Cadê o intelectual brasileiro?

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É um dilema pensar sobre a importância do intelectual numa sociedade. Ele pode ser aquele que orienta, mostra caminhos e elenca discussões socialmente relevantes. Ou pode ser aquele que, no gozo do seu status, se considera como o capacitado para fazer tudo do enunciado anterior – e aí há um caráter um tanto elitizado do seu saber.

De uma maneira ou de outra, o intelectual é uma elite, uma das elites. Nesse caso, a elite pensante, os que são mais preparados a dar diagnósticos sociais.

Em 1965, na Revista da Civilização Brasileira, Leandro Konder afirmou que “Na consideração da evolução social e dos problemas humanos em geral, como também dos fatos culturais, isto é, na consideração das questões históricas sob a forma teórica mais elaborada, os intelectuais têm uma função social que, nas condições da vida moderna, é em princípio tão necessária quanto o trabalho do proletariado industrial”.

Onde estão os intelectuais brasileiros? Com quem eles estão dialogando? Qual a função social deles? Para responder a essas perguntas, é preciso compreender o momento pré-1964, os caminhos da ditadura e o ocorrido com a redemocratização.

 

Divisor de águas

Até o final da década de 1960, era comum um tipo de intelectual chamado público. Ele circulava e colocava suas ideias publicamente para um amplo grupo de pessoas. Muitos deles trabalhavam em jornais e lá expressavam suas ideias.

O contexto vivido favorecia a exigência de tomadas de posição. O mundo pós-guerra deu duas opções: ou você estava lá ou cá. E grande parcela da intelectualidade escolheu estar cá, isto é, alinhada à esquerda. Quem questionava ou discordava corria o risco de cair num ostracismo, o que aconteceu com as ideias filosóficas de Albert Camus que, em O homem revoltado, pôs em xeque a violência stalinista e foi acusado de favorecer a direita, culminando em seu racha com Sartre, cuja perspectiva se fundava no engajamento, na causa, contra o imperialismo. Ele dizia que “o intelectual é alguém que se intromete no que não lhe diz respeito”.

A ideia de engajamento ganhou força no Brasil. No final da década de 1950, era lugar-comum a adesão dos intelectuais às causas populares, o que soou um bocado falso, já que historicamente a causa que movera o intelectual brasileiro não era diretamente o “popular”, ele estava preocupado com a “questão nacional”: O que é o Brasil?, Quem são os brasileiros? Levando Daniel Pécaut, estudioso francês sobre Brasil e América Latina, a afirmar que “A ideologia lhes permite, além disso, ser elite quando necessário, ou povo quando conveniente”.

Os espaços ocupados pelos intelectuais eram os mais variados. Música, teatro, cinema, revistas, sem contar, e principalmente, o próprio Estado. Entre 1962 e 1964 (antes do golpe), circulou o Caderno do Povo Brasileiro, livro de bolso popular – de fato popular – onde se abordavam questões, muito didaticamente, sobre o Brasil. Temas como “Por que os ricos não fazem greve?”, “Vamos nacionalizar a indústria farmacêutica?” e o profético “Quem dará o golpe no Brasil?” (lançado em 1962) foram discutidos, além de outros. No texto de apresentação, a coleção traz o seu objetivo: “Os grandes problemas de nosso país são estudados nessa série com clareza e sem qualquer sectarismo: seu objetivo principal é o de informar. Somente quando bem informado é que o povo consegue emancipar-se.” A coleção pode ter chegado a uma tiragem total de 1 milhão de exemplares. Ou seja, havia uma grande aproximação entre os intelectuais e a população.

O Caderno do Povo Brasileiro tinha um complemento literário, também muito difundido e com caráter popular, chamado Violão de Rua, que trazia poesias de Ferreira Gullar, Moacyr Félix, Vinicius de Moraes e outros que denunciavam determinadas condições de vida nas favelas, no campo e convocavam a união do povo brasileiro. Violão de Rua é um dos expoentes da arte engajada.

Com a tomada do poder por parte dos militares em 1964, muitos são expulsos do aparato estatal e tomam a frente da sociedade civil para discutir problemas agora vinculados à ditadura, pois até então o que vinha na esteira era o nacional-desenvolvimentismo e um projeto de nação. Os militares interrompem e enterram isso.intelectual_2b(enio)

Nos quatro primeiros anos de ditadura, porém, a liberdade para se discutir determinadas questões e realizar certas críticas era relativamente frouxa. Nesse cenário, surge a Revista da Civilização Brasileira (RCB), da editora homônima, que circulou entre 1965 e 1968, de propriedade de Ênio Silveira, filiado ao Partido Comunista (PC). A publicação trazia muitos textos com orientação marxista, embora o próprio Ênio tenha afirmado que ninguém orientava as edições, ou seja, o PC não metia o bedelho.

