E daí, já sabe em quem votar?

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As pesquisas de opinião mais sérias continuam a informar que a maioria dos eleitores está indefinida ou, ao menos, indecisa, a poucos dias do pleito. A situação é a mesma tanto para a presidencial quanto para as estaduais. Outra informação importante: o índice de abstenção vai ser altíssimo. E a tendência é a de que os políticos mais conservadores, que dispõem de base eleitoral, apoio de prefeitos e lideranças municipais, se elejam aos magotes.

Ora, pois, não está fácil se definir por um candidato, quando somos surpreendidos com prisões, buscas e apreensões, processos, denúncias de falcatruas, propinas, desvios. A ladroagem, enfim, que correu solta em todas as instâncias de governo e de poder. O cidadão deixou de acreditar nos políticos. Especialmente nos mais conhecidos. Isso abre campo para o velho golpe do novo, o que nunca foi corrompido, o de ficha limpa. Como se honestidade fosse um pré-requisito para ser político, não uma qualidade que deve constituir o caráter de todo cidadão de bem.

Quem diria, há um ano, que veríamos o então governador do Paraná, Beto Richa, ser preso e se ver encalacrado até o pescoço nas investigações que apuram desmandos e ilícitos enquanto esteve à testa do poder. Também não imaginávamos que o ex-presidente Lula ficaria tanto tempo na prisão e teria seus direitos políticos cassados. Para quem tinha esperanças de que o Brasil se aproximasse da contemporaneidade do mundo desenvolvido com o fim da ditadura, caiu do cavalo.em_quem_votar_1ulysses

Saímos das trevas do vinteno militar com o coração cheio de esperanças e de ilusões. Quando Ulysses Guimarães saudou de braços abertos a “Constituição Cidadã” de 1988, parecia que o país tinha encontrado finalmente a terra onde correm os rios de leite e mel. Uma cornucópia de direitos saltou da Constituição como se o Brasil tivesse descoberto o reino da socialdemocracia perfeita: muitos direitos, alguns deveres e a felicidade, o bem-estar e a imortalidade garantidas por lei.

Mas sempre haverá no mundo os desmancha-prazeres, que os detratores chamam de “cabeças de planilha”, lembrando a velha e antipática máxima de que “não existe almoço grátis”. O pior é que não existe mesmo. Depois de 30 anos de democracia, estamos encalacrados de novo: o primeiro presidente eleito pelo povo depois da ditadura foi afastado por impeachment. Fernando Collor não passava de um aventureiro carreirista que pensava mais em seus jardins do que em seu País. Um malandro falsamente sofisticado, com ares de finório, vulgar como um novo-rico, colecionador de Lamborghinis e uma vocação de estroina.

 

Anos de remendos

Vieram os anos de remendos e de reconstrução do Plano Real, em que se tentou construir uma plataforma de relançamento de um país mais responsável e com os pés no chão, assentado sobre uma moeda que tinha deixado de ser a caricatura que foi durante todos os anos em que mudou de cara, de nome e de valor, até virar uma piada de mau gosto, que em 29 anos perdeu 1.142.332.741.811.850% de seu valor. Isso mesmo: um quatrilhão e alguns quebrados.

O patrimonialismo e o populismo tão arraigados na alma brasileira tiveram um breve descanso, até que voltamos de repente aos rios de leite e mel, só que sem leite e sem mel. A jovem democracia relançada menos de 30 anos atrás pegou o atalho errado na encruzilhada da estrada e, já com aparência de velha e caquética, apresenta rugas de senilidade precoce, mergulha num mar de incompetência e chafurda num universo moral mais parecido com o de uma cloaca do que o de um país jovem, cheio de potencial e de um futuro brilhante pela frente.em_quem_votar_3realitamar

Os sinais de fracasso estão em toda parte, no Executivo, no Parlamento, no Judiciário, nos partidos políticos, nas universidades, nas escolas, nos vários segmentos sociais atingidos pelo desalento da falta de um mísero sinal de luz no fim do túnel. Para onde vamos? Vamos institucionalizar mesmo um país onde é “a coisa mais natural do mundo” que empreiteiras prestem favor a governantes e ex-governantes, e onde fraudar contratos de merenda escolar e enfiar uma parte do dinheiro no bolso é uma prática aceita com um olhar complacente? Melhor começar de novo. Isto não vai dar certo.

 

A safra de frustrações

Houve sincera esperança de que começaríamos nova fase na vida do país com a chegada do PT ao poder. Qual o quê! Todas as esperanças foram frustradas. O PT errou ao não ter feito a reforma política no primeiro ano do governo de Lula. Aí não mudou os métodos do exercício da política. Ficou usando as ferramentas que já eram usadas, do financiamento privado (para campanhas eleitorais). O resultado é que o PT, que não foi treinado para isso, encarnou o ditado “quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza”.

Subestimar a inteligência alheia e tratar as pessoas como se elas tivessem dificuldades de discernimento é um dos maiores pecados da histórica soberba do PT. Somos otários, Jaques Wagner? Não, não somos. O PT montou esquemas de assalto aos cofres da Petrobras (com a parceria dedicada do PMDB e do PP) por falta de reforma política? O mensalão e o petrolão existiram porque “o PT não foi treinado para isso”? (Imaginem a catástrofe que seria se o partido fosse treinado para isso…). A quem Jaques Wagner acha que está enganando?em_quem_votar_4lula

Para azar do ministro-chefe da Casa Civil, o que ficou de sua narrativa fantasiosa foi só o high-light da manchete: o PT se lambuzou. O resto da digressão se perdeu na poeira das palavras ao vento. Por isso ele foi repreendido por um petista mais cosmopolita, mais escolado do que o baiano em questões de uso cauteloso da linguagem. Tarso Genro, que passa por reformista e eterno candidato a “refundador” do partido, já escolado na tergiversação desde o asilo concedido ao terrorista e assassino italiano Cesare Battisti, condenado em seu país por participação em quatro homicídios, puxou-lhe as orelhas:

“As declarações que ouvimos hoje das lideranças do PT que ainda estão livres para falar fazem coro com o antipetismo raivoso que anda em moda na direita e na extrema-direita no País. Com a responsabilidade que ele tem, deveria ser menos metafórico e mais politizado em suas declarações”.

