins Willem-Alexander foi construído neste mesmo ano para atender as crianças imigrantes. Em 1966, a Igreja Evangélica Reformada foi edificada e ainda oferece cultos em holandês e português.

 

Legenda: A Cooperativa Castrolanda já estava sendo idealizada antes mesmo da chegada dos imigrantes ao Paraná

 

A terceira colônia

Segundo a pesquisadora Letícia Fraga, foram estabelecidos acordos entre governos da Holanda e do Brasil que incentivavam o processo migratório. O incentivo foi tanto que o Paraná assistiu ao nascimento de uma terceira colônia holandesa, a de Arapoti, em 1960.

A vinda desses imigrantes foi fomentada por uma comissão de imigração integrada por moradores das outras duas já existentes – Carambeí e Castrolanda. As famílias recém-chegadas ocuparam as terras da antiga Fazenda Bela Manhã, com 5 mil hectares, pertencente ao ex-prefeito de Castro, Rivadávia Menarim.

 

Preservação cultural

A preservação cultural é um desafio de todo grupo étnico. Passar os costumes de geração a geração, ensinar o idioma e a importância de determinados trajes tornam-se desafios com o passar das décadas. Em Carambeí, por exemplo, as crianças falam cada vez menos em holandês. “Na escola não ensinam mais o idioma e com o tempo alguns hábitos vão se perdendo”, conta Douwtje van Westering, guia da cidade que abriga a primeira colônia holandesa no Paraná.

Já em Castro, onde a colonização é mais recente, grupos folclóricos visam resgatar e manter vivas as tradições dos Países Baixos. O Grupo Folclórico Holandês de Castrolanda, por exemplo, ensina danças e músicas para crianças e adultos. Em 1953, logo após a chegada das primeiras famílias holandesas a Castro, um grupo de jovens, liderados pela professora de Educação Física Thillij Kleinsmidt, formou o “Grupo Holandês em Tamancos”.holandeses_box5a

No ano de 1959, apresentou-se no 1.º Festival Folclórico e de Etnias do Paraná. A apresentação do grupo conta com trajes típicos e danças de tamancos.

“Hoje 24 integrantes participam do grupo. Além disso, as famílias fazem a gastronomia típica e a escola de Castrolanda ainda ensina o idioma holandês. Espero que essas tradições perdurem com o passar dos anos”, afirma Margje Rabbers, que é coordenadora do grupo folclórico.

Em 2016 foi inaugurado o Centro Cultural Castrolanda, que reúne os espaços de cultura e memória da comunidade, como o Museu Histórico de Castrolanda, a biblioteca, loja de artesanato e o Memorial da Imigração Holandesa que ocupa o moinho De Immigrant, inaugurado em 2001.

 

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