Meu amigo comunista

armando

Tenho um amigo comunista. Ele diz que não, mas é. Foi o primeiro amigo que fiz em Curitiba, tão logo cheguei em 1966. Eu o encontrei na antiga Escola Técnica Federal do Paraná, um extraordinário repositório de talentos na formação de técnicos de nível médio e que foi lamentavelmente desconstruída pela incompetência e falta de visão dos governos que se seguiram.

Eu fazia marcenaria e ele estofaria. Tínhamos planos de montar uma fábrica de móveis para concorrer com a Cimo – uma referência em qualidade naqueles idos –, mas, como éramos garotos, o empreendimento ficaria para depois das brincadeiras, se sobrasse tempo, óbvio!

Éramos, segundo o conceito daquela época, garotos levados. Gazeávamos aulas chatas, compúnhamos paródias sobre professores, colocávamos pechas nos outros e inventávamos regras falsas da direção da escola, em detrimento dos alunos, colando o “edital” apócrifo nos banheiros dos meninos. Era um prazer inenarrável ver aquele alvoroço e, às escondidas, morríamos de rir. Para completar, vivíamos brigando com colegas adversários quase toda semana e, não raro, frequentávamos a diretoria. Formávamos uma inseparável gangue de dois.

Um dia, sem que notássemos a passagem daqueles tempos tão divertidos, fomos mandados embora para sempre e nunca mais nos encontramos. Por fim aquela escola acabou e só sobrou a saudade, dela e do amigo tão parceiro que se fora num dia perdido na memória. Hoje tenho a impressão de que esse amigo se tornou comunista por causa dessa escola. Havia ali uma igualdade entre todos que estudavam e a certeza de trabalho no futuro. Tínhamos uma vida que se mostrava promissora, mas perdemos o paraíso, sem o direito de reconquistá-lo.

Certa tarde, passados mais de vinte e cinco anos, o acaso se encarregou do reencontro. Os moleques não mais existiam. Agora um era advogado e o outro, jornalista. Abraçamo-nos efusivamente como velhos amigos, embora só tivéssemos convivido por um breve período da infância. Foi inevitável retomarmos a convivência com encontros em almoços e jantares onde passamos a discutir lembranças nebulosas, filosofia, literatura e ideologia, pois afinal, queremos uma pra viver, como diria Cazuza. Foi aí que descobri que meu amigo se tornara um ferrenho comunista, apaixonado pelo velho sindicalista e “inimigo” do juiz celebridade que, a seu ver, protege a direita canalha e se deslumbra com o assédio da mídia e dos burgueses da classe média, sem nunca obter o respeito do proletariado.

Nossas discussões são hilárias, haja vista que sou avesso ao comunismo e me alinho politicamente com o anarquismo contra todo e qualquer político, seja de que linhagem for. Ele não entende meu posicionamento, me acusa de ser um direitista militante chamando-me injustamente de “serviçal dos Estados Unidos”. Aprendi que o comunista tem um lado hilário, pois já dei muita risada com essas acusações absurdas, mas às vezes fico bravo com essa insistência petulante, no entanto deixo pra lá em nome da velha amizade que ainda nos une.

Meu amigo comunista, que nega que é comunista, me ensinou que comunistas não são pessoas fáceis de convencer. Estão o tempo todo doutrinando alguém com seu dogmatismo ferrenho e cansativo. Para eles, não existe comunista corrupto ou ladrão. Isso é coisa da direita. E não adianta contra-argumentar Engels e Marx. É pior pra você. O problema é que meu amigo evoluiu muito rapidamente, do socialismo científico para o comunismo, e quer me doutrinar a qualquer custo, dizendo que mudaríamos a história do Brasil se nos uníssemos.

Daí me lembro do velho amigo de infância, quando traçávamos planos para “abalar as estruturas” da velha Escola Técnica Federal do Paraná e me dá uma vontade imensa de convidá-lo a, juntos, compor uma última paródia, agora usando o hino da Internacional Socialista. Para isso meu amigo teria que ser, no máximo, um socialista utópico, tirando da algibeira o antigo espírito comediante. Eu já estou pronto, mas meu amigo agora é comunista. E a história conta que o comunista cai em si, não por convencimento alheio, mas por reflexões solitárias enfrentando duras verdades. Quem sabe um dia?

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