A terceirização da culpa é outra das características do DNA petista. Atrás de qualquer fracasso, há sempre um culpado em quem descarregar a ira. E esse culpado nunca está entre eles. Será difícil ao tergiversador Tarso Genro encontrar qualquer traço de direitismo, extremo ou não, nas palavras do professor Eugenio Bucci, petista histórico do tempo em que se acreditava estar nadando em águas limpas. Ele escreveu no final de seu artigo desta semana, no Estadão:

“Por que a corrupção, que antes seria uma intercorrência, ganhou o estatuto de método? Como a corrupção submeteu o partido aos ditames do capital selvagem? Se querem mesmo falar de política, é disso que o PT e a presidente precisam falar. Mas eles não podem. Têm medo do inferno. E ardem”.

 

Virou pancadaria

A política virou essa geleia em que fica difícil distinguir ideologias, programas, ideias. E no comportamento todos se equivalem. Resultado: a política virou uma arena de acusações, denúncias, agressões. Não são poucas e nem recentes as vozes que denunciam a crescente intolerância na disputa política. Mas neste país que insiste em errar muito e quase nada aprender com seus erros, dificilmente a barbárie cometida contra Jair Bolsonaro servirá como freio de arrumação. Ao contrário: os opostos que se digladiam com incivilidade e ódio recarregaram suas baterias.em_quem_votar_5bolsonaro

Nas redes sociais, dominam a belicosidade e as acusações sem pé, cabeça e muito menos lógica, incluindo até promessas de revanche feita por fiéis. Fora delas, mais absurdos. No palanque do Grito dos Excluídos, realizado na Avenida Paulista como contraponto às comemorações oficiais do 7 de Setembro, o candidato a governador pelo PT, Luiz Marinho, levantou dúvidas quanto ao atentado – “não vi sangue”. Nivaldo Orlandi, do PCO, disparou a máxima: “anjinho fascista não merece solidariedade”. A presidente deposta Dilma Rousseff jogou a culpa na vítima, aplicando o popular dilmês ao dito popular: “quando se planta ódio você colhe tempestade”. No dia seguinte, demitiu sua assessora de imprensa por usar raciocínio idêntico.

Na outra ponta, o general Antônio Mourão, candidato a vice de Bolsonaro, antecipou-se às investigações e apontou o culpado: “Eu não acho, eu tenho certeza, o autor do atentado é do PT”. Tudo a contribuir para acirrar mais os ânimos. Ainda que os candidatos embolados no miolo das pesquisas eleitorais – Ciro Gomes, Marina Silva e Geraldo Alckmin – tenham se manifestado com velocidade e contundência contra qualquer tipo de violência, suas falas não conseguem ter a efetividade que as mensagens de ira alcançam.

Se quiserem contribuir para baixar a fervura, terão de ir além do discurso protocolar. Usar seus preciosos minutos no horário eleitoral em nome da pacificação, agir contra a guerrilha nas redes, desarmar correligionários. O problema é como dosar isso sem abrir flancos para o opositor hospitalizado, cuja turma é eficiente no marketing. A começar pelos filhos, que correram para misturar informes do estado de saúde do pai com slogans de campanha.

 

Todos perderam a razão

Bolsonaro é vítima e qualquer lado que se utiliza do atentado perde a razão. Insere-se em um país no qual facas e tiros fazem parte do cotidiano das pessoas, um país recordista em crimes violentos, com 62,5 mil vítimas, segundo o Atlas da Violência 2018. País em que esses números obscenos não envergonham e muito menos provocam as autoridades públicas a combatê-los com seriedade.

A execução sumária de Marielle Franco, ainda não elucidada, foi incapaz de lançar luzes na quase uma centena de prefeitos e vereadores assassinados na última década. A teia de episódios que tirou a vida do prefeito de Santo André, Celso Daniel, e de sete testemunhas do crime acendeu o alarme, mas continua sem solução. Os 79 candidatos mortos em campanha eleitoral entre 2000 e 2016, que só vieram a público em um excelente trabalho da UniRio, não comoveram ninguém.

Resta a torcida para a rápida recuperação do candidato do PSL. E, embora pouco provável em um país que insiste em nada aprender, para que essa faca possa despertar a consciência dos que usam a liberdade intrínseca da democracia para degradá-la com ódio e fel.em_quem_votar_7mariellefranco

 

Enredo de novela ruim

É diante desse enredo histórico ruim e que termina com o naufrágio impávido do país na mais extensa crise de toda a sua história, que o brasileiro tem que escolher em quem votar. A primeira pergunta que ele faz é se o candidato tem ou não culpa no cartório. Ou seja, quer saber se o nome que lhe apresentam está livre de acusações ou denúncias de corrupção.

A segunda pergunta é sobre as ligações que ele possa ter no mundo da política. Se pertenceu, pertence ou tem ligações com outros políticos, empresários ou grupos denunciados por corrupção.

Só então ele passa a avaliar o candidato segundo seu trabalho, suas ideias, seu desempenho. Convenhamos, é triste pensar que chegamos ao fundo do poço e que já não é possível confiar em ninguém sem uma revisão apurada das informações disponíveis.

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