Exilado em Macondo e O bom cozinheiro

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Quem é Vicente Ferreira? Sabe-se pouco sobre este homem esguio, que ouve Dmitri Shostakovitch com paixão e lê desenfreadamente, o que o faz indicar sempre um livro aos amigos. Nasceu em Curitiba, em 1951. Foi amigo de escritores como Jamil Snege, Wilson Bueno, Nêgo Pessôa e está sempre a reclamar a ausência dos contemporâneos. Além da leitura, Ferreira é um chef de cozinha incomparável, o que lhe rendeu crônicas antológicas nesta revista Ideias. Nesta edição, dois desses textos saborosos.

Exilado em Macondo

Li Cem anos de solidão em 1967, quando o regime fardado me hospedou como perigoso subversivo da ordem ditatorial. Tinha 20 anos e uma sede insaciável de liberdade. Refugiei-me em Macondo. Passei a viver um universo paralelo de personagens delirantes, cenas prodigiosas em que mito, fantasia e realidade se confundiam. Morreu García Márquez e ele está em mim desde a primeira vez que o li.

Fascinado, li e reli o livro e dividi com Cordato Pasqualini, companheiro de cela, a inventiva deslumbrante de García Márquez. Organizamos numa página colada à parede da cela a grande árvore genealógica dos Buendía. E repetíamos à exaustão o esplêndido início do romance.

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de casas de barro e taquara, construída à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las havia que apontá-las com o dedo.”

Ao avesso do que se espera, no instante do fuzilamento, o coronel Aureliano não pensa na morte e sim na tarde em que, conduzido pelo pai, conheceu o gelo, o que banaliza o caráter trágico da cena.  O personagem rompe com o presente e recupera um fato remoto, que ao lado de certas antecipações do futuro é processo nuclear da composição do texto, fazendo com que passado, presente e futuro mantenham entre si divisórias flutuantes, por vezes imperceptíveis.

Cem anos de solidão constrói um mundo ficcional fascinante. Com suas infinitas superposições de sentidos; com sua quase inacreditável coerência interna, levando-se em conta a multiplicidade de ações e a galeria de pelo menos 60 personagens importantes; com seu eixo girando em torno de várias temporalidades em que o mágico e o racional se chocam e se confundem; com suas seis gerações da mesma família sendo amaldiçoadas pela culpa, pela sede de viver e pela abrasadora necessidade de decifrar o absurdo da existência; com seu poder de apresentar o mais convincente simulacro da vida real mediante um estilo luminosamente poético.

O final do livro é extraordinário. Precedido por ataque de formigas e por vozes que chegam do passado, o mundo anacrônico de Macondo inicia a sua decomposição sob o efeito de um terrível ciclone, enquanto o último dos Buendía, Aureliano Babilônia, começa a decifrar os pergaminhos do cigano Melquíades, onde tudo estava antevisto: o destino da estirpe e da cidade, ambas inexoravelmente conduzidas pela fatalidade  à destruição, ao fracasso existencial, cristalizado na irrevogável solidão que acompanha os seres na travessia enganosa do tempo, e à inutilidade das ações humanas diante do abismo do nada.

O texto atribuído a Melquíades é também claramente histórico: ali estão a Colômbia, com suas guerras fratricidas, seus coronéis de uniforme ou de pijama, a companhia bananeira, as chuvas tropicais, o nascimento, o progresso e o declínio de um ciclo econômico e de um tipo de sociedade dominada pela consciência sacral do mundo. Contudo, os pergaminhos ultrapassam o cotidiano, o mito e a história. Aureliano Babilônia descobre na página final que eles desvelam a passagem arrasadora do tempo,  o império da morte e da condenação ao esquecimento a que todos os seres são submetidos. A incessante busca pelo significado daquelas palavras enigmáticas chega ao fim. Não há retorno, não há segunda oportunidade sobre a terra. Há apenas a solidão. O último dos Buendía descobre que não escapará à desintegração da cidade que seus antepassados fundaram.

Depois vieram a mim os outros livros de García Márquez. Dos anteriores aos Cem anos de solidão, La hojarasca, Ninguém escreve ao coronel, Os funerais de mamãe grande. E os maravilhosos O amor nos tempos do cólera, Crônica de uma morte anunciada e Doze contos peregrinos. Nunca mais me distanciei de García Márquez e de Macondo. A sua inesgotável proliferação de episódios, centrados em torno dos Buendía, em que avultam crimes, ímpetos guerreiros, ódios e paixões familiares, excentricidades, sexo irrefreável, relações incestuosas, perversas, poéticas, num formidável desfile de personagens arrastados pela espiral do tempo e contaminados pela praga da solidão.

A dualidade não resolvida entre dois processos civilizatórios engendra tensões e, sobretudo, a possibilidade de García Márquez romper com todas as amarras do realismo trivial através de uma imaginação criadora transbordante, em que o arbitrário, o hiperbólico, o humor corrosivo e as distorções mais fantasiosas tornam-se convincentes.

Tamanho é o poder de sua escrita que podemos vislumbrar Macondo e sua gente se alçando por sobre o pavoroso tufão que varre o mundo, erguendo-se por sobre as contingências do Juízo Final – para sobreviver. Eles sobrevivem em nossas mãos, transformados em palavra escrita, a superar o tempo, ultrapassar a morte, negar o seu destino, criaturas perenes convertidas em frases, em urdiduras sem fim, em tempo e espaço infinitos, indestrutível matéria literária que desabrocha, consolida-se e salva-se em pergaminhos anacrônicos.