(O referido PC não é o PCdoB, partido da Manuela D’Ávila; é o partido criado em 1922. O PCdoB surgiu em 1962 a partir de uma dissidência do PCB.)

Foram três anos de amplo debate na RCB, trazendo inclusive traduções inéditas no Brasil. O AI-5 põe fim a isso tudo. A censura pesa a mão, os Inquéritos da Polícia Militar (IPMs) tornam-se frequentes e as represálias, mais severas. Muitos intelectuais são exilados. O próprio Ênio é preso e chamado a depor diversas vezes. A vida cultural é posta em risco. Apesar disso tudo, é importante ter em mente que a censura não censurou a música, o teatro, o cinema e/ou a produção intelectual de forma genérica. Músicas, peças, filmes, livros foram censurados. Os militares tinham interesse na produção intelectual, não naquela considerada subversiva, mas fazia parte do projeto de poder deles o avanço do país, com isso incentivaram produções científicas nos moldes tecnocratas. O ensino universitário recebeu considerável investimento, mas a estratégia do governo militar era dar um espaço à elite pensante, e que não saísse daquele espaço. Dessa forma, a universidade torna-se um QG que ficou sufocado nele mesmo.

O intelectual público, que circulava e fazia circular suas ideias, principalmente no Rio de Janeiro, entre os anos de 1968 e 1974, confinou-se num lugar quase privado. A USP foi a impulsionadora desse movimento de trazer o intelectual para dentro da academia, pois foi considerado ideologia o que era feito até então, ou seja, o que o Rio de Janeiro produzia com suas ideias marxistas e nacionalistas advindas da década de 1950 não era ciência. Para se produzir ciência havia um lugar: a universidade. E essa ideia de cientificidade e de produção intelectual se disseminou para o país e lugares de debate público, como a própria RCB, foram sendo estrangulados. À época a revista era um sucesso, como afirmou Moacyr Félix, diretor junto com Ênio Silveira: “A revista da Civilização foi o maior sucesso possível. O Ênio tirava 20 mil exemplares, vendia todos. Tanto que Sartre, conversando com Ênio, estranhou muitíssimo, porque ele tirava 3 mil exemplares de sua Les Temps Modernes. Ele disse: ‘Meu Deus, uma revista de intelectuais, de ensaios!’”.

Com a indicação de redemocratização de Geisel, outros espaços foram sendo criados e os intelectuais voltaram a ocupar o debate público. Mas agora com outros objetivos. Acadêmicos voltaram-se à política, caso de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. Sobre esse cenário Pécaut afirmou que “os intelectuais brasileiros se entregam à ação política sem nenhuma hesitação e como se tivessem qualificação especial para fazê-lo. Em muitas ocasiões, eles se tornam protagonistas políticos centrais”, chegando até à presidência.

Os que não se vincularam aos partidos continuaram na universidade. Ao ponto que hoje o intelectual brasileiro é aquele que está num prédio e vai a congressos apresentar artigos de 20 páginas para uma plateia de 15 pessoas. Essa é a elite pensante do país.

Há um outro tipo: aquele intelectual que não toma partido frente às causas e discursa como se fosse um livro do Augusto Cury, como Leandro Karnal, Clóvis de Barros Filho e Mario Sérgio Cortella. Aprenderam a dizer o que se quer ouvir citando Kant ou Nietzsche ou qualquer outro filósofo que não dialoga com a realidade brasileira. (Uma voz que se destaca nesse cenário, quer discutir os problemas do Brasil e se propõe a fazer isso publicamente é Jessé Souza, que ocupa um dos únicos – talvez últimos – redutos do intelectual para dialogar com o público: o mercado editorial.)

Os intelectuais brasileiros deram as costas ao Brasil e agora gritam, se mobilizam, se engajam em lutas quando a bolsa está para ser cortada. É preciso que os intelectuais voltem a ocupar e debater com a sociedade civil projetos de nação.

O lugar do intelectual até a década de 1970 foi ocupado pela indústria cultural, pelos partidos políticos e, em partes, pelos movimentos sociais. Gostemos ou não, uma nação precisa de uma elite pensante que não está fechada em si própria e nem preocupada em fazer conchavos dentro de partidos. É urgente para a vida social e política do Brasil a presença do intelectual.

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