Editorial. Ed. 204

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Chegamos ao dia das eleições e a maioria ainda não sabe em quem votar. Outra parcela vai votar nulo ou branco. Ou simplesmente vai se abster. Não é a solução. Votar ainda é a única maneira pela qual poderemos mudar alguma coisa. Eximir-se abre espaço para o que há de pior nesse processo, que são os antidemocratas saudosos do regime fardado.

Dizer que não há clima para um golpe é bobagem. Dizíamos o mesmo em 1964 e colhemos duas décadas e meia de ditadura. Os liberticidas estão aí, prontos para ocupar o poder na primeira oportunidade.

“É preciso confessar que a liberdade é a mais difícil das provas que podemos propor a um povo. Saber viver em liberdade, eis aí um dom que não foi igualmente distribuído entre todos os homens e todas as nações. Talvez se possa até classificá-los, homens e nações, segundo sua maior ou menor aptidão para serem livres.”

Assim escrevia o francês Paul Valéry no ano de 1938, numa época em que a Europa caía sob o domínio de Hitler.

Pois Valéry é atualíssimo para nós, brasileiros. Nossa veia liberticida é forte. Temos experiência democrática muito frágil, mínima, se pensarmos nossa trajetória como País. A mais longa e a mais plena é esta que vivemos agora, com todas as restrições herdadas e que se acumulam em leis, regras e obrigatoriedades.

Mesmo aqueles que chegaram a lutar por democracia em outros tempos, e que acreditávamos heróis libertários em nossa ânsia de criar mitos, acabam por se revelar tão autoritários quanto seus algozes, engrossando o vozerio contra a liberdade de expressão.

Uma erupção dessa sanha liberticida é o que se vê agora na intolerância da guerra de informações na internet. Até aqueles que um dia levantaram a voz contra o regime fardado e suas mazelas, entre elas a censura, passaram a exigir censura prévia ao trabalho de biógrafos e historiadores.

É vergonhoso que alguém ainda acredite que a liberdade de expressão, um bem maior, deva ser suprimida para garantir que só escrevam bem de seu caráter e de sua obra. Além de vergonhoso, é uma manifestação de idiotia. Nosso historiador José Murilo de Carvalho listou cinco razões definitivas para não se ler biografia autorizada:

  1. Porque é press-release do biografado ou dos herdeiros.
  2. Porque é autobiografia terceirizada.
  3. Porque não há punição para falso elogio.
  4. Porque pasteuriza e desumaniza o biografado.
  5. Porque é uma chatice.

Ao escrever sobre as tentações liberticidas e ao falar sobre as coisas que ela dissipa, Valéry disse: “Entre essas coisas dissipadas, a liberdade. Muitos se resignam facilmente a essa perda”.

Não há dúvida de que o dilema que afligia Valéry em 1938 permanece entre nós. Nem todos os povos, incluídos nós, brasileiros, parecem igualmente dotados para a liberdade e muitos homens se resignam demasiado facilmente a perdê-la.

Ou não é isso que acontece hoje com esse movimento tacanho, que chegou ao cúmulo de uma tentativa de assassinato contra o candidato Jair Bolsonaro?

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