Que outra literatura mais se aproxima da realidade que nos oferece personagens e situações como os descritos por García Márquez em seu discurso ao receber o Nobel de Literatura? Que outra ficção se pode escrever num mundo que viu o “general Antonio López de Santana, que foi três vezes ditador do México, mandar enterrar com funerais magníficos a perna direita que perdeu na chamada Guerra dos Bolos. O general García Moreno governou o Equador durante dezesseis anos como monarca absoluto, e seu cadáver foi velado com seu uniforme de gala e sua couraça de condecorações, sentado na poltrona presidencial. O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teósofo de El Salvador que fez exterminar numa matança bárbara 30 mil camponeses, tinha inventado um pêndulo para averiguar se os alimentos estavam envenenados, e mandou cobrir de papel vermelho a iluminação pública para combater uma epidemia de escarlatina”.

Devemos agradecer a Gabo pela paixão tardia de um ancião de 90 anos por uma adolescente virgem. Pelo amor de Firmina Dazo e Florentino Ariza, que demorou 53 anos, 4 meses e 11 dias para se concretizar. Pela morte anunciada de Santiago Nazar. Por nos dar Macondo e um universo onde podemos exilar a imaginação para sobreviver a este cada vez mais insípido vale de lágrimas.

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O bom cozinheiro

Aprendi a identificar o caráter e a formação das pessoas por indicadores que pouco são levados em conta. Um deles, entre os mais importantes, é a relação com a cozinha. A maioria dos meus amigos são cozinheiros. Ou tentam ser. Quem cozinha costuma ser generoso. Ninguém prepara comida apenas para si mesmo. O cozinheiro quer ver a satisfação dos comensais. E não há nada mais fraternal, festivo, alegre, do que uma boa mesa.

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Converso muito sobre culinária com os amigos. Temos referências comuns. Uma delas é um juiz francês nascido em meados dos anos 1700, que escreveu um apanhado de meditações sobre a comida, seus modos e o amor pelas receitas intitulado A fisiologia do gosto, em que teoriza, com ironia fina, a respeito de coisas que governam o bem cozinhar, o bem receber e o bem comer. Jean Anthelme Brillat-Savarin. É dele o adágio que todos respeitamos: “o bom cozinheiro se chega, o bom assador se nasce”. Savarin, quando não estava preparando faisões recheados, mignon ao molho de trufas ou omeletes de atum, passava os dias e as noites a organizar degustações e a defender a capacidade de servir receitas acalentadas no forno como um talento nato surgido com o próprio cozinheiro. Qualquer um, ele dizia, pode aprender as medidas e as técnicas de qualquer prato, cru ou cozido, doce ou salgado, picante ou suave, desde que feito do lado de fora do fogão. Seu interior, ao contrário, exige um dom genuíno, de raízes profundas, tal e qual a liberdade do velho poema sobre a palavra humana que o sonho alimenta.

Outra referência nossa é uma escritora nativa de estômago forte, coração inquieto e alma cigana, que nos ensina que a verdadeira cozinha é feita por quem adiciona um fio de azeite enquanto sonha, acrescenta uma pitada de sal enquanto dança ao som do rádio, pesa sem balança, marca o tempo sem relógio, vigia o assado apenas com os olhos da alma, mistura ovos, manteiga e farinha guiada exclusivamente pela inspiração. Esta amiga querida cozinha exatamente assim. Sem testemunhas. E sem receitas definitivas. A improvisar sempre como um músico de jazz.

Eu sou o oposto. Gosto de estudar o tempo certo do cozimento, a textura conveniente dos ingredientes, a intensidade exata do fogo, a forma adequada do tabuleiro, equilíbrio no tempero, harmonia na textura, paciência na espera. Com o tempo desenvolvi preferências. De intensa convivência com a cultura árabe através de amigos como o Turco, ficou o gosto pela culinária dos sírios e dos libaneses, o chancliche envolvido em azeite e servido com folhas de pão na grande mesa de madeira, berinjelas recheadas, folhas de couve e repolho ao redor do arroz com especiarias, cebolas cruas com quibe e por fim uma colherada generosa de pasta de gergelim.

Das origens caseiras de minha avó vieram o feijão espesso do qual ainda hoje sinto o cheiro e os refogados. De meu avô materno, uma exótica salada de músculo de boi com azeitonas, tomate e temperos posta na mesa com pães frescos que chegavam pouco antes do almoço. Em casa aprendi muito. Minha dificuldade inicial foi o arroz. Levei muito tempo para chegar ao ponto. Aprendi com um amigo mineiro a fritá-lo antes do cozimento para evitar os blocos que denunciam a subestimação da tarefa e o excesso de água.

Os assados aprendi com a mamãe. Temperatura, tempo, a forma de água para evitar ressecamentos. Da tradição do pai, a italianidade do Veneto. O frango inteiro recheado com farofa úmida. A macarronada feita na mesa grande da cozinha. Massa sovada, estendida e enrolada como rocambole para ser cortada a faca e sair em tiras. Talharim perfeito.

Às vezes os amigos chegam e enchem a casa de uma alegria que deixou do lado de fora presunções e teorias complexas sobre a vida e a literatura. Alguns me faltam. O Turco, o Coski, o Bueno, o Oswaldo Loureiro. Não os vejo mais a rir, cantar e dançar diante dos pratos mais simples como se fôssemos convidados do banquete preparado por Babette, redimidos da culpa e da guerra pela boa mesa e plenamente conscientes de que o céu também se faz nos pequenos encantos da vida.